Crítica: Sou um Assassino (I Am a Killer) - Metafictions

Exatas 48 horas (8 da noite de sexta-feira) atrás, eu estava no trânsito parado da Linha Vermelha, Rio de Janeiro, com um meliante travestido de vendedor ambulante à minha janela de vidro fumê fechada. Ele apontava uma automática na minha direção, ordenando-me que abaixasse o vidro e passasse o celular. Em seguida, aliança, relógio e dinheiro. Para, alguns segundos depois, intimar-me a ir embora. Cheguei a casa vivo, bufando de nervoso e raiva, mas com tão somente um celular perdido. Um turbilhão de pensamentos atravessa sua mente e, ao dar vazão à raiva, uma narrativa alternativa e inexistente começa a ser criada em suas idéias: descer do carro com uma glock em punho, enchendo de bala aquele que poderia ter tirado sua vida e que te humilhara, roubando um item pelo qual você suou horas e horas de trabalho, ao longo de meses, para se dar ao luxo de, uma vez na vida, comprar (era o melhor celular que já tive; o único bom, na realidade; e existiu por dois meses em minha posse). Mas isso é apenas dar voz ao ódio momentâneo. A verdade é que, no dia seguinte, agradecia mais poder estar com a minha família novamente.

Um dia depois disso (ou seja, ontem), sentei-me em meu sofá para assistir à nova série documentário original Netflix, chamada Sou um Assassino (I am a Killer). Em dez episódio independentes entre si, com 50 minutos cada um, o diretor conta a história de um criminoso diferente que está no corredor da morte (ou esteve, tendo sua pena modificada, geralmente, para perpétua ou perpétua com possibilidade de condicional). Nesses minutos, somos apresentados às falas dos encarcerados, de investigadores da época do crime e (quando possível) de familiares deles e das vítimas. Falar, para eles, parece ser um ato libertador. Ouvi-los, para nós, não me pareceu menos libertador. Há um ser humano ali. Há, em um caso ou outro, alguém sinceramente arrependido. Há uma história de vida nada convidativa. Não estou a diminuir seus atos. Nem eles mesmos o fazem. Todos – e isso é particularmente interessante – absolutamente todos tomam total responsabilidade por seus atos e rumos que deram às suas vidas. De todo modo, todos – absolutamente todos – vieram de núcleos familiares completamente desestruturados, históricos de violência extrema e, em geral, uso constante de drogas.

Uma história nebulosa, arrependimento e um sonho de liberdade.

Usualmente, quando falamos em rodas de conversa, em opiniões pouco lapidadas de senso comum, generalizamos (uma condição bem normal ao ser humano) o grupo de quem comete um crime qualquer. Mas ao sentar para ouvi-los, ao dar voz para agonia de alguém que está há décadas dentro de um quarto de 4 metros quadrados, é gritante o quão plural são as personalidades de cada qual; suas histórias emergem de um mar negro e desconhecido, enchendo-nos dessa mesma angústia que os domina. Brilhantemente, o diretor insiste – com ajuda da belíssima montagem do documentário – em nos apresentar cenas ou fotos da infância dessas pessoas. Eram crianças inocentes. Lindas. Risonhas. Filhos de alguém. Com tudo pela frente. Com um futuro – por mais duro que pudesse parecer – a ser construído. Mas um erro – e, basicamente, um somente – os transformaram em gado trancafiado.

“Não pode se esperar que alguém que passe décadas dentro de um lugar desses saia daqui melhor”, argumenta um dos presidiários que implora que sua execução seja realizada o quanto antes. “Pegar 41 anos é um tapinha na mão pelo que fiz. Eu tirei três vidas e nunca que essa pena vai pagar por uma delas que seja”, abre seu coração consumido o prisioneiro Venegas, que aos 16 anos executara três pessoas com um machado, para entregar suas almas ao Diabo.

“Eu não sinto qualquer arrependimento por ter feito isso”, fala um frio e risonho encarcerado sobre seu crime dentro da prisão. Ele atacara um pedófilo, companheiro de cela, para que fosse enviado ao corredor de execução por este ato. “Eu acredito em redenção e eu gostaria que os familiares que perderam uma pessoa por minha culpa pudessem acreditar nisso”, expõe um outro presidiário, que foi mandado para o corredor por estar dirigindo o carro que levava um amigo, o qual cometera o crime descrito. Pela lei texana, atribui-se igual responsabilidade àquele que ajudou no crime, ainda que, neste caso, ele não tenha disparado um tiro ou estivesse carregando uma arma. Frieza versus busca pela redenção. Participação direta versus participação indireta no ato hediondo. Todos ali buscam a liberdade, seja através da execução, seja através da possibilidade de condicional. Para alguns, esta ainda é constantemente negada, devido ao extremismo do crime cometido. Para todos, o tempo passa, como um bobo da corte a debochar dos empregados do castelo. Esteja no corredor, esteja em prisão perpétua, os anos se transformam em décadas que passam e passam, fazendo-os permanecer ali, no quarto gelado, no trato com demais criminosos, na obrigação de carregar o peso em suas consciências pelos atos cometidos quando ainda eram novos.

Isso é o que nós fomos.

Sou um Assassino (I am a Killer) não busca apresentar um discurso claro sobre a pena máxima do sistema carcereiro norte-americano, seja de defesa, seja de denúncia. Não pinta cada vida como um anormal maníaco a ser exterminado. Tampouco os esconde sob um véu hipócrita de pureza. Talvez o mais impactante em toda essa série seja o fato de o diretor, brilhantemente, apenas apresentar os fatos, fazendo com que cada um seja tocado (positiva ou negativamente) pelos contos narrados. É evidente que a decisão pela montagem, pelo corte de determinadas falas e pela costura da narrativa conta uma história produzida pela ótica do diretor. Mas a sutileza e a delicadeza dessa construção não faz transbordar um discurso ativista, de um ou de outro lado, a partir da obra. O que a série promove é nos tirar de nosso cotidiano supostamente tranquilo (apesar das pistolas que nos são apontadas à cara, depois de uma semana de trabalho de 7 da manhã às 7 da noite) para nos levar à presença de penitenciários, na qual podemos conhecer a história de cada encarcerado; na qual podemos nos dar conta que ali há – ou, em alguns casos, houve – uma pessoa, um ser humano. Mas que tirou a vida de outro(s) e por isso se encontra em uma situação tão desesperadora quanto os que experimentaram de seus atos intempestivos ou planejados.

Santos e pecadores, a inocência parece passar longe daqui.

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