Como já é a praxe aqui do MetaFictions em nossos reviews de episódios de séries, teremos spoilers do episódio e da série inteira no texto a seguir.


Após o hiato de inverno, Discovery volta com um diretor verdadeiramente estelar em um episódio que confirma algumas teorias e parece desmentir outras das muitas que foram ventiladas pelos fãs desde a parada após o 9º episódio.

Jonathan Frakes interpretava William Riker na Nova Geração – o sujeito que mais deve ter DSTs alienígenas de toda a franquia e o eterno number one da Nova Geração – e foi responsável pela direção de incontáveis episódios da mesma série, além de dois longas da franquia, incluindo “Jornada nas Estrelas – Primeiro Contato“, largamente considerado o melhor dos filmes da Nova Geração. Com esse histórico, ele foi escalado para dirigir este verdadeira recomeço da saga Discovery. E é mesmo um recomeço, já que temos aqui o início de um novo arco, quase como se realmente fosse uma nova temporada.

Ao final do episódio 9 (resenhado aqui), nós vimos a Discovery usando o motor-champignon uma última vez para ir a uma estação espacial após terem conseguido destruir a cabeça do Império Klingon e logrado obter a solução para anular o manto de invisibilidade. Agora bastava reportar o ocorrido, ensinar à Federação como burlar o tal manto e, voilá, guerra ganha. Contudo, Stamets (Anthony Rapp, o artífice da derrocada de Kevin Spacey) estava totalmente debilitado por causa dos 133 saltos que teve de fazer para conseguir a tal solução para se anular o manto e este 134º salto foi demais para ele. 

Por algum motivo que ainda não ficou claro – não podemos esquecer que Lorca (Jason Isaacs) estava futucando alguma coisa em seu console antes do derradeiro salto -, a Discovery foi parar em um campo de destroços que os sensores da nave não conseguiam reconhecer. As teorias então se acumularam, sendo as principais delas que a Discovery estaria em um universo paralelo (em especial o Universo-Espelho) e a de que Lorca teria feito algo para deliberadamente voltar ao seu universo de origem.

Logo de cara, temos a confirmação de que estamos, sim, em um universo paralelo. Isto, se ao final da temporada a Discovery não conseguir voltar ao seu universo, vai finalmente explicar duas coisas que foram muito difíceis de digerir para os fãs do cânone da série. Ambas tem a ver com o futuro e os porquês da dobra de esporos e da contramedida ao manto de invisibilidade não serem sequer mencionados nos demais produtos da franquia, quase todos passados no futuro em relação a Discovery. Vamos esperar.

Imediatamente temos uma semi-confirmação de que o tal universo paralelo é o já explorado inúmeras vezes Universo-Espelho, pois a Discovery é atacada por um cruzador vulcano, o que é praticamente confirmado quando Tyler (Shazad Latif), sofrendo de seu trama pós-estupro-que-vamos-descobrir-ser-mais-que-isso, recupera uma espécie de pen drive gigante dos destroços  de uma nave Klingon. Ao fazê-lo, ele observa que um Vulcano e um Andoriano comandavam uma nave de arquitetura inequivocamente Kilingon, o que leva todo mundo a crer que as raças estão unidas contra a humanidade.

E só analisando o pen drivão que temos a confirmação final de que a Discovery está no Universo-Espelho. Aos que não sabem do que se trata, é um universo paralelo ao qual a realidade principal da franquia está aparentemente inexoravelmente ligada, posto que, sem contar o easter egg da Defiant que remete à “Enterprise”, a série original e Deep Space Nine também o visitaram em várias ocasiões, além de vários livros e um jogo de videogame.

Neste universo, a humanidade é uma sociedade fascista, imperialista, conquistadora, sanguinolenta e extremamente xenofóbica, traçando aqui um paralelo (rá!) com a sociedade Klingon. Nele, as demais raças se juntam para combater a supremacia humana e, desafiando todas as probabilidades, as contrapartes de nossos protagonistas são basicamente as mesmas pessoas, com um histórico de vida muito parecido, só que mais escrotas e violentas.

Ao aprender sobre as nuances dessa nova realidade, Lorca manda que a nave e a tripulação sejam totalmente adaptadas àquilo até que uma solução para voltar pra casa seja encontrada. Em um esforço de alfaiataria que rivaliza com as oficinas de escravos mantidas pela Zara em Bangladesh, toda a tripulação logo está paramentada como o famigerado Império Terrano (chamado de Terráqueo na equivocada tradução das legendas Netflix).

Neste ínterim, Tyler vai ver L’Rell (Mary Chieffo), exigindo dela esclarecimentos sobre o que ela teria feito com ele além de usá-lo de consolo. É aqui que mais uma teoria de fã é semi-confirmada, pois, em uma cena muito bem construída, L’Rell começa a entoar uma oração e Tyler começa a respondê-la em um Klingon impecável, só que algo dá errado, para surpresa de L’Rell. Ao que parece, ela realmente, de alguma forma, enfiou pra dentro de Tyler a personalidade e consciência de Voq, aquele Klingon albino escolhido por T’Kuvma como seu sucessor.

Em seguida, a Discovery é contactada pela Cooper e, quando vão tentar responder, descobrem que a capitã da Discovery naquela realidade é, na verdade, a Cadete Tlly (Mary Wiseman), que teria conseguido seu posto ao assassinar o capitão anterior. Tilly então passa por um extreme makeover e agora temos mais uma razão para assistir a série. 

Quando Saru teoriza, usando aquele monte de expressão científica que a gente gosta de achar que entende, que é provável que eles tenham trocado de lugar com a Discovery daquela realidade, Lorca começa a bolar um plano que vai se valer do fato de que a Michael Burnham daquela realidade, que era capitã da Shenzhou, teria morrido em um ataque promovido por Lorca. Lorca ainda era capitão do Buran e teria tentado um golpe contra o imperador, tendo Michael sido enviada para impedi-lo.

Explorando os arquivos do pendrive gigante, Lorca descobriu a existência da USS Defiant, nave que teria viajado do futuro da realidade original para o passado do Universo-Espelho. Valendo-se da morte presumida de Michael e de que ele estaria foragido, Lorca bola o plano de colocar Michael de volta na Shenzhou, de modo que ela pudesse acessar os arquivos e descobrir mais sobre a Defiant, confiando que, assim, eles voltariam para casa. Michael escoltaria Lorca como seu prisioneiro e teria Tyler como seu segurança.

Stamets, que está meio que internado desde o seu 134º salto, fica resmungando várias coisas como “o inimigo está aqui” e “não entre no palácio”. Considerando que há um império e que a identidade do imperador é desconhecida (o que é muito estranho, já que deveria ser algo de conhecimento público e notório e deveria estar referenciado no pen drivão), eu estou achando que o imperador é o Stamets, o tal palácio é onde ele mora e alguma merda vai acontecer lá.

Em uma dessas cenas, Stamets volta a si brevemente depois de um beijo do Dr. Culber e avisa que o inimigo está ai. Na próxima cena com o Culber, Tyler aparece e descobre que L’Rell o mudou. O Dr. Culber fala pra caralho para dizer basicamente que a estrutura óssea dele foi alterada e que alguém teria realmente implantado uma nova personalidade na medula de Tyler e, por isso, ele teria de ficar suspenso, já que não se sabia mais se ele era ele mesmo. Ainda que seja um tanto estranho que o Dr. Culber não tenha havido por bem relatar algo tão significativo a qualquer superior seu, este é um dos pontos altos do episódio justamente pela quebra de expectativa, já que Tyler, tomado pelo que, a esta altura, só podemos assumir ser Voq, quebra seu pescoço impiedosamente, ao que Stamets mais uma vez murmura que “o inimigo está aqui”.

Como se nada tivesse acontecido, Tyler vai direto para a sala de transporte, chega atrasado de novo e toma esporro de Lorca. Os três são teleportados para a Shenzhou onde são recebidos pelo agora Capitão Connor (Sam Vartholomeos), mas que, na realidade original, era o oficial de comunicações da nave e subordinado a Michael.

A todo momento Michael fica desautorizando Connor, em especial no que se refere ao que fazer com o prisioneiro Lorca. Em mais um easter egg do Universo-Espelho, descobrimos que os agonizadores agora não são mais meros cintos para punir pequenas transgressões, mas câmaras inteiras, onde um ser humano é colocado para sofrer dor indescritível indefinidamente. É justamente este o destino que Michael tenta evitar para Lorca, mas fracassa.

É então que temos os melhores cinco minutos do episódio. Connor, ainda um tanto inseguro e traumatizado pelo que teve que fazer para se tornar capitão, resolve que matar Michael é a melhor maneira de se asseverar sobre os demais. Mas ele não contava que Michael era faixa preta de vulcano-jutsu e, na melhor cena de luta talvez de toda a história da franquia (incluindo-se ai os filmes), ela o derrota dentro do turboelevador que os levavam à ponte de comando.

Lá chegando, o corpo sem vida de Connor cai para dentro do aposento, ao que toda a tripulação da Shenzhou (composta somente de humanos, é bom ressaltar) aplaude. Connor, aparentemente, era um babaquinha e ninguém gostava dele. Foi também um momento de muita satisfação ver Michael sentando na cadeira de capitã, ver a tripulação a saudando e, principalmente, entoando “Vida Longa ao Império”, em uma cena enquadrada maravilhosamente bem e de uma beleza estética sem igual no episódio.

O episódio termina com Tyler fazendo uma confissão em forma de juras de proteção e amor à Michael. Ele promete estar sempre do lado dela para o que der e vier, não importa o que Michael tenha que fazer ou venha a se tornar. Na verdade, ele estava falando de si mesmo e Michael, doida ali só para ser possuída mesmo, promete o mesmo para ele. Enquanto eles estão ali fodendo, quem se fode de verdade é Lorca, que está ali sentindo dor indescritível por sei lá quanto tempo e torcendo para que aquela filha da puta esteja indo adiante com a missão. Mal sabe ele…

Em mais um episódio bem sólido, algumas suspeitas se confirmam e outras, como a de que Lorca teria deliberadamente feito algo para ir ao Universo-Espelho, parecem perder força. Ainda que as tramas de universos paralelos e viagens no tempo, via de regra, já tenham dado no meu saco, a coisa aqui foi toda conduzida de forma competente, contando, é claro, com a suspensão de descrença do espectador que é obrigado a acreditar em todas as incalculáveis probabilidades para que um universo paralelo tivesse uma configuração tão convenientemente igual, com, por exemplo, TODAS (não é uma ou outra) as pessoas tendo nascido nas mesmas circunstâncias e seguido as mesmas carreiras.

Aguardemos o desenrolar dessa história que, desconfio, não terá qualquer repercussão no universo principal.

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