Se você tem acompanhado o noticiário internacional de um par de anos para cá, certamente saberá dos conflitos e tensões cada vez maiores entre a comunidade afro-descendente dos Estados Unidos e a polícia local, em um primeiro momento. Como tudo, nesses anos, os grupos têm se polarizado, resultando em um confronto que opõe afro-descendentes (ou pretos) contra caucasianos (ou brancos) conservadores. Grupos como Black Lives Matter versus alguns WASP (White Anglo-Saxon Protestant – ou Protestante Branco Anglo-Saxão – de orientação nazista, em vários casos) ilustram o que tem se tornado a relação racial norte-americana ao longo desta década. Cada vez mais, a comunidade afro vai ganhando espaço através da representatividade conquistada pela luta. Em contrapartida, cada vez mais os conservadores vão entrando em erupção ao considerar que há um excesso por parte daqueles. Esse é o cenário vivido não só lá no Norte, mas em grande parte do mundo ocidental. Esse é o cenário da nova série da NetflixSeven Seconds criada pela canadense, nem branca, nem negra, Veena Sud.

Peter Jablonski (Beau Knapp) é um policial novato dentro do departamento de narcóticos. Prestes a ser pai, dá todo o suporte à sua mulher Marie (Michelle Veintimilla), que convive com a ansiedade do nascimento, já que perdera uma gravidez anterior. Ao receber um chamado urgente dela, Jablonski corre para o hospital, onde ela está. No meio do caminho, na imponente neve que cai em New Jersey, o policial atropela algo à sua frente. Trêmulo e um pouco machucado, ele vai ver o que ocorreu. Descobre uma bicicleta debaixo de sua SUV azul e um rastro enorme vermelho sobre a neve branca da paisagem. Sem querer olhar adiante, chama seus colegas de departamento: o chefe Mike DiAngelo (David Lyons), Manny Wilcox (Patrick Murney) e Felix Osorio (Raúl Castillo). Sob direção do odioso DiAngelo, todos resolvem encobrir o fato, escondendo as pistas e deixando o corpo de um adolescente negro congelar na vala branca pela neve. “Eu preciso me entregar”, argumenta o abalado Jablonski, com um pouco de moralidade restante. “Ninguém vai ver um acidente. Vão apenas olhar um policial tirando a vida de um garoto negro”, seduz o demônio-chefe. E todos seguem a orientação dele. Esse é um dos três núcleos da história: três policiais brancos e um portenho tratando de limpar o que o colega fizera.

O demônio no seu lado esquerdo, seduzindo-o.

Paralelo a isso, uma promotora negra, KJ Harper (Clare-Hope Ashitey), com problemas de alcoolismo, é a responsável pelo processo de investigação do menino atropelado ao lado do investigador branco Joe “Fish” Rinaldi (Michael Mosley), homem separado, longe da presença de sua filha e que vive na companhia de alguns cachorros. Ambos terão que trabalhar de dentro do covil caçando as cobras que estão ao seu lado, à espreita, prontos para um bote certeiro e fatal. Ambos equilibrando seus problemas pessoais com um caso sutil e complexo, de um menino negro atropelado, abandonado na vala, como um animal. “Ele era só um membro qualquer da gangue local”, argumenta Fish, como se a sentença de execução fosse cabível em um caso desses; como se a vida tivesse peso ou importância, dependendo daquilo que você é. No entanto, para que haja justiça, o caso deve seguir. E esse é o trabalho deles.

Completando a núcleo narrativo, acompanhamos Latrice Butler (Regina King) e seu marido Isaiah Butler (Russell Hornsby), protestantes fervorosos, trabalhadores humildes, que suam cada hora do dia para conseguirem o tão almejado sonho de comprar uma casa e sair dos projects (habitações governamentais para pessoas de classe baixa), dando uma melhor condição de vida ao seu filho Brenton. Porém, em um dia como outro qualquer, Latrice e Isaiah teriam suas vidas abaladas por um furacão ao descobrirem que o menino Brenton havia sido atropelado e abandonado em uma vala branco-neve por horas. Ainda com vida, mas desacordado, recebera os cuidados dos médicos. No entanto, não aguentaria mais do que alguns dias. Aqui, portanto, se desenvolve o drama da família: Latrice, enlouquecendo em busca do algoz de seu filho, revoltando-se contra Deus e o próprio marido; enquanto Isaiah, sempre fiel à sua crença, vê tudo aquilo contra o que lutou se tornar realidade. Em especial, quando seu irmão Seth (Zackary Momoh), que voltara naquele momento de seu alistamento militar em terras distantes (uma das poucas ofertas para um negro pobre), começa a retornar às gangues das quais fizera parte em sua infância.

A desestruturação entre eles.

As três partes da história estão costuradas por Brenton, o afro-descendente atropelado. O drama familiar se intensifica cada vez mais, enquanto as pistas parecem apontar para lugar nenhum. O drama do investigador e promotor segue o curso ao verem-se atados à falta de pistas que os conduzam para uma resposta certeira. E o drama dos policiais, balançando no fio da navalha ao perceberem que um passo em falso poderá colocá-los na cadeia por longas décadas. Mas o turning point surge e agora tudo parece apontar para policiais (ainda sem ter suas identidades), e a briga vira outra: a falta de apoio dos grupos de poder, ao apontar a corporação como o culpado pela ação. E, depois disso, o que os aguarda em um julgamento.

Veena Sud utiliza as suas mais de 10h de série, com os excelentes atores supracitados, para caminhar a trajetória completa: desde o fato, a decisão errada que se configura como crime, aos dramas pessoais e conflitos morais, até o julgamento que opõe um negro de classe baixa a um branco representante da força policial. Sud não se utiliza de licenças poéticas ou de liberdade ficcional para fazer justiça ou dar uma cor diferente do que acontece no mundo real. Ela segue à risca na representação da realidade. Nessas 10h, Veena fala sobre os principais temas sociais que estamos a ver hoje: conflitos sociais, raciais, religiosos, de orientação sexual, corrupção. Tudo está ali, em um panorama muito bem construído e lapidado. Seven Seconds não apela para discursos politicamente corretos, nem tampouco se esconde às temáticas mais delicadas. Expõe os excessos que, por vezes, algumas minorias incorrem: como quando a promotora negra tenta realizar um julgamento sob acusação de crime de ódio, já que a vítima era negra e o autor branco (crime este que, efetivamente, nem chegou perto de ser); assim como destrincha os preconceitos presentes desde o nascimento desta nação ao colocar o branco se vendo sempre como superior, sendo capaz de diminuir o outro, seja por sua origem étnica, seja por suas escolhas de vida; bem como expõe toda a faceta corrupta dos homens de poder, seja no primeiro eixo, por parte daqueles que deveriam zelar por nossas vidas, seja pelo eixo maior, por parte daqueles que deveriam fazer valer a justiça.

Dentro do covil.

Trata-se aqui de uma lógica especialmente (mas não exclusivamente) americana (em termos de continente), em que o que comanda as relações é o abuso de poder, tão somente. Não há, para um ou outro lado, justificativas históricas longínquas. Não há explicações sócio-econômicas ou contexto de crise. Um bandido não coloca uma arma na sua cabeça porque ele foi vítima da sociedade. Não. Ele furta por causa disso. Apontar uma arma e colocar em risco a vida de outrem é mera atitude de poder. Um policial não se torna corrupto, entrando em esquemas, porque o salário é ínfimo. Ele o faz porque tem poder, em certa instância, e pode abusar dele. Assim como os grandes figurões lá de cima não roubam por falta de dinheiro, mas porque tem todo o sistema em seu controle, permitindo-os abusar do poder.

E, no duro, o que está em questão na série é isso: seja conflito racial, étnico, sócio-econômico, criminal, o que, depois de tudo, vai prevalecer, de fato, é a relação de poder na qual tudo isto está inserido. Quem o tem, para além dos demais, faz um uso abusivo e consegue o que quer. Porque preto ou branco, afro-descendente ou caucasiano ou portenho; bandido, policial, advogado ou juiz; todos têm algo em comum: são demasiado humanos. E, como disse há séculos atrás um brilhante pensador, o homem, por natureza, é, entre outros atributos, ambicioso, ávido de lucro, invejoso, pérfido, ingrato, volúvel e dissimulado (Niccolò Machiavelli/Nicolau Maquiavel).

Só.

Em cada núcleo dessa história, a cada cena, você poderá saborear cada um dos atributos descrito pelo pensador. Essa natureza parece constante e imutável. O que muda, porém, é o contexto e o cenário. Aqui, por um acaso, estamos de frente para tensões étnicas acima de tudo. De resto, é apenas o velho homem dando combustível para a sua natureza mais pura.

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