Como já é a praxe aqui do MetaFictions em nossos reviews de episódios de séries, teremos spoilers do episódio e da série inteira no texto a seguir.


Chegamos aqui ao famigerado mid-season finale, um artifício escroto criado pelos criadores das séries para justificar o interregno entre novembro e janeiro, momento do qual, historicamente, as televisões americanas se valem para testar o público com novas séries e programas.

Com essa desgraça, somos obrigados agora a esperar até o dia 8 de janeiro do ano que vem pelo próximo episódio de Star Trek: Discovery e, apesar de terem tentado, não acredito que ninguém vai ficar roendo as unhas aguardando loucamente pelo desfecho do cliffhanger previsível e mais ou menos no qual este episódio nos deixou.

Começamos aqui exatamente de onde paramos no episódio anterior. O Almirante Terral (Conrad Coates(personagem cujo nome eu me surpreendo de ter conseguido lembrar) está mandando Lorca (Jason Isaacs) ir embora de Pahvo, dizendo que a missão de usar o transmissor deles como contra-medida ao manto de invisibilidade Klingon fracassou. Lorca resiste contando uma historinha de que não quer deixar o planeta a mercê dos Klingons, mas, na verdade, o que ele quer mesmo é partir pra porrada. Ele faz que aquiesce a ordem de Terral, mas resolve ir para a base estelar mais próximo em dobra de cágado, tudo para dar a seus comandados 3 horas nas quais eles vão ter que descobrir uma maneira de anular o manto de invisibilidade Klingon, mesmo quando os esforços combinados de toda a Federação (da qual, lembremos, Spock já faz parte) não foram capazes de fazê-lo em meses de guerra.

Lorca manda o Dr. Culber (Wilson Cruz) analisar seu marido, Stamets (Anthony Rapp, o destruidor da carreira de Kevin Spacey), pois ele quer dar a desculpa de que a lerdeza em chegar a tal base estelar é em função de algum problema com o tenente e navegador necessário spore drive. Como já dizia o meu tio que morreu de um câncer na próstata não tratado e não diagnosticado porque ele tinha medo de tomar dedada: “quem procura acha”. Culber vê que tem algo errado com Stamets, avisa a Lorca e este, obcecado com o esforço de guerra, convence Stamets a fazer 133 saltos em 4 minutos para que o plano do qual falarei abaixo funcione.

Saru (Doug Jones) e Michael (Sonequa Martin-Green) cagam uma goma fodida ao usarem um monte de termos pseudo-científicos para explicar basicamente o seguinte: há infinitesimais imperfeições no manto Klingon e é possível detectá-las, efetivamente inutilizando-o. Contudo, para que consigam leituras que permitam detectar essas imperfeições, eles precisam instalar dois sensores dentro de uma nave Klingon e coletar dados ao longo dias.

Lorca então desenvolve o plano de usar a dobra cogumelo para ficar saltando de um lado a outro para conseguir receber todas as informações de todos os lados em apenas poucos minutos, ao invés dos dias que levaria da forma convencional. Na real mesmo, os roteiristas queriam uma desculpa para fazer com que Stamets fosse sobrecarregado e ficasse totalmente pistola, de modo que a merda que dá ao final do episódio pudesse ser justificada.

Mesmo assim, esta é uma nova oportunidade para o desenvolvimento do personagem de Lorca que, mais uma vez, se mostra implacável ao, sem pudor algum, manipular Stamets em aceitar aquilo que minutos antes o seu marido havia dito ser algo quase que suicida. Isto é feito fácil e convincentemente quando Lorca demonstra a Stamets as implicações interdimensionais que o motor champignon tem. Apesar de me parecer algo que convenceria facilmente alguém como Stamets, também me parece algo que alguém como ele já teria verificado por si mesmo.

Seguindo em frente, Lorca manda Tyler (Shazad Latif) arrumar mais um caboclo para a missão de instalar os sensores na nave Klingon. Evidente que – depois de um mise-en-scéne em que Michael, como a boa amotinada que é, desafia as ordens de Lorca – é Michael quem vai com Tyler, até mesmo porque calhou de a nave Klingon que está ali em Pahvo dando sopa ser justamente a Nave dos Mortos na qual Michael matou T’Kuvma (Chris Obi) e onde este matou a capitã Gergiou (Michelle Yeoh).

Sem falar com ninguém no comando da Frota Estelar, a Discovery pula de volta a Pahvo e Michael e Tyler conseguem embarcar na Nave dos Mortos usando o teleporte e uns dispositivos que mascaram seus sinais vitais humanos. O primeiro sensor é instalado facilmente e Michael então detecta um sinal de vida humana a bordo da nave, o que a faz querer colocar toda a missão em risco para salvar esta desconhecida que nós sabemos ser a Almirante Cornwell (Jayne Brook). Tyler, demonstrando ter tomado uma chave muito da bem dada por Michael, vai contra tudo o que ele já havia feito antes, baixa a cabecinha e os dois vão tentar salvar o tal humano.

Chegando ao local onde está a humana, eles encontram a Almirante e é então que Tyler congela ao avistar L’Rell (Mary Chieffo). Lembremos aqui que era ela quem o torturava e estuprava, o que fica bem claro com os bem gráficos e violentos flashbacks que ele passa a ter. Apesar dele se fazer de durão, aparentemente ele não superou o ocorrido. Michael é obrigada a estontear L’Rell e continuar com a missão sozinha, deixando para trás um balbuciante Tyler e a Almirante sem controle das pernas. A sorte é que ela é psiquiatra, o que vem bem a calhar posteriormente.

Michael chega à ponte de comando, local no qual o 2º sensor deverá ser colocado, e completa a missão. A Discovery então força que a Nave dos Mortos ative o manto e aí é a hora de Stamets brilhar. Com um pesaroso “eu te amo” direcionado ao Dr. Culber, Stamets parece ter a mais absoluta noção de que muito provavelmente não vai voltar daquela experiência e daqueles 133 saltos em 4 minutos. Ainda quando não haviam sido feitos nem 1/3 dos saltos, o Dr. Culber vê os sinais vitais de seu amado se deteriorando e implora para que o capitão aborte a missão. Este, conhecendo seu eleitorado, argumenta que são trilhões de vidas em risco ali e que o sacrifício de Stamets não poderá ser em vão, ao que todos aquiescem. Mais uma vez Lorca botando o pau na mesa e se comportando como o verdadeiro líder militar e personagem mais fascinante da série que é.

Percebendo aquela patacoada da Discovery dando uma pirueta e sumindo como uma possível armadilha, Kol (Kenneth Mitchell), ainda antes da Discovery sequer chegar perto de completar sua análise, resolve que é hora de partir. Michael ouve isso e, para ganhar tempo para que as análise sejam feitas, se anuncia a Kol. Ela aproveita para protagonizar o momento novela mexicana da temporada ao dizer, com a voz bem impostada: “eu matei T’Kuvma!”

Kol fica todo pimpão, afinal de contas, ter em seu poder a mulher que matou o messias vai lhe arregimentar ainda mais seguidores e solidificar sua posição como o líder do império Klingon não é coisa que aconteça todo dia. Mas, ao mesmo tempo, parece-me um pouco exagerado que Kol, um general de uma raça guerreira, esqueceria de uma ordem dada segundos antes só porque ficou animadinho demais com o brinquedo novo. Ele simplesmente esquece sua conclusão de que estava sendo ludibriado pela Discovery e a ordem de ir embora dali. E, mais, ainda cai no erro de aceitar a chamada de Michael pra porrada quando já a tinha em seu poder e restava-lhe tão somente enviá-la ao cárcere.

Felizmente, essa cabaçada de Kol nos brinda com boas cenas de luta corpo a corpo com Michael, enquanto que os Klingons descobrem Tyler e a Almirante naquela câmara-sarcófago. Com o poder do amor que sente por Michael, Tyler finalmente consegue sair daquela espiral de tortura e putaria que lhe tomara conta da mente, obliterando um Klingon no processo e salvando a Almirante.

Com isso tudo acontecendo, a Discovery consegue fazer suas análises, Saru completa os cálculos e, voilá, o segredo do manto de invisibilidade Klingon está desvendado. Lorca manda trazer o pessoal todo de volta para a nave. Nessa brincadeira, L’Rell acorda do tonteio e se agarra a Tyler, sendo teleportada também à Discovery. Michael, antes de ser transportada, ainda consegue tomar o distintivo de sua antiga capitã das mãos de Kol.

Em mais uma cena que demonstra o quão excelente é o personagem de Lorca, ele pinga aquele colírio high tech nos olhos somente para poder ter o prazer de testemunhar o clarão absurdo que é a destruição da Nave dos Mortos e o assassínio dos sei lá quantos milhares de Klingons que a tripulavam, tudo enquanto Saru e Michael se entreolham com um sentimento de dever cumprido, vingança conseguida ou seja lá o que for que lhes dá alguma nesga de satisfação pela morte da mulher que ambos tanto admiravam.

Logo após, Lorca toma um semi-esporro por mais uma vez ter desobedecido o Almirante Terral, mas ao mesmo tempo é congratulado por seus métodos heterodoxos que levaram a destruição da principal nave Klingon, ao resgate da Almirante Cornwell e, principalmente, a obtenção de um método para se anular o manto de invisibilidade Klingon. Lorca reage com algum pesar, pois Terral quer que a Discovery agora fique fora das linhas de frente, o que significa que ele não vai mais poder destruir Klingons com suas próprias mãos.

Em mais uma excelente cena, inacreditavelmente Michael parece apresentar algum ciúme de Tyler com L’Rell e uma DR bem traumática, mas que termina bem, acontece. Contudo, na manhã seguinte, Tyler tem sonhos eróticos com L’Rell e então temos aqui o que é, até onde me lembro, a primeira cena de sexo explícito da história de Star Trek, além do primeiro peitinho a ser mostrado! Tudo bem que a cena não é nada de mais e o peitinho é uma prótese mamária de uma Klingon, mas, mesmo assim, é algo que é bastante coerente com essa necessidade quase que patológica de Discovery de explicitar e de tornar as coisas mais cruas e reais.

Visivelmente perturbado pelo ocorrido, Tyler, apesar de amar Michael, é fortemente afetado pela presença de L’Rell, de modo que provavelmente há muito mais caroço nesse angu.

Por fim, Lorca dá os parabéns a Stamets e diz que deve tudo a ele. Por causa de seus esforços e sacrifícios, a guerra será ganha e então as estrelas (e as dimensões) estarão prontas para serem exploradas pelo motor champignon. Stamets agradece a glória, mas, claramente pela força do sentimento que tem pelo Dr. Culber, diz que vai dar um tempo e buscar tratamento, apesar de se disponibilizar para dar um último salto dali para a base espacial onde a Discovery ficará alocada por um tempo.

Ao dar esse salto, temos aqui também o primeiro beijo gay de Star Trek com Stamets fazendo planos e juras de amor ao Dr. Culber. Ele então entra na câmara dos esporos e aí acontece aquilo que todo mundo saberia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde desde que inventaram essa porra desse motor e, em especial, depois de ele ter feito 133 saltos em poucos minutos.

Stamets não aguenta aquele novo salto e então a Discovery chega a um lugar que, a julgar pelos instrumentos de Saru, é desconhecido. Do que se trataria? Uma parte desconhecida da galáxia como em Voyager? O lamentável universo espelho de Star Trek? Seriam aquele monte de comandos em seu console e o “vamos para casa” de Lorca indícios de que este era seu plano o tempo todo?

Descobriremos nos próximos 6 episódios, mas teremos que esperar dois meses para isso.

No geral, tivemos aqui mais um bom episódio, apesar de contar algumas inconsistências, incoerências e forçações de roteiro. Esta tem sido a tônica da série até aqui. Roteiros muitas vezes fracos, mas que vem sendo recheados com atuações convincentes, direções firmes e, principalmente, pelo carisma de seus intérpretes. Agora resta-nos esperar e torcer para que ou abandonem o núcleo Kingon de vez como parece ter sido indicado, ou então resolvam desenvolvê-lo a partir de L’Rell e suas práticas sexuais bestiais.

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