Semana passada eu dei uma revisada geral e superficial nos dois episódios que serviram como o piloto da série, sem apresentar spoilers. A partir dessa resenha, isso vai mudar. Estejam preparados para spoilers dos episódios anteriores e deste terceiro episódio a seguir.

Recapitulando: Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) era imediato de uma nave da Frota Estelar que entrou em contato com um artefato que se descobriu Klingon. Inadvertidamente, ao ser obrigada a ir investigar tal artefato in loco, Michael acabou por dar início a uma série de eventos que acelerou o início da guerra com os Klingons. Ao contrário de nós – que estávamos totalmente por dentro do que estava acontecendo com o núcleo Klingon e a união de sua antes fragmentada sociedade contra Federação de Planetas Unidos, tida como inimigo comum -, a Federação não tem total noção do que ocorria por trás de tudo aquilo.

Chapinha on.

Por esta razão e pelo fato de Michael ter se amotinado na tentativa de forçar sua nave a tomar uma ação drástica na intenção de evitar a guerra, ela é ostracizada e condenada à prisão perpétua, o que quebra aquele paradigma tradicional de que é o Capitão o protagonista de qualquer série da franquia.

Passados 6 meses daquela batalha, descobrimos que não há chapinha de cabelo no cárcere intergalático e Michael está sendo transportada para outra prisão quando descobrimos que seu motim, aos olhos de todos os demais cidadãos da Federação, foi responsável pela morte de 8.186 tripulantes da USS Europa, nave que veio ao resgate da embarcação na qual ela servia. Logo depois disso, finalmente descobrimos porque a série se chama Discovery, mantendo a tradição começada com Deep Space Nine de os nomes das naves serem os títulos da série.

Chapinha off.

Capitaneada pelo Capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs), a Discovery é uma nave científica e seu imediato, coincidentemente (ou não), é o mesmo Saru (Doug Jones, excelente) que trabalhava com Michael e tinha com ela uma saudável e leve rivalidade, que agora se tornou uma muito bem retratada consternação mútua, de duas pessoas que passaram por uma perda recente e traumática e que, apesar de qualquer eventual ressentimento, se respeitam muitíssimo.

“Mas seu cabelo tá diferente, menina.”

Lorca recebe Michael e já a coloca para trabalhar, tudo de uma forma muito suspeita, o que leva Michael, com sua criação vulcana, a começar a ligar os pontos e a entender que ela estar ali não aconteceu por acaso. Talvez até mesmo a presença de Saru ali não seja por acaso. Vamos descobrir em breve, imagino.

Ela é lotada no setor de engenharia, sob a batuta do pau-no-cu Tenente Stamets (Anthony Rapp). Ele está liderando um projeto secreto com o qual, mesmo sem saber nada a respeito, Michael deve ajudar. Além da Discovery, Michael descobre por pura xeretice que outra nave, a USS Glenn, está também fazendo a mesma pequisa. Stamets e sua contraparte na Glenn conversam sobre uma medida chamada Speirein, que seria vital para aqueles experimentos. Apesar de eu não ser cientista, eu tenho acesso ao Google e descobri que parece não existir uma medida com este nome. Descobri, também, que esta medida é o nome grego para esporos, o que fará todo sentido quando Michael, fiel à sua característica de fazer o que acha o certo em detrimento do que é lícito, invade a câmara onde tal experimento acontece e se depara com uma cultura enorme de esporos.

Pau no cu Stamets.

O experimento sendo feito na Glenn falha miseravelmente, matando todos a bordo. E aí mais um paradigma é quebrado. Ao invés do próprio Capitão e seus oficiais mais graduados irem investigar o que aconteceu, ele manda a equipe de ciências que cuida do mesmo experimento, uma condenada a prisão perpétua e dois oficiais de segurança devidamente treinados para o combate, todos liderados por Stamets. É aqui que descobrimos o porquê de ele ser tão babaquinha. Ele explica a Michael que, antes dessa rachada começar a guerra, ele era super feliz ao lado do seu parceiro da Glenn conduzindo sua pesquisa em paz. Por causa da guerra, sua pesquisa foi cooptada pela Federação e agora ele precisava viver por resultados e longe do seu “amigo”.

Aqui temos também uma das razões que fazem de Star Trek o que é. Stamets explica, com aquele ar de quem sabe o que está falando e com convicção, que biologia, física e química, em um nível quântico, são essencialmente a mesma coisa. Como eu não sei absolutamente nada sobre nenhuma dessas ciências (no que devo ser acompanhado pela maior parte de vocês) eu aceitei na boa e com um sorriso no rosto, apesar de desconfiar que, essencialmente, tudo é a mesma coisa em um nível quântico. De todo modo, são essas explicações (muitas vezes pseudo) científicas que tornam a franquia o que ela é.

Trilha de corpos digna do Xenomorfo.

Chegando a Glenn, temos cenas chupadas diretamente dos filmes da franquia “Alien”, além de uma nova quebra de paradigma. Vários corpos despedaçados e deformados são graficamente mostrados. Até uma perna em uma poça de sangue é claramente mostrada. Star Trek nunca teve esse nível de violência gráfica. Aparentemente, o tal acidente com o projeto da Glenn distorceu os DNAs dos tripulantes da nave, tornando-os todos uma representação humana do que seria um pano torcido. Além disso, por algum motivo que ao final se torna aparente, um monstro está à espreita na nave e já matou vários Klingons que a haviam abordado depois do acidente.

Michael salva o dia enquanto bizarramente cita passagens de Alice no País das Maravilhas (o que se demonstrará pertinente ao final), não sem antes um figurante morrer, ainda que não estivesse vestindo camisa vermelha. Todos voltam para a Discovery são e salvos.

Previsivelmente (ainda bem nesse caso), Lorca, no melhor diálogo deste episódio e da temporada até agora, convida Michael a fazer parte de sua tripulação. Esta, ainda que tenha se amotinado, se investe de dona da verdade e começa a falar no quanto ela é fiel aos princípios da Federação e jamais faria parte de experimentos com armas biológicas, que, segundo suas maravilhosas deduções vulcanas, explicariam do que diabos aquele projeto se tratava.

Lorca (e eu já adoro o capitão) coloca Michael no seu lugar, deixando claro que, mesmo que ele seja implacável e reconheça nela a mesma qualidade, ele não é um monstro genocida. O projeto com os esporos, na realidade, é uma espécie de nova maneira de viagem estelar, quase que um teleporte interestelar, o que não só daria a Federação uma vantagem indizível na guerra, como também teria implicações muito mais abrangentes para toda a sociedade galática.

Terminando toda essa explicação e deixando claro que ele vê em Michael o tipo de capacidade de tomar decisões de acordo com a situação e em detrimento do que mandaria a lei, ele diz uma máxima tão difícil de ser contestada quanto facilmente criticada: “A Lei universal é para os peões. O contexto pertence aos reis.”

“Universal law is for lackeys. Context is for kings.”

Acredito que esta máxima deverá ser a tônica da série e acho excelente que seja esse o caso.

Finalizamos o episódio com um lindo salve à série original. Lembremos que vulcanos vivem uma média de 200 anos terrestres, que esta série se passa 10 anos antes da original e que Michael foi criada como filha adotiva do único casal humano-vulcano em Vulcano. Michael conta a sua coleguinha de quarto nerdona (Mary Wiseman) – que finalmente dá voz àquilo que todos estamos nos peguntando e fala do quanto ela acha estranho uma mulher se chamar Michael – que Amanda, a humana que criara Michael, tinha um filho e ela lia para ela e para este filho o livro “Alice no País das Maravilhas”. Ganha um pirulito virtual quem descobrir de quem se trata esse filho meio homem, meio vulcano dessa moça.

Mais um excelente episódio que promete coisa ainda melhor a vir por aí.

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