Há algum tempo a Netflix lançou a excelente sitcom “Atypical”, cujas duas temporadas lançadas nós resenhamos aqui e aqui. Nela acompanhávamos as desventuras de um menino com autismo passando pela puberdade e enfrentando os desafios inerentes à adolescência, só que com o handicap de ter autismo.

Em Special, a lógica é parecida. Aqui acompanhamos Ryan Hayes, interpretado pelo roteirista e criador da série Ryan O’Connell, enquanto ele tenta se aceitar como um jovem adulto de seus 20 e poucos anos com paralisia cerebral. Ah, e ele também é gay, mas este aspecto de sua personalidade, na Los Angeles de 2019, não tem absolutamente nada de conflituoso e está longe de ser uma questão aqui.

Comentando sobre a série com a minha mãe porque ela passou em frente a televisão justamente na única cena de sexo gay da obra, eu entendi que talvez haja uma ignorância geral sobre o que é a paralisia cerebral, já que ela ficou incrédula de alguém com paralisia cerebral poderia ter uma vida sexual. Felizmente, Ryan explica isso logo no começo da série em uma cena que, imagino, recria o momento que ele se vê obrigado a contar ao seu interlocutor exatamente do que se trata sua condição, momento este pelo qual, sem dúvida, ele deve ter passado inúmeras vezes. A paralisia cerebral nada mais é do que uma condição adquirida pelo bebê durante a gestação ou logo após o parto, causada por danos cerebrais que afetam a coordenação motora das pessoas e, na maior parte das vezes, não tem qualquer efeito na cognição. Em geral, a criança se desenvolve sem algumas das funções motoras, mas continua exatamente como todas as outras no que se refere a sua capacidade intelectual e cognitiva.

Em que pese todo o mérito de que um sujeito com as óbvias e extensamente exploradas limitações de Ryan O’Connell tenha conseguido não só se tornar um roteirista no concorridíssimo mercado audiovisual americano, mas também criador e estrela de sua própria série na Netflix, o fato é que, apesar de momentos de brilhantismo em seu roteiro e de algumas poucas cenas inspiradas, a série fracassa tecnicamente em quase todos os seus aspectos.

O roteiro até que é fofinho e ajeitadinho, mas padece de diálogos um tanto irritantes de gente ainda mais irritante. A obra inteira é protagonizada por hipsters nojentos que fazem graça de pagar 18 dólares num miojo, mas ainda assim vão lá e pagam os 18 dólares no miojo. Aquele tipinho de gente bem típica da Califórnia, o estado mais próspero do planeta com um PIB que seria o 5º do mundo se ela fosse um país autônomo, que não produz porra nenhuma, trabalha com alguma coisa relacionada a internet e diz, soletrando todas as letras, LOL ao invés de rir de verdade. Uma existência plástica e vazia ao extremo da qual a série até faz graça, mas da qual ao mesmo tempo participa com elã.

Para piorar, a direção é bem desastrada, deixando os atores com atuações que variam do horrível ao novela das seis (à honrosa exceção da mãe de Ryan e Phil, de quem falarei adiante). E isto se torna ainda mais evidente porque o protagonista não é um ator de verdade e, como tal, não tem a vivência ou treinamento para imprimir às suas cenas a profundidade dramática ou o timing cômico necessários na maior parte do tempo. Ainda que ele tenha um carisma natural, isto não se mostra suficiente para carregar por si só suas cenas.

E em momento algum isto é mais claro do que nos 2 primeiros episódios, que são realmente sofríveis e difíceis de assistir. Felizmente, a obra vai melhorando a cada episódio, tendo seu ápice justamente naquele focado na mãe de Ryan (Jessica Hecht), sua compreensível relação de co-dependência e super proteção com o filho deficiente, e sua dificuldade em cultivar e manter uma vida para fora dessa relação, que aqui toma corpo no vizinho bonitão Phil (Patrick Fabian).

Não posso também deixar de falar das situações lugar-comum que teriam vaga cativa em qualquer comédia romântica de terceira categoria, com a protagonista sempre toda insegura sobre sua auto-estima ao mesmo tempo que pega os caras mais gatos do elenco. Ryan em momento algum se interessa ou é correspondido por alguém que seja qualquer coisa que não deslumbrante e ainda tem a pachorra de rejeitar um maluco lindo de morrer, ainda que com coque samurai, só porque ele era surdo.

Mesmo assim, a força da escrita (ainda que um tanto bobinha e ingênua) de O’Connell, que aqui cria uma série um tanto quanto auto-biográfica, consegue fazer com que, no final, a gente ature tudo que a obra tem de equivocado para entender melhor este mundo, suas dificuldades e percalços em 8 curtos episódios de 12 a 16 minutos. O grande mérito e, ao meu ver, principal acerto da série é não focar só no deficiente, mas também naqueles que o cercam, sendo aqui a participação da mãe de Ryan disparadamente a melhor coisa que a série tem.

O difícil mesmo é conseguir passar dos primeiros episódios…

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