Há poucos dias, conversávamos eu, minha mulher e Gustavo, o editor-chefe aqui do site (e também advogado), a respeito das penas de execução a certos tipos de criminosos. Àquela ocasião, ele argumentara que para alguns – poucos – indivíduos a execução seria a ação mais conveniente a seguir: “pessoas como Edmund Kemper ou John Wayne Gacy não têm qualquer utilidade para a sociedade. Em prisão perpétua estariam apenas gastando recursos do Estado. Em liberdade, evidentemente cometeriam os mesmos crimes repetidas vezes. Sendo assim, tirar-lhes a vida surge como a opção mais lógica”. Naquele momento, meu posicionamento contrário a isso se sustentava tão-somente em meus aspectos religiosos pessoais. No entanto, revisitar a série Sou um Assassino (I Am a Killer), em sua segunda temporada, me fez caminhar por lugares não tão explorados antes.

A brilhante estrutura narrativa vista anteriormente em Sou um Assassino (I Am a Killer) – Primeira Temporada se mantém nesta segunda parte da série. É uma continuidade do que foram aqueles 10 primeiros episódios, com 10 novas histórias de diferentes indivíduos (dessa vez, compreendendo até mulheres, o que não fora explorado em seu bloco anterior). A série-documentário acompanha as falas de encarcerados que estão ou estiveram no corredor de execução pelos seus crimes. Alguns passaram mais de 20 anos antes de terem esta sentença revogada, outros já pegaram perpétua prontamente. Alguns poucos, enormes décadas de punição. Todos, porém, tiveram a oportunidade – na fala própria de cada um – de refletir acerca de seus atos. Dessa forma, a série nos dá a oportunidade de ouvi-los, bem como aos investigadores da época e familiares das vítimas. Nunca julgando, nunca tendendo para um ou outro lado. Apenas dando voz aos envolvidos: por vezes, colocando-os em contato com a fala um do outro, quando estas surgem de maneira a contradizer o que antes fora exposto por quem de direito.

David e alguém que poderia ter sido.

A novidade, por si só, da segunda temporada é nada mais do que o contato com 10 outros indivíduos, que necessariamente se reencontram com suas ações passadas, com suas consciências e com suas consequências. Assim como da primeira vez, é notável aqueles que tentam se justificar ou se esconder atrás de argumentos tolos e infantis. Alguns sustentam o caráter pouco convidativo à sociedade. Mas outros – e esses são os que mais impactam com suas falas – expõem o que passaram, o que os fez se tornarem o que vieram a ser. Sei que você me dirá que todos temos o poder da escolha. E eu concordo. Essa é uma fala minha. Mas quando se é criado para ser um animal, pouco pode se esperar que uma besta não seja formada. É humanamente impossível não criar uma automática empatia com dois homens, em especial. David Barnett, quem fora rejeitado pela família biológica, abusado física e emocionalmente, e pego pela assistência social para adoção. Quando conseguiu ser recebido por uma família amorosa, seis meses depois é devolvido, pois se mudariam de país. Mais tarde, é adotado por um pedófilo, o qual realizava seus desejos mais íntimos nesse “filho recebido”. David esfaqueara, em um acesso intenso de raiva absoluta, os avós adotivos. Um animal? Em que momento de sua vida não fora tratado como tal? O mais curioso de sua história inteira é que, até hoje, até o presente momento, na fala de sua antiga mãe adotiva (quem o devolvera seis meses depois): “meus filhos biológicos esquecem meu aniversário. David jamais esqueceu um ano que seja”. Há amor ali. Há sentimentos. Há um ser humano como eu e como você.

Pyro Joe (o piromaníaco) é um homem velho, já grisalho. E sua primeira fala é tão impactante que volta a me dar arrepios agora, enquanto escrevo essas linhas: “Eu sempre gostei de estar no corredor de execução. Lá eu era muito melhor tratado do que jamais fui em casa. Apesar disso, não gostaria de ter tirado uma vida para ter obtido isso”. Trata-se de um indivíduo que, aos seis anos, fora prostituído pelo pai em troca de algumas garrafas de bebida. Estuprado pelo vendedor e depois espancado pela mãe, ao vê-lo pelado e machucado, tendo assumido que ele fizera alguma besteira no riacho perto de casa. Pyro Joe vivera numa casa de madeira e piche, onde não havia saneamento básico ou eletricidade, e as necessidades eram feitas em jarros pela casa. Idade Média em pleno século XX. Joe Murphy jamais conhecera afeto, empatia ou amor. Joe, o piromaníaco, desde pequeno fora criado para destruir. Em sua adolescência, foi isso o que fez, ao quase decapitar uma senhora, em uma tentativa de roubo para conseguir dinheiro objetivando o pagamento das contas que surgiram pelo atropelamento de sua irmã. A sobrinha da vítima, décadas mais tarde, mudara de opinião. Antes defensora da execução de Joe, agora ela dizia: “não estou mais chateada com Joe. Estou chateada com o sistema. O sistema falhou com Joe, falhou comigo e falhou com a minha família”.

Pyro Joe e o amado gato da prisão.

Talvez as palavras frias e um tanto cruas de Gustavo não tivessem levado em consideração a vida pregressa daqueles indivíduos. Alguns deles realmente não têm qualquer utilidade para a sociedade. Em liberdade, continuariam a cometer seus crimes. Encarcerados, nada produzem e apenas gastam. Mas não seria por demais cruel executar alguém que por um ato cometido falhou com a sociedade, porque esta mesma sociedade havia falhado com ele anteriormente? Pyro Joe, David Barnett, são apenas dois entre muitos nomes que dividem histórias semelhantes. A bestialização de cada um já havia sido demarcada por uma sociedade que jamais olhou para eles. E, agora, décadas mais tarde, se vê no direito de executá-los (dessa vez, fisicamente) por não terem sido devidamente encaixados nela?

Como blocos de pedra bruta, o ser humano vai se moldando de acordo com as circunstâncias, em alguns muitos casos. A maioria deles não tem um Michelangelo para os transformar em um David, mas um Picasso deturpardo a deformar cada um de seus aspectos mais delicados.

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