Quando eu era moleque, eu passava minhas tardes na casa da minha vó me empanturrando dos quitutes da dona Salete e assistindo ao programa do Bozo. Para quem não sabe, Bozo era uma palhaço trincadaço de pó, mas que ainda assim tratava a criançada muito melhor do que a Xuxa, e que foi de certa forma homenageado no excelente filme “Bingo: O Rei das Manhãs“, muito embora o bodão “Que horas são? Cinco e sessentaaaaaa!” não me deixe mentir de que esta bagaça passava a tarde.

Em um determinado momento, sei lá por que caralhos, o patrão Silvio Santos resolveu que ia deixar de passar os desenhos que a molecada adorava para poder incluir no Bozo o seriado da década de 70 do Shazam. E foi assim que eu fui apresentado a este herói. Eu não lembro perfeitamente do seriado, mas lembro de achar que era uma cópia fajuta do Super-Homem e de que aquele era o herói com um histórico e background dos mais patéticos que eu já conhecera até então.

Depois de velho, tudo isso se confirmou. Shazam era tanta cópia do Super-Homem que a DC Comics processou a editora que lançava o Shazam (então conhecido como Capitão Marvel) e venceu com facilidade por plágio. Depois a própria DC, como fez com praticamente todos os heróis do seu panteão, comprou os direitos do personagem e o botou lá no meio com os outros heróis. O background, porém, continuou ridículo, já que Shazam nada mais é do que as iniciais dos nomes de vários deuses e semi-deuses gregos e, sabe-se lá o porquê, Salomão. Aquele mesmo da bíblia e das minas. Como o mago Shazam explica logo que Billy Batson ganha seus poderes, ele tem a Sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a resistência de Atlas, os raios de Zeus, a invulnerabilidade de Aquiles e a velocidade de Mercúrio. Não vou entrar aqui no mérito de que foi feita uma salada do caralho misturando os nomes gregos e romanos das entidades – Zeus seria Júpiter se Mercúrio não é Hermes, mas aí seria Shajam e devem ter achado isso mais escroto que Shazam -, mas acho que é senso comum que esses poderes, conferidos desta forma, são meio patéticos.

Apesar do Shazam dos quadrinhos ter um nível de poder que rivaliza, e muitas vezes supera (vide a série de quadrinhos obrigatória, excelente, obra-prima e ESPETACULAR Reino do Amanhã), com o do Super-Homem, a grande realidade é que ele sempre foi um personagem infantil. E isso não só pela pateticidade de tudo que o cerca, mas principalmente porque ele é um pré-adolescente que certamente já experimentou gritar Shazam no meio de uma bronha. E isso, ao contrário de praticamente todos os super-heróis, traz o personagem pra perto de um público de menos idade com muito mais facilidade do que um deus do trovão nórdico de milhares de anos.

E, por falar nesse deus do trovão, a DC pega muito emprestado do excelente “Thor: Ragnarok“, valendo-se da essência original dessa versão infantil de Shazam e adaptando-a de forma certeira ao cinema, trazendo um filme levíssimo, calcado na comédia e descaradamente voltado ao público infanto-juvenil, mas longe de ser bobo demais ou enfadonho ao público adulto.

Muito disso vem da força do roteiro ajeitadinho de Henry Gayden e da direção segura de David F. Sandberg (do sinistro “Annabelle 2“), que trazem um filme de estrutura simples, sem grandes estripulias e que fazem com que o longa pareça quase que um filme independente se comparado aos demais filmes do gênero. Não há aqui grandes batalhas e cenas épicas que justifiquem um orçamento de 200 milhões de dólares. O que há é uma obra que enaltece a família enquanto engrandecedora do homem (tema recorrendo em Hollywood), passando uma mensagem bonita e sempre pertinente à criançada e que por acaso tem uma cena ou outra com um cara que é um deus na Terra descobrindo seus poderes, tudo entremeado com piadas de comédias adolescente de high school e um elenco inclusivo pra todo lado que se olha. E é isso.

O elenco está todo fazendo um bom papel, com Mark Strong interpretando um Dr. Sivana diferente do dos quadrinhos, aqui apelando para uma figura que deliberadamente se enquadra no estereótipo mau igual ao pica-pau de vilão da era de ouro dos quadrinhos. Mas o destaque mesmo vai para o núcleo da família adotiva do menino Billy Batson – apesar do roteiro forçar um pouqinho a barra nele -, representando a totalidade das etnias que tem voz nos EUA, com uma criança mais engraçada e fofa que a outra, tirando o gordo escroto, que não tem nada de fofo e nem engraçado. Um salve especial aqui para Ian Chen (Eugene) e Faithe Herman (Darla) pela graça e fofura.

Trata-se de um longa bem executado, com praticamente todas as peças de sua engrenagem funcionando a contento e que cumpre aquilo a que se propõe com louvor. Não traz nada de novo ao gênero e tampouco é uma pérola no meio desse mar de filmes de super-heróis, mas entretém e entrega o esperado desde que você não espere temas adultos, violência, putaria e/ou qualquer coisa que não possa ser vista numa obra de classificação livre. É basicamente um “Quero ser Grande” (e há uma homenagem clara a ele) levemente piorado com super-heróis, fazendo-nos pensar que, apesar de Zachary Levi estar muito a vontade no papel, Tom Hanks teria sido perfeito nele.

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