Um dos gêneros de Cinema que eu tenho revisitado mais intensamente é o thriller (acho até que nosso quadro Garimpo já está merecendo mais uma publicação específica desse estilo). Aquela narrativa que te prende à cadeira, que te impede de piscar um só minuto e que te faz ofegante enquanto mergulha na história do protagonista, tentando, junto com ele, resolver as situações de extrema tensão. São algumas das sensações mais sinceras quando da experiência de um bom e bem dirigido thriller. Apontando para esta direção, o lançamento alemão da Netflix, Sequestrando Stella foi prontamente capaz de chamar minha atenção para que eu me debruçasse sobre a obra.

Tom (Max von der Groeben) e Vic (Clemens Schick) são dois ex-presidiários que se conheceram no tempo de encarcerados e que, desde lá dentro, bolaram um plano daqueles que não tem como dar errado (sempre na mente criminosa isso acontece, mas nunca quando se é colocado em prática): sequestrar a filha de um milionário e pedir uma generosa recompensa em troca da vida da garota (Stella, por Jella Haase). Assim dito, assim feito. Minuciosamente preparado em cada um de seus detalhes, os dois parceiros de crime obtêm êxito no planejado e tudo parece caminhar muito bem quando (junto com o espectador) Stella descobre que Tom é seu ex-namorado; informação essa que Vic também desconhece e continua sem saber. É o início do sólido e imbatível plano começando a se dissolver pouco a pouco, como uma maré que sobe lentamente e vai apagando um desenho marcado na areia fina da praia.

O plano perfeito.

Quase todo passado em uma mesma locação (o apartamento-cativeiro) – um tipo de história que sempre me agrada – o diretor Thomas Sieben investe na relação pessoal de seus personagens: Tom é aquela pessoa aparentemente boa, que por algum motivo que desconhecemos caiu para o lado ruim da vida; Vic já se apresenta como o indivíduo constituído de uma moral desviada, que se compraz no crime; e Stella uma pessoa que está apenas no meio de um esquema ganancioso, sem entender muito do que se desenvolve à sua frente. O fato de descobrirmos que Stella e Tom são ex-namorados (e mais uma outra revelação bombástica, que prefiro salvar do spoiler) poderia aprofundar esse foco da narrativa de Sieben. No entanto, é subutilizado, como quase tudo nesse filme.

As situações do sequestro e do plano que tem que ser seguido à risca, o fato de logo Stella descobrir a identidade de seu algoz e a construção de cada um de seus três personagens (únicos a aparecerem em todos os 90 minutos de obra) são os principais elementos que deveriam ter sido lapidados minuciosamente, delicadamente e com especial atenção, mas que foram, infelizmente, relegados a nada além de mais uma característica do filme, resultando constantemente na sensação de que estamos a acompanhar uma narrativa sem grandes propósitos além de aguardar apenas o desfecho desse conflito demarcado desde a primeira sequência. A expectativa criada em torno de um thriller (como descrito na presente introdução) cai por terra, tal qual o infalível plano dos parceiros de crime.

A prática imperfeita.

Como uma pedra em seu estado bruto, pronta a ser delicadamente esculpida para se apresentar como uma obra de Arte, mas cujo artesão se perdeu naquilo que pensara fazer, assim é Sequestrando Stella: não desenvolve, não deslancha, não causa. Fica naquela área de penumbra, sem atravessar para um ou outro lado, não conseguindo extrair grandes coisas de uma história que, se a princípio parecera interessante, flerta em alguns momentos com o novelesco e com o demasiado comum. Quando a maré da memória começar a avançar, esse será um daqueles títulos que se apagarão nas ondas do esquecimento.

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