Por volta dos meus 14 para 15 anos, havia decidido que queria fazer Cinema pelo resto da vida. Sempre temi muito que isso não viesse acontecer (como, de certa forma, foi exatamente o que aconteceu), tamanho meu amor e vontade por fazer filmes. Meus pais me deram um computador para editar e uma câmera VHS. Sem qualquer amigo a embarcar nas minhas ilusões, eu ficava a filmar pássaros, janelas e corredores da minha casa. Imagens que não faziam qualquer sentido, mas que me faziam olhar as coisas pelo olho da lente. Semelhante a isso, é a história de Sandi Tan, com a diferença que ela contou com um tanto mais de disposição e um tanto mais de sorte.

Em Singapura, aos 16 anos, ela e suas duas amigas, Jasmine e Sophia, ficaram amigas de um americano mais velho, Georges Cardona, que era do meio do Cinema. Juntos, decidiram rodar um road movie no país, onde a produção audiovisual era demasiado orientada para um público e mercado nada convidativos. O roteiro, escrito por Sandi, fora atuado por ela, no papel principal, dirigido por Georges, e produzido por Sophia e Jasmine. Rendeu – pasmem! – 70 rolos de filme, em uma produção que os críticos de cinema locais (amigos de Sandi Tan) aguardavam ansiosamente. Porém, Cardona fora embora, de volta aos Estados Unidos, carregando tudo e nunca mais dando retorno algum. As amigas também se separam: uma para os EUA, outra para a Inglaterra e a terceira ficando na terra natal. Anos mais tarde, Sandi, como se atormentada pelo fantasma obsessor de um filme não concluído (e eles assombram, de fato!) retornara para buscar respostas, quando a viúva de Georges entrara em contato com ela para dizer que os 70 rolos estavam em perfeito estado.

Cenas de um filme roubado.

Shirkers (nome deste documentário e também título do filme jamais concluído) é uma daquelas obras que falam sobre muitas coisas, podendo ser considerado três temas principais e iguais em importância. O primeiro deles – e, na minha opinião, o pior – é a egotrip de Sandi, ao nos fazer entrar na sua obsessiva viagem em busca de seu filme perdido, realizado aos 16 anos, quase como uma auto-propaganda do quão genial ela era/é (coisa que não parece ser – mas aguardemos o tempo; ele poderá nos dizer). É evidente que a história em si é bonita naturalmente, mas a forma como ela própria narra a trajetória incomoda um tanto, porque parece mesmo uma caixa de ego aberta por ela para se apresentar ao mundo. As próprias amigas – entrevistadas agora, anos depois – criticam-na bem na sua frente e ela se justifica de tudo o que fizera no “auge” dos seus super 16 anos. Muito embora, lá pela conclusão da produção, ela faça um mea culpa bem da rasa para maquiar um pouco seu aparente egocentrismo.

O segundo momento do filme é a busca pela personalidade de Georges Cardona, um cara bem esquisito, que levara seu filme e dera dois retornos bem lacônicos ao longo de anos. Fica muito evidente a marca traumática que ele deixara na vida de Sandi – e isso é extremamente compreensível; para todo aquele que produz qualquer coisa que seja, sua produção é parte de si próprio; é como uma fatia de sua alma e isso ser levado, assim, do nada, por uma pessoa, é de dilacerar qualquer psicológico e emocional mesmo. Tan, portanto, começa a descascar camada por camada de Georges, a partir de tudo o que acontecera, a partir da revisitação de seu passado, juntamente com as falas de seus amigos que participaram da equipe, bem como a de outras pessoas que também sofreram coisa semelhante a ela. Parece-nos que Georges era uma espécie de psicopata em série da criatividade de terceiros. O momento “exorcismo” de Sandi Tan em relação à figura de Cardona é uma dos pontos mais altos desta produção.

O psicopata de almas.

E, para concluir, temos as cenas gravadas – e recuperadas por ela – do filme Shirkers, que surge como um cápsula do tempo, permitindo-a revisitar o passado de Singapura, suas relações afetivas e seus pontos criativos, neste projeto que lhe fora roubado e que sempre fora parte de sua alma. Fora isso, a forma como esse retorno ao passado permitiu reatar as antigas amizades – não que estivessem perdidas; não foi o caso -, vê-las, percebê-las por uma outra perspectiva, trazendo um afeto muito maior do que o de outrora. A velha Singapura, agora em takes de rolos e mais rolos de filmes, trazendo as emoções de antes, como se ressuscitadas por um sopro de vida, em uma nova juventude. Sentimentos não envelhecem. E isso fica muito claro, nessa parte mais emocionante e cativante de todo o conto de Sandi Tan.

Jasmine, Sandi e Sophia – as três amigas.

Apesar de temas bem distintos entre si, Shirkers não aparenta um Frankenstein desalmado sem uma forma devida. A montagem que costura essa produção é feita com afeto, desejo e amor, o que vai transformando a obra em uma peça deveras sincera sobre a essência de alguém. Se começara numa enfadonha viagem de egocentrismo, a produção resultou em uma definitiva declaração de amor à sua terra natal, aos seus verdadeiros amigos e, sobretudo, ao seu Cinema interior.

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