Como já é a praxe aqui do MetaFictions em nossos reviews de episódios de séries, teremos spoilers do episódio e da série inteira no texto a seguir.


Em mais um sólido episódio, ainda que um tanto irregular, tivemos esta semana alguns acontecimentos bem significativos. Entendemos melhor como funciona o motor-champignon da Discovery, vimos um possível fim ao sofrimento do Tardígrado, eu descobri que em português eles traduziram Ripper para Estripador e, apesar das naves da Federação serem capazes de sintetizar qualquer coisa, ainda não foi possível sintetizar uma chapinha para Michael (Sonequa Martin-Green), que é, desta forma, forçada a abandonar seu penteado pré-motim dos dois primeiros episódios.

Passaram-se 3 semanas desde o primeiro salto com sucesso usando o tardígrado do episódio passado. Nesse ínterim, a Discovery foi usada com enorme sucesso em mais algumas missões, o que deixa Lorca (Jason Isaacs) ainda mais sedento de usar a dobra-cogumelo como uma grande vantagem na guerra. Contudo, em uma reunião no conselho da Frota Estelar, ele recebe a ordem de usar o motor de esporos somente com autorização expressa da Frota Estelar. Os Klingons, acredita o Conselho, já descobriram que a Discovery tem algum paranauê diferente que a permite operar furtivamente e, portanto, se tornou um alvo, ao que, compreensivelmente, o Conselho resolve que ela não mais será usada em missões arriscadas, sendo ela a única nave com um tardígrado que a permita funcionar daquela forma.

A Almirante Cornwell (Jayne Brook) ainda dá uma chamada em Lorca na chincha, o que realmente já não era sem tempo. Apesar de ele ter o poder para tanto, Lorca havia alistado para seu serviço a única pessoa a cometer a motim na história da Federação e largamente tida como a responsável por iniciar a guerra. Ele, mais uma vez cimentando o seu arco de desenvolvimento como alguém que está disposto a tudo para vencer a guerra, bota o pau na mesa e diz “na minha nave quem manda sou eu”, dando assim um tapa na cara da sociedade.

Logo em seguida, enquanto Lorca está no transporte voltando para a Discovery, ele é interceptado e sequestrado por Klingons, que impiedosa e graficamente matam mais um figurante (que não está usando uma camisa vermelha!!!!). Este é, sem sombra de dúvida, o mais explicitamente violento produto de toda a história da franquia e, cumulado com a repetição de dois fucking mais adiante no episódio, também o mais “adulto” nesse tocante. As pessoas morrem sanguinolentamente  e usam palavrões para expressar seus sentimentos, trazendo a série mais para perto da realidade, pelo menos o tanto quanto se é possível trazer à realidade uma obra como Star Trek.

Voltando à Discovery (e tentando não me incomodar com o fato de que o capitão da nave mais importante da Federação foi capturado tão facilmente), Michael tem um pesadelo que a põe no lugar do tardígrado na câmara de esporos e a experiência é insuportavelmente dolorosa, tudo em uma cena colocada ali para engenhosamente enganar o espectador mais ao fim do episódio. Ela pede e o médico da nave, o Dr. Hugh Cullber (Wilson Cruz, em um interpretação ruim e destoante do restante do elenco), analisa o animal. Juntos eles descobrem que o bicho está realmente sofrendo tremendamente.

Mesmo tendo falado pra caralho na reunião com o Conselho de que não deveriam mais usar a nave, a Almirante manda Saru (Doug Jones), agora capitão em exercício, usar a Discovery para investigar, descobrir para onde o capitão foi levado e executar a operação de resgate. Ora, não seria mais sensível e coerente mobilizar outras naves para fazer isso ao invés de arriscar usar aquela nave que instantes antes ela mesmo estava dizendo ser inestimável e tudo mais?

No momento em que esta ordem é dada, Michael chega a ponte e Saru já sobe nas tamancas, o que, no caso dele, se traduz naqueles gânglios de ameaça que ele tem na cabeça e que demonstram o tamanho do cagaço que ele tem da Michael. Ela conta de suas preocupações com o Estripador, Saru caga fortemente e manda Stamets (Anthony Rapp) deixar o bicho preparado para saltar novamente assim que eles localizarem o capitão.

Enquanto isso, o capitão é apresentado a um velho conhecido da franquia. Harry Mudd, interpretado na série original por Roger C. Carmel e aqui pelo Dwight de “The Office” (Rainn Wilson). Na série original, passada cronologicamente 10 anos após os eventos de Star Trek: Discovery, Mudd era um putanheiro que, quando apareceu, esteve envolvido em tramas misóginas e sexistas. Invariavelmente ele estava usando mulheres ou algum símbolo feminino sobre o qual se asseverar. Seja vendendo escravas sexuais para mineiros drogados, seja sendo o rei de um planeta de lascivas androides femininas. É um personagem que, nos dias de hoje do politicamente correto, jamais teria lugar.

2017 x 1966

Mesmo assim, lá está ele. Tendo sido preso por “ser culpado de amar demais” a mesma Stella com quem ele é casado na série original, pelo menos uma coisa ele mantém igual ao da década de 60: é um sujeitinho bem escroto. É ele quem explica a Lorca o título desse episódio, já que os Klingons pedem que um dos prisioneiros escolha quem é que vai ser coberto na porrada com um simples choose your pain (escolha sua dor em tradução livre). Mudd, como bem nota Lorca, não tem um arranhão no corpo.

Depois do capitão também conhecer Ash Tyler (Shazad Latif) – um prisioneiro de guerra que está preso desde a Batalha das Binárias 6 meses antes e vem sendo bestial e sistematicamente estuprado pela capitã da nave Klingon, Mudd faz um quase monólogo daqueles que nos fazem aplaudir a franquia e a ficção científica em geral. Valendo-se da Federação como uma metáfora, Mudd explica, em 1 minuto de fala, o que é a política externa americana e, sem citar nomes, tece um fortíssimo comentário social de um cidadão comum (ainda que um pela saco de marca maior) acerca desse corpo celeste gigante e inalcançável que é a Federação. Star Trek sempre nos mostrou o cotidiano dos oficiais da Frota Estelar, então um comentário desses, além de pertinente, é sempre bem vindo, salutar e mais uma excelente quebra de paradigma.

O time de ciências da Discovery, correndo contra o tempo enquanto não se encontra o paradeiro do capitão, explica pormenorizadamente a (pseudo) ciência por trás do motor-champignon, deixando claro para todos que o uso do tardígrado é necessário porque ele é a única criatura que consegue parear seu DNA com o dos esporos e, desta forma, viajar pela rede micelial que permeia todo o universo. Eles descobrem que outro ser vivo, o ser humano, seria capaz de fazer o mesmo, o que leva a nossa mente diretamente àquele sonho de Michael no início do episódio. É com essa explicação que Tilly (Mary Wiseman) lança o que, acredito, é o primeiro fucking da história da franquia, ao que ela é seguida por outro proferido por Stamets.

Após tomar umas bolachas da capitã da nave (cuja maquiagem destoa bizarramente dos Klingons apresentados até então de tão mal feita), Lorca volta a sua cela e, com Mudd sendo o babaca que é, descobrimos que sua lesão no olho ocorreu no momento em que ele obliterou a nave que comandava logo após fugir dela para evitar ser capturado. Além de desenvolver ainda mais o personagem como alguém realmente disposto a fazer de tudo para vencer a guerra, ficamos sabendo também que Lorca é um assassino em massa, apesar de seus motivos, segundo o que o próprio narra, terem sido “nobres”. Ele, contudo, não está ali para pedir desculpas, ele está ali ganhar a porra da guerra e não perde tempo se lamuriando.

De volta à Discovery, a tripulação descobre onde está o capitão e usa o tardígrado para pular até lá. Ato contínuo, o bicho pede arrego e se encolhe todo feito um gongolo, entrando em um estado de hibernação próprio dos ursos d’água terrestres e tornando-se imprestável para uso como navegador. Saru continua ignorando a dor do Estripador e manda o Dr. Cullber reanimar o tardígrado, já que eles vão ter que pular dali bem rápido depois que conseguirem resgatar o capitão.

Lorca, na boa tradição dos capitães fodões da Entreprise, se junta a Ash e escapa, usando uma arma fuderosa que desintegra Klingons e que queima o rosto da capitã-molestadora. Será que ela volta atrás de Ash em algum episódio posterior? Só isso explica o porquê de Lorca, que matou sem piedade alguma todos os Klingons anteriores, não tê-la assassinado à sangue frio ali na hora. Os dois roubam um transporte e fogem, não sem antes fazerem um esforço para deixar Mudd lá. Eles poderiam tranquilamente ter levado junto o único outro humano vivo da nave Klingon, mas deixaram-no ali. E isso nem parece forçado, tamanho é o nível de escrotidão desse indivíduo.

Saru, lembrando a todos que também é um excelente oficial e não só uma sombra de Michael, consegue deduzir qual é o transporte onde está o capitão e o teleporta à Discovery junto com Ash. Imediatamente, ele pergunta a Stamets se o tardígrado se recuperou. Stamets responde que dá para pular e eles saltam dali com facilidade, levando todo mundo a crer que quem foi usado como navegador foi Michael, ainda que Saru a tivesse colocado de castigo no seu quarto momentos antes.

Na verdade, foi Stamets quem se colocou como navegador como um cientista louco de filme B da década de 60. Sua motivação, contudo, fica clara depois, quando descobrimos que ele é o primeiro personagem abertamente desenvolvido como gay da franquia (apesar de ter sido sugerido que o Sulu da nova série de filmes o é também) e não queria arrumar problema em casa se colocasse o pobrezinho do Estripador para se foder ali como navegador novamente, já que seu companheiro é o Dr. Cullber que vinha lutando tanto pelo bem estar do bicho. Além disso, ele é um apaixonado por seu trabalho e aquilo lhe deu um vislumbre do universo que nenhum outro ser da galáxia, além do tardígrado, tivera antes.

Saru e Michael tem mais uma DR e finalmente descobrimos que o problema dele com ela é carência e ciúmes. Ele queria ter tido mais atenção da capitã Georgiou (Michelle Yeoh), mas esta estava muito ocupada dando atenção a Michael, que, por sua vez, magnânima que só um caralho, resolve dar a Saru aquele telescópio que a pobre capitã havia lhe deixado como um de suas últimas vontades enquanto viva. Mais uma vez, Michael se amotina e caga fortemente para os desejos de sua capitã. De todo modo, foi mais uma cena excelente, em que se percebe que a pressão do comando talvez seja demais para Saru, que, demonstrando mais uma vez não estar preparado para tanto, ordena que Michael salve a vida do tardígrado, permitindo que esta, no movimento mais incoerente com uma cientista que eu já vi, liberte o animal.

Estamos aqui falando do ÚNICO bicho de sua espécie já descoberto e o ÚNICO até então que permitia o uso da dobra-shitake. Liberá-lo é de uma incongruência científica dolorosa, ainda que condizente com os preceitos morais supostamente sustentados pela Federação.

Tyler e Lorca iniciam um bromance que deve durar até o final da série de dois homens sedentos por sangue Klingon. Já sabemos a motivação de Tyler (6 meses preso e estuprado por uma Klingon cuja genitália pode ser literalmente qualquer coisa). Falta ainda entender exatamente o porquê dessa impetuosidade tão grande do capitão, apesar de já estar implícito.

Temos ainda tempo para uma cena direta do filme Candyman, em que Stamets, após um momento de ternura com seu companheiro em que os dois conseguem incrivelmente ter uma conversa inteligível enquanto escovam os seus dentes. Stamets sai de frente do espelho, mas seu reflexo permanece ali com um sorrisinho de quem está querendo fazer alguma merda.

Como eu havia especulado antes, a viagem por dobra-cogumelo causa dor e sofrimento a algum ser vivo. Não só isso, alguma coisa muito sinistra está acontecendo com Stamets por causa de seu papel como navegador e é provavelmente o desenrolar desse arco que vai nos esclarecer exatamente o porquê dessa tecnologia não ser usada no futuro.

Em mais um bom episódio, a franquia vai desenvolvendo seus personagens principais (em especial Lorca desta vez), apresentando novos (Mudd e Tyler) e criando novos arcos de história a serem explorados. Tudo parece estar indo por um caminho bom e vamos torcer para que assim continue, muito embora o roteiro tenha dado algumas deslizadas e este episódio tenha apresentado ujma atuação e maquiagem destoante com o orçamento e com o padrão imposto pela própria série nos episódios anteriores.

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