Quando a Netflix anunciou que faria uma parceria com Steve Carell e Greg Daniels, respectivamente estrela e roteirista do “The Office” americano, para uma série chamada Space Force, no primeiro momento eu achei que seria alguma comédia de ficção científica fazendo pouco das séries do gênero, tal qual fez Todd McFarlane com a excelente “The Orville”, que faz graça com Star Trek. Mas logo depois aprendi que na verdade ela seguiria as aventuras de um general de quatro estrelas, interpretado por Carell, no comando de um novo ramo das forças armadas americanas, a tal Space Force (Força Espacial em tradução livre). Dei aquela risadinha que a gente tá sempre dando quando lê alguma merda qualquer na internet e depois gargalhei fortemente quando descobri que esta caralha existe de verdade há décadas e ganhou esse nome de filme de navezinha genérico ano passado! Inclusive, tive que recorrer a mais de uma fonte para confirmar isso, porque tudo que eu lia eu achava que era sacanagem.

Comecei a maratonar a série com uma boa vontade enorme. Eu gosto do Steve Carell desde “The Office” e, principalmente, por causa de “O Virgem de 40 Anos”, até hoje uma das comédias que mais me fizeram rir na vida. Então sentei meu rabicó com uma predisposição gigante para rir e me divertir com Space Force, mas, puta que o pariu, ao final dos 320 minutos espalhados em 10 episódios eu não dei sequer uma gargalhada e ainda senti que acabara de ver alguma série de aventura qualquer dos anos 80, só que dessa vez com gente falando palavrão.

Aqui seguimos a vida do general Mark Naird (Carell), um sujeito que acaba de receber uma promoção para liderar o tal novo ramo das forças armadas chamado de Space Force, ramo este que, segundo a série, foi criado porque o presidente americano cujo nome jamais é mencionado tuitou que queria “peitos na Lua até 2024”, um trocadilho entre boots (botas) e boobs (peitos). Este tipo de piada sobre um presidente viciado em redes sociais e em tuítes infantiloides permeia a série toda, sem jamais, contudo, conseguir tirar mais do que uma risadinha de canto de boca do espectador.

Enfim, a dinâmica da série é a de uma sitcom comum, com Naird tendo que navegar o cotidiano de uma base militar, sua esposa (Lisa Kudrow) que está presa sabe-se lá o porquê, sua filha aborrecente sem causa e, principalmente, a única coisa que presta na série, o seu cientista-chefe, o Dr. Adrian Mallory, interpretado por John Malkovich. É na dinâmica entre a mente militarizada de Naird e a de cientista brilhante de Mallory que os melhores momentos dramatúrgicos da obra aparecem, mas isso não é lá grandes merdas.

O que temos aqui, no final das contas, é uma comédia extremamente água com açúcar, que poderia estar passando na TV aberta americana se não houvesse uma meia dúzia de palavrão por episódio que poderiam simplesmente ser trocados por equivalentes, uma vez que eles parecem estar lá somente para dar uma pitada de safadeza no humor da série, quase como se tivesse um produtor te cutucando e falando “viu como a gente é barra pesada, bicho?”. Fica uma coisa até anacrônica com as liçõezinhas de moral muquiranas que são passadas a cada episódio.

Mais do que só isso, os 10 episódios da série se arrastam quase que isoladamente, como se cada um fosse uma anedota diferente, até que os dois últimos correm para caralho com um arco narrativo que poderia ter sido melhor desenvolvido se, talvez, um ou dois dos 8 episódios anteriores focassem em avançar esse arco, ao invés só de mostrar que a filha do Carell é chata pra caralho ou que ele é impossivelmente gente boa e pacífico mesmo para um general de 4 estrelas em um país altamente militarizado e belicoso como os EUA.

A situação ainda piora quando, para tentar ser engraçaralha, a série mostra um total desrespeito ao bom senso dentro da realidade da base e das missões infantilizadas que são postas em cena, com coisas que beiram o absurdo como o envio de dois cadetes de 18 anos que nem punheta tocam direito em missões tripuladas ao espaço (astronautas treinam a vida inteira para conseguir algo assim) ou uma gag que deve ter custado uma fortuna em efeito especiais sobre um macaco no espaço que simplesmente não faz o menor sentido nem na realidade da série e muito menos no mundo real.

De todo modo, todos os problemas da série poderiam ser escusados, tudo que há de ruim ou absurdo poderia ser ignorado, se a produção fosse minimamente engraçada. Trata-se de uma comédia que não faz rir, uma aventura que não empolga e um drama com a profundidade de um pires, de forma que a série fracassa em todas as frentes, conduzindo o espectador por uma produção que claramente custou um bom trocado e conseguindo dele não mais do que uma ou duas risadinhas frouxas por episódio.

Space Force termina deixando um gancho enorme e estapafúrdio para uma segunda temporada que já foi confirmada pela Netflix. Resta somente torcer para que consigam dar uma graça a uma série que claramente tem um potencial e um orçamento bem grandes, além de um elenco estrelado (Carell e Malkovich já foram indicados ao Oscar, por exemplo) e uma premissa divertida. Minha dica é Paulinho Gogó e Tirulipa Jr. fazendo uma participação especial como astronautas brasileiros ou algo assim, já que, como diria o pai do Tirulipa, pior do que tá não fica.

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