Critica: Shiki Oriori: O Sabor da Juventude (Si shi qing chun) - Metafictions

Marcel Proust foi um escritor fancês que nasceu na virada do século XIX e se tornou famosíssimo com sua obra “Em Busca do Tempo Perdido”, um livro de quatro mil páginas divididas em sete volumes. Seu livro fala de lembranças de tempos passados, de nostalgia e melancolia, e de bolinhos. É, bolinhos. Mais exatamente “madeleines”. Não sei quantas pessoas conseguiram coragem (e tempo livre) para, de fato, encararem as hercúleas 4.300 páginas do livro, mas o que aparentemente todo mundo sabe sobre ele é que Proust tinha saudade das “madeleines” (bolinhos de laranja fofinhos e altamente raio-gourmetizados depois da publicação da obra) que sua tia servia com chá.

A informação era tão difundida entre os pseudo-existencialistas-melancólicos-da-PUC que, quando da recente (ou mais ou menos recente) publicação das anotações e rascunhos do livro, um escândalo bombástico surgiu. A tia de Proust não lhe servia “madeleines” e sim “cream crackers” ou qualquer outro biscoito comum que estava em promoção na quinta-feira no Supermercado Guanabara. Proust achou que as “madeleines” trariam mais credibilidade (e gourmetização hipster) para aquele sentimento de nostalgia fortíssimo (e delicioso) que os sentidos nos evocam. Um cheiro, um sabor, uma canção ou som. Todo mundo já sentiu isso e todo mundo sabe do que ele estava falando e é por isso que toda padaria chique da Zona Sul vende “madeleines” à rodo.

Image result for shiki oriori netflix

Shiki Oriori: O Sabor da Juventude (que ainda tem o nome em chinês Si shi qing chun), o “Lançamento Fofo” da semana na Netflix, fala dessa sensação nostálgica. Ou ao menos uma de suas histórias fala e talvez por isso o filme nipo-chinês tenha ganhado tal título. Dividido em três partes – cada uma com um diretor diferente, dois chineses e um japonês – e cada uma em uma cidade da China atual, o filme fala, sim, de juventude sob vários aspectos, e da nossa ligação com ela. Produzido pela CoMix Wave Films, produtora responsável pelo sucesso do popular e aclamadíssimo “Your Name” (resenhado aqui e também disponível na Netflix), Shiki Oriori já nasceu sob os olhares da imprensa e a expectativa na mídia especializada era grande, e o filme não decepciona.

Image result for flavors of youth

A primeira história – “O Macarrão de Arroz” – provavelmente a que dá nome ao filme, fala exatamente de “madeleines”, ou, nesse caso, de San Xian Bifun, o macarrão de arroz que um menino comia todo dia pela manhã com a avó. A história apresenta a arte mais bonita de todos os três, com um esmero técnico primoroso ao ilustrar as cenas de preparo do tal macarrão tentando, ainda que em animação, fazer-nos sentir o cheiro, o sabor, a cor e textura da comida preferida do menino com saudade de sua avó e de seu primeiro amor. É a mais melancólica das três histórias e, ao mesmo tempo, a mais delicada e sensível, uma abertura perfeita para o que se seguirá.

Related image

A segunda – “Nosso Pequeno Desfile de Moda”- conta a história de uma famosa modelo e sua irmã mais nova, uma estudante de design. Dirigida por Yoshitaka Takeuchi, diretor de CGI de “Your Name“, a história fala sobre o fim da juventude e de nossa sofreguidão em mantê-la a qualquer custo. Fala dos excessos dessa fase da vida, de escolhas erradas e de como ser jovem depende apenas de um estado de espírito e da maneira como decidimos viver.

A terceira e última parte do filme – “Amor em Xangai” – conta a história de um jovem arquiteto que encontra uma fita cassete gravada há 10 anos por seu primeiro amor da época de escola e que, na correria para se preparar para uma prova, ele jamais veio a ouvir. A história fala das amizades de infância e do distanciamento causado pela maturidade, de certas tolices que cometemos quando jovens, de nosso orgulho infantil e de nossa incapacidade de comunicarmos de forma honesta nossos sentimentos (e o preço que, posteriormente, pagamos por isso). A história é dessas que nos estraçalha o coração e depois nos oferece um vidrinho de Super-Bonder no final.

Related image

No fim, bem no fim mesmo, depois dos letreiros de créditos, há uma pequena sequência que tenta criar um ponto de toque entre as três histórias e talvez esse seja o único ponto fraco do filme. Não que seja ruim em si. É até bonitinho, mas desnecessário. Quando do lançamento da sinopse do filme, lia-se que seriam três histórias que se entrelaçam e há oportunidades ao longo do filme para que tal entrelaçamento se dê, vários ganchos e deixas para que os personagens das três histórias se esbarrem ou que suas narrativas se completem, mas, sabe-se lá porque os diretores não as exploraram e tentam, nessa cena-pós-crédito dar conta dessa possível ligação. Não estraga o filme de forma alguma, mas tivesse sido mais bem explorado este seu camarada teria dado 5 claquetes retumbantes para a película. De uma forma ou de outra, se você curte animes, ou se curte historinhas bonitas dessas pra serem assistidas de manhã cedo no fim de semana pra acordar mais feliz, veja. Merece.

Sugestões para você: