Após duas brilhantes temporadas de Sou um Assassino (I Am a Killer) (com as críticas da Primeira Temporada e da Segunda Temporada já publicadas no site), a Netflix lança uma terceira parte de apenas três episódios, de cerca de 30 minutos cada qual, acompanhando uma única história. Sou um Assassino: Em Liberdade nos faz revisitar os passos de Dale Wayne Sigler, há 30 anos, quando este descarregara um pente inteiro em John Zeltner, durante um roubo de 400 dólares a um Subway. Condenado à execução, depois revertida à prisão perpétua, Dale fora agraciado com uma abertura na lei texana, que poderia dar ao prisioneiro liberdade condicional após três décadas. Agora, reformado e nova criatura, Dale Wayne Sigler volta a se ver livre.

De acordo com o brilhantismo em termos de estrutura narrativa das duas primeiras temporadas, esse especial de Sou um Assassino mantém o que de melhor seus predecessores trouxeram. Portanto, começamos com o fato sendo introduzido pelo réu condenado. Em seguida, passamos para os detetives da época, que sempre trazem uma visão completamente diferente e quase sempre oposta. E, então, nos deparamos com as falas dos familiares da vítima. Nesse triângulo, ficamos tão somente com as impressões de cada um dos agentes, sem que a direção ou a montagem tentem fazer um papel moderador, tendendo para um ou para outro lado da história. Mas aqui não está em jogo uma busca infundada por inocência. Nem antes, nem depois, nem ao longo de 30 anos, Sigler jamais tentou tirar de si a autoria do crime. Pelo contrário, desde o início declarara que fora o responsável único pelos disparos e por toda a ação que tirara uma vida humana. “Qual é a justiça diante disso?”, se perguntam constantemente os envolvidos, de um ou de outro lados. O que está em questão, nesse longa dividido episodicamente, é o fato de um algoz como este ter sido libertado.

Entre passado e futuro.

Temos em nossa linha de ação três escopos: Dale, “mamma Carole” e os meio-irmãos de Zeltner. Dale diz ter encontrado Jesus e ter sido salvo pela Palavra de Deus, ganhando a alcunha, dentro da prisão, de “O Gigante Gentil”. Completamente arrependido de suas ações, tem plena convicção de que isso não muda nada para a vítima ou para seus familiares. No entanto, encontra em sua vida um propósito de Deus para que consiga levar à almas perturbadas, como antes fora a sua, um pouco de paz. Esse homem, que quando criança havia sido abusado por um familiar, havia vivido nas ruas a se drogar e a roubar, chegando ao ponto máximo de tirar a vida de outrem, agora tenta se reconduzir em um novo ambiente de liberdade. Não é o caso de entrarmos em um julgamento se ele mente ou se fala a verdade. Isso é o que diz e, de acordo com a lei, ele pagou pelo crime cometido.

Por outro lado, os meio-irmãos de Zeltner consideram absurda a liberação de um tipo desses. Para eles, o ato cometido por Dale jamais será passível de perdão. Inclusive, para um dos meio-irmãos, Dale deveria ter sido executado. Entra aqui uma das questões principais desses pouco mais de 90 minutos de obra: o que separa Dale desse meio-irmão de Zeltner? Dale atravessou a linha e, com suas próprias mãos, tirou uma vida. Já o meio-irmão da vítima gostaria do mesmo resultado ao seu algoz, no entanto dirigindo ao Estado a sua impossibilidade pessoal de realização. Há muito separando um do outro? Ou um era uma ovelha perdida em pele de lobo e esse outro um mero lobo em pele de cordeiro, que quer lavar as mãos, enquanto brada gritos de execução?

Nova criatura.

Entre os dois, está “Mamma Carole”, uma senhorinha de mais de 70 anos, que vive sozinha e, em uma visita à prisão, conhecera Dale. Sendo sua única ponte entre o mundo livre e a jaula, Carole sempre manteve contato, fazendo uma ou outra visita ao prisioneiro em seu habitat natural. Quando de sua liberdade, ela, que não tem qualquer relação de parentesco ou de amizade prévia com Dale, abriu as portas de sua casa para abrigar a então “aberração” da sociedade, que deveria ser permanentemente encarcerada ou, quiçá, executada (tal qual fizera com outra vida). Olho por olho, dente por dente. Mas não para Carole. Não para uma senhora a viver sozinha seus dias. Esta ultrapassou a linha. Mas não a linha que nos separa dos monstros ou dos animais selvagens. A linha que nos aproxima de Deus. Carole se reveste do senso pleno de humanidade e aceita um ex-criminoso, disposto a mudar, disposto a buscar redenção.

Ainda que só agora Dale mude a figura de seu crime, ao justificar como algo muito além de um mero roubo, ele não está em busca de inocência ou de empatia por suas motivações há muito perdidas em sua alma. Ele só quer poder fazer algo de bom com sua vida, tendo uma segunda chance. Tentar andar para frente, ainda que o passado jamais possa ser apagado. Já os familiares da vítima permanecem mais presos ao que acontecera, cada vez mais a raiva os tornando à imagem e semelhança de um Dale antigo, de pedra, monstruoso. No entanto, como uma Caixa de Pandora, a guardar as mazelas do mundo, mas que lá dentro abriga a esperança, há, entre monstros da noite, arrependidos ou não, a encarnação da humanidade: Mamma Carole, que se ajunta aos perdidos para dar-lhes abrigo.

E os pecados são lavados.

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