Somos todos iguais. Todos amamos, tememos, desejamos. Todos sentimos vergonha e orgulho, alegria e tristeza. Todos nascemos e morremos iguais – sozinhos. São as pessoas que encontramos nessas poucas e rápidas décadas de existência que nos completam e nos alimentam e nos fazem quem somos. E depois, independente de nossa história, desaparecemos no esquecimento eterno. Ao entendermos isso, todos os nossos preconceitos soam apenas como mesquinhez medíocre e triste. Esse parece ter sido, para mim, a razão por trás da criação da série Sense8, produção da Netflix que durou duas temporadas e terminou ontem em um episódio especial de 152 minutos.

A série de ficção científica conta a história de 8 jovens, homens e mulheres, com vidas absolutamente diferentes, nascidos em partes distintas do globo, no mesmo dia, hora e minuto. Cada uma dessas pessoas é um “Sensate”, ou Homo Sensorium, uma evolução do Homo Sapiens. Possuem a capacidade de conectar suas mentes de uma maneira plena, de tal forma que todo o conhecimento e habilidades de um membro do grupo são compartilhados por todos os outros, bem como todas os seus sentimentos e sensações físicas. Isso concede a tais pessoas capacidades “sobre-humanas”, já que oito cabeças pensam melhor que uma, e oito experiências de vida tornam cada um dentro do grupo capaz de realizar feitos extraordinários. A descoberta de que existem pessoas tão diferentes dos humanos comuns atrai o medo, a raiva e a ganância de uma organização internacional, colocando-os, portanto, em perigo iminente.

Terrence Mann in Sense8 (2015)

Os protagonistas da série são uma amostra interessante da variedade humana: Riley – uma DJ Islandesa com um passado sinistro, Will – um policial americano que tenta superar uma tragédia em sua infância, Kala – uma farmacêutica indiana devota de Ganesha, Lito – um ator mexicano de filmes de ação que teme que a mídia descubra sua homosexualidade, Capheus – um motorista de van numa favela no Quênia, Nomi – uma hacker transexual feminina de São Francisco, Sun – uma campeã de Kickboxing, filha de um grande industrial em Seul, e Wolfgang – um membro de uma familia de mafiosos que controla o crime organizado em Berlin. A série explora amplamente a idéia de que, se pudéssemos sentir o que o outro sente, seria muito difícil julgá-lo da maneira como o fazemos, narrando de forma simultânea as dores e alegrias de pobres e ricos, caucasianos, latinos, negros e asiáticos, hetero e homossexuais.

Suas criadoras, as irmãs Lilly e Lana Wachowski (as mentes por trás do mega-sucesso Matrix, filme já seminal votado em nosso Top 10 – Filmes de Ficção Científica e Top 10 – Filmes de Herói ) – ambas transexuais – levaram o conceito de “igualdade em nossas diferenças” a mares nunca antes navegados, mostrando de forma transparente e franca a vida íntima de pessoas de todas as sexualidades. Há a nudez total tanto de mulheres quanto de homens (adimira-me que em 2018 um pau aparecendo na tela ainda seja novidade) e aborda o sexo de uma forma peculiar. Em sendo todos os protagonistas Sensates, ou seja, todos com suas mentes interligadas, quando um membro do grupo sente amor, os outros também o sentem, seja ele por um homem ou uma mulher. Quando um membro do grupo tem relações sexuais, todos os membros do grupo sentem seu prazer, sem que o sexo de seu parceiro faça qualquer diferença. Na série, tal compartilhamento de sensações é mostrada como orgias pansexuais que podem parecer explícitas demais à primeira vista, mas que, sendo honestos, são filmadas com os mesmos pudores (ou não) das cenas de sexo heterossexuais já manjadas em Hollywood: com sombras cobrindo o que precisa ser coberto e jogos de câmera pra que a cena não pareça x-rated. O que surpreende aqui é a ausência de diferenciação entre quem faz o que com quem e não o tratamento da cena em si.

Isso agradou enormemente aos grupos LGBT de todo o mundo, atraindo legiões de fãs. Somando-se à escolha de filmar sempre em locações (se a cena se passa numa nevasca na Islândia, filma-se na Islândia, se a cena se passa numa favela em Nairóbi, filma-se em Nairóbi, se a cena se passa na parada do Orgulho Gay em São Paulo, filma-se em São Paulo), espectadores de vários países e etnias se viram, também, representados e, após a primeira temporada, Sense8 foi considerado um dos maiores sucessos da Netflix, não apenas para fãs de Sci-Fi (como eu) mas por parte do público em geral que se identificou com o discurso de igualdade presente na série.

No entanto, os custos de produção eram altíssimos com enormes equipes de filmagem trabalhando simultaneamente em diversos países do mundo, efeitos especiais e muitos personagens (apenas para uma comparação, cada episódio de Sense8 custou, em média, 9 milhões de dólares, versus 6 milhões por episódio de Game of Thrones). Após o atraso de quase um ano no lançamento da segunda temporada, a perda de um dos atores principais (Aml Ameen, substituido por Toby Onwumere no papel de Capheus, após desentendimentos com a direção) e o enredo que se tornava mais complexo a cada episódio, a Netflix decidiu cancelar a série após o fim da segunda temporada, alegando-a financeiramente inviável.

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Com tal anúncio, legiões de fãs se mobilizaram exigindo um final para a série. Após negociações, as irmãs Wachowski anunciaram um episódio extra, que viria a ser o seu grand finale. Não é de se estranhar, então, que tal episódio seja 100% fan service. E, no entanto, até nisso a série inova e acerta. Pensemos bem: a Netflix não tem anunciantes, não pertence a nenhum grande estúdio e a verba de produção para tudo vem diretamente dos assinantes-consumidores dos filmes e séries que ela exibe. Em um fim de série que tenha sido produzido exclusivamente por conta da demanda de tais assinantes, estes podem e devem ser entendidos como co-produtores e, portanto, sua “visão” passa a ser levada em conta tal como a de um produtor executivo seria. O episódio, então, tenta concluir todos os plots da série da forma mais sucinta possível, se é que duas horas e meia de filme pode ser considerado sucinto (lembre-se que ele precisa dar conta das informações que seriam elaboradas em pelo menos uma ou duas outras temporadas que não serão produzidas). O resultado final é um filmão-aventura no estilo 007, com fotografia belíssima, locações de tirar o fôlego, planos mirabolantes e rocambolescos, descobertas chocantes, muita mentira e poucas surpresas reais. Tudo o que o fã queria ver está lá, incluindo final feliz pra deixar Manoel Carlos de queixo caído. E, na boa? Merecido.

A série cumpriu seu papel de contar uma boa e criativa história de ficção científica que, astutamente, serviu de pano de fundo para uma discussão maior, exibindo diversidade cultural, racial, social e sexual sem nenhum tipo de distinção e mostrando que, na verdade, por baixo da casca somos, sim, todos iguais.

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