Hoje é véspera do dia dos pais e onde moro, uma comunidade, há tradicionalmente uma festa organizada pela Associação dos Moradores que dura o final de semana todo. Tem uns food truck (um nome gourmetizado pra os famosos podrões/barraquinhas), pula-pula pras crianças, música alta e alguns shows. Os cara do movimento é que colocam a grana pra isso e todo mundo sabe. A igreja participa com cultos especiais e pessoas cantando louvor. É bastante curioso por que em um intervalo de tempo curtíssimo eu ouço trechos como “eu preciso de ti, Senhor” e “ela sentou e gostou, quicou e gostou”.

Não fui criada em comunidade e, antes de morar numa, tinha uma visão afastada, estereotipada e preconceituosa, é claro, de como é na favela. Coisas como achar que todo mundo gosta de funk, é crente, não tem condições financeiras, quer ser jogador de futebol e por aí vai são parte do imaginário popular. Daí me mudei pra cá e conheci meus vizinhos, bem diferentes um dos outros: uns são trabalhadores, outros aposentados, outros estudantes de universidade pública, outros donos de pequenos negócios. Um tapa necessário pra dizer que há uma diversidade enorme dentro da favela e que o que (n)os une é a “escolha” de morar numa, no geral pelos preços mais acessíveis. Mas há também alguns estereótipos. Não é a toa que a igreja daqui da frente neste exato momento tá cheia de vozes louvando. A série Sintonia traz a interessante proposta de contar a história de quem vem de dentro, por meio de três amigos que moram na periferia da capital paulista – o que é um diferencial para que não se mostre apenas clichês do que é um morro.

Nando, Rita e Doni são amigos de infância na periferia de São Paulo

A série é produzida por Kondzilla, atualmente o grande tubarão do funk brasileiro com sua produtora de mesmo nome e seu canal no YouTube, que lança videoclipes do funk nacional e está entre os 10 canais com mais inscritos do mundo. O universo do funk é colocado como num clipe do empresário, o que é um dos pontos irritantes da produção já que há momentos em que mais parece uma propaganda/merchandising – mas que não é usado de maneira descontrolada e, portanto, torna possível relevar este aspecto. Em contrapartida, o mérito pela naturalidade que a série traz em outros momentos – em especial no que tange os diálogos, carregados de gírias típicas e bem colocadas – vai para os escritores que entre eles tem Duda Almeida, cria da Cidade de Deus.

O acerto em finalmente não colocarem atores globais falando gíria com sotaque de português de playboy é um dos pontos mais altos da série, e faz parte do bloco de representatividade que sustenta a produção. As temáticas são em parte estereotipadas, mas finalmente abordadas de maneira mais profunda do que de costume em horário nobre – que se satisfaz em colocar um núcleo paralelo de pobre e/ou preto bandido e/ou empregada doméstica goela abaixo “pra não dizer que não falei das flores”. Rita é uma jovem de 18 anos que faz seus “corre” como vendedora ambulante, entrega uns verdinho cá e lá e se sustenta sozinha; Nando é um rapaz que já formou família nessa idade e vê no tráfico a opção de manter sua filha e esposa; por fim, Doni é o que tem menos responsabilidades e que tem suporte da família, uma unidade mais aburguesada e estável, mas que não aceita a escolha do filho de virar MC.

Doni tem alguns privilégios como estudar em colégio particular – mas diferente de seus colegas, fica duas horas no ônibus pra chegar em casa. À direita, seu pai Chico, dono da vendinha da região.

A série acerta em debater sobre expectativas familiares em relação a carreira dos filhos, inserindo a variável de ser MC (que acaba entrando, mesmo que sem um consenso, na escolha de ser artista). Além disso, reflete de maneira crítica, ainda que breve, sobre o papel da igreja muitas vezes como muleta na comunidade, pra aqueles que passaram perrengue e veem na igreja a reparação pra violências físicas e simbólicas que acontecem na vida. Aborda também a realidade da vida do crime, com alguns furos aqui e ali já que, apesar de não romantizar ou fazer apologia à carreira (pelo contrário), vai muito longe no processo de humanização do bandido a ponto de tornar as gangues grupos quase que acolhedores e familiares, mesmo quando há muito mais violência do que isso, vide a violência doméstica que é completamente ignorada quando na verdade é extremamente recorrente na cultura do tráfico.

Há também algumas atuações bastante fracas, em especial no grupo de traficantes, que, apesar de falarem todas as gírias paulistas de maneira orgânica (que são muitas e algumas pra mim inéditas), atuam como se tivessem lido o roteiro meia hora antes – dando a impressão, inclusive, de que foram escalados apenas por ser naturalmente das quebrada (o que é bom em termos de representatividade, mas ruim em termos de atuação nesse caso). Por fim, Sintonia dá um passo importante ao colocar uma produção com temática periférica à nível mundial – o que já estava na hora, considerando um catálogo abarrotado de produções marcadamente burguesas com conflitos de classe média “minha Veja está fora do pacote”. Torçamos para que na segunda temporada haja uma continuação mais fortalecida em atuação, com menos propaganda de funk, mesmo que o gênero musical seja uma marca da série e que amadureça ainda mais sua história, que mostra um bom potencial e que certamente assume uma posição de enfrentamento diante da hegemonia de produção atual.

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