Como já é a praxe aqui do MetaFictions em nossos reviews de episódios de séries, teremos spoilers do episódio e da série inteira no texto a seguir.


Lethe é o nome em inglês da deusa grega Lete (ou Léthê). Seu nome quer literalmente dizer esquecimento, sendo o oposto da palavra aletheia, que quer dizer verdade. E é somente após o final deste excelente episódio que entendemos o quanto é pertinente o seu título.

Antes mesmo da introdução, somos presenteados com um lindo panorama de Vulcano enquanto Sarek (James Frain), pai de Spock e guardião de Michael (Sonequa Martin-Green), está deixando o planeta com um assistente em direção a uma missão diplomática cercada de mistério, somente para, mantendo a coerência com o tom crítico que a série assume contra qualquer tipo de intolerância, ver sua nave ser sabotada pelo tal assistente, um purista da lógica vulcana mortalmente ofendido pela bestialidade de Sarek ao fecundar uma humana, ter um filho mestiço e criar uma criança humana como se sua fosse.

Não é demais lembrar que essa é a mesma bandeira levantada por T’Kuvma nos primeiros episódios.

Logo depois disso, o bromance entre o Capitão Lorca (Jason Isaacs) e Ash Tyler (Shazad Latif) que eu havia adiantado semana passada se comprova em uma cena que é tão bem atuada quanto é controversa. A controvérsia aqui jaz no fato de que eles estão treinando no que parece ser um holodeck e o holodeck, a priori, não havia ainda sido inventado nessa época, tendo sido usado tão somente a partir da Nova Geração, o que ocorre somente 100 anos após a série original, que, por sua vez, é passada 10 anos depois de Discovery

Enfim, esse foi o momento fã chato pra caralho que temos dentro de todos nós, o que me obriga também a falar que há alguma menção do holodeck na série animada, mas quem se importa com a série animada, não é mesmo?

Ainda antes dos créditos, temos Tilly (Mary Wiseman) correndo e falando que quer um dia ser capitã, enquanto Michael discorre sobre as naves da Frota Estelar (mencionando a Enterprise!!!!) e bizarramente saltita ao seu lado como uma gazela. Que porra de técnica de corrida é aquela? Alguém lembra se em Vulcano o pessoal é ensinado a correr daquele jeito? 

Descobrimos ainda que Michael é a famosa fit-chata ao ficar cornetando o que a pobre da Tilly quer comer. Esta, por sua vez, dá uma olhada para Ash no refeitório e só falta começar a se tocar ao falar a respeito do rapaz para Michael. Assanhada como ela só, Tilly senta ao lado de Ash, que está batendo um prato de pedreiro respeitável, e Michael é obrigada a fazer o mesmo. No momento em que Michael aperta a mão de Ash, ela sente, por meio do elo mental, que Sarek está mal.

Ela é sugada para dentro da mente de Sarek e testemunha uma DR entre Amanda (Mia Kirshner) e Sarek por causa dela mesmo. Sarek parece estar revivendo o momento em que Michael foi reprovada para entrar no Grupo Expedicionário Vulcano. Amanda – que é esposa de Sarek, mãe de Spock e guardiã de Michael – argumenta que ela foi a melhor de sua classe e que mereceria entrar. Nesse momento não sabemos se ela está sendo aquela mãe que sempre acha que o cocô do seu filho é mais cheiroso que o dos outros ou se está refletindo a verdade dos fatos. Mas, pela cara de Sarek, a questão é puramente racial. Michael não teria passado por ser humana demais e aquele desapontamento de Sarek, aos olhos da Michael presente testemunhando aquela memória, é uma porrada fortíssima.

Ao acordar, Michael explica ao capitão que ela só consegue entrar no katra de Sarek porque ele o compartilhou com ela para salvar sua vida após um ataque de extremistas da lógica vulcana quando ela ainda era criança. Lorca então confirma com o conselho da Frota Estelar que Sarek estava a caminho de um encontro diplomático com Klingons para tentar negociar a paz pelas costas da Federação. Lorca, moleque doido que é, resolve que vai lá salvar Sarek mesmo sob protestos do Vulcano que lhe dá essa notícia. Ele quer, na verdade, esfregar na cara dos Vulcanos que foi um humano que os salvou.

Colocando de lado a cena atormentadora do episódio anterior em que o reflexo de Stamets (Anthony Rapp) no espelho ganhou vida, descobrimos que o sujeito que ama os fungos parece estar tomando chás feito deles. Ele está se usando regularmente agora como navegador do motor-champignon e virou um puta dum hippie por causa disso. Ele aparece nesse episódio só para ajudar Michael a ampliar artificialmente seu elo mental com Sarek e conseguir, desta forma, fazer com que ele acione o transponder de sua nave para que esta seja encontrada.

Nessa parte vemos a ficção científica de Star Trek brilhando. Um dos grandes pilares desse gênero é a criação de condições hipotéticas, condicionais e limitadoras como um artifício dramático para o avanço da trama. Aqui, neste caso, era necessário que Michael estivesse isolada com Tyler em algum lugar para o desenvolvimento desses dois personagens. A saída encontrada pelos roteiristas foi a de dizer que seria impossível à Michael ampliar o “sinal” do lado de fora da nebulosa onde estava a nave de Sarek e procurar pela embarcação com sondas normais demoraria meses, o que certamente acarretaria na morte de Sarek.

A solução é colocar Michael e sua traquitana ampliadora de sinal em um transporte para dentro da nebulosa. Ninguém melhor que Ash Tyler para pilotar este transporte, com Tilly indo para ajudar por causa de seu expertise científico.

Michael consegue entrar na mente de Sarek novamente que, com uma agressividade não característica dos vulcanos, tenta expulsá-la. Isto faz com que Tyler, que havia sido instruído a trazer Michael de volta ou nem se dar ao trabalho de voltar, mande Tilly acordar Michael. Ela acorda extremamente bolada porque o homem que ela considerava como um pai estava ali revivendo aquele momento. Aqui Latif brilha no diálogo em que diz a Michael o óbvio. Quando estamos quase mortos, nós revivemos não os momentos mais importantes da nossa vida, mas sim aquelas coisas que gostaríamos de ter feito de forma diferente.

De novo na mente de seu guardião, Michael descobre que Sarek foi um grandisíssimo dum filho da puta com ela (e isso explica a sua agressividade), pois ele a preteriu em favor de seu filho Spock. A Sarek foi dada essa escolha (bem escrota por sinal). O Grupo Expedicionário Vulcano nunca tivera qualquer pessoa que não fosse vulcana e Sarek precisava escolher entre sua protegida humana ou seu filho biológico meio vulcano, meio humano. Ele, sendo muito mais emotivo do que um vulcano tem o direito de ser, escolheu o filho legítimo e mais amado, muito embora a lógica ditasse que ele deveria ter escolhido Michael, já que ela já estava ali, enquanto Spock ainda não tinha idade nem para entrar no curso e tampouco se sabia se ia querer fazê-lo.

A graça jaz ainda no fato de que Spock cagou para esse grupo e se alistou mesmo foi na Federação, dando uma banana para papai e fazendo sua escolha se tornar ainda mais dolorosa, constrangedora e escrota mesmo.

Feita esta bombástica revelação, Michael consegue fazer com que Sarek ligue o transponder e eles conseguem salvá-lo.

Enquanto tudo isso acontece, na Discovery o Capitão Lorca recebe a visita da Almirante Cornwell (Jayne Brook), que veio novamente dar uma chamada no fera. Ele, afinal de contas, havia mandado uma amotinada, uma alferes e um cara que tinha passado os 6 meses anteriores sendo sistematicamente estuprado bestialmente por uma Klingon para salvar um dignatário vulcano, além de vir arriscando repetidas vezes a sua nave e tripulação.

Em mais uma performance excelente de Isaacs, Lorca cala a boca da Almirante com uma garrafa de Teacher’s e, após alguma DR em que ela verbaliza suas preocupações com seu amigo, com uma chave de piroca bem dada. A cena em que a Almirante se despe de seu distintivo da Federação diz tudo.

Depois de ter sido feita gostoso, Cornwell fica ali olhando as cicatrizes de Lorca e resolve dar uma alisada numa delas. Lorca, demonstrando ser realmente um puta dum desequilibrado cheio de desordens pós traumáticas depois de ter explodido sua nave anterior com a tripulação dentro, sente o toque e reage pulando em cima da Almirante com uma mão em seu pescoço e a outra segurando um phaser na cara dela.

Ela dá um chilique e fala aquilo que todo mundo já sabe desde o início: Esse sujeito, depois de ter explodido e perdido uma nave inteira, não deveria ser capitão de uma nave da Federação, em especial quando esta é a PRINCIPAL nave da Frota. Lorca implora, pede arrego e pinico, mas Cornwell parece estar decidida e levar a questão toda ao conselho e destituir Lorca do comando da Discovery, não por ser uma megera, mas por querer que aquela pessoa com quem ela tem um relacionamento muito mais do que meramente militar tenha toda a ajuda necessária para se recuperar do estresse horrível por que passara.

Fica claro que a Discovery é tudo na vida do capitão. Tão claro que, quando Lorca sugere que Cornwell tome o lugar de Sarek nas negociações pela paz e a assiste entrando na nave que a transportará ao local da negociação, eu pensei seriamente que o transporte explodiria antes mesmo de chegar a seu destino.

Michael conversa com Sarek, que tenta se manter impassível e sem sentimentos tal qual deve ser com um vulcano, mas é incapaz de fazê-lo convincentemente, tal qual é peculiar a um homem que sabe que seu segredo mais perverso e cruel foi liberado, em uma interpretação bem no tom de Frain como Sarek.

Com essa quebra de sua natureza vulcano-humana, Michael, acredito, vai se desenvolver ainda mais como personagem. Ela acaba de retirar de suas costas um fardo insuportavelmente pesado, o peso de ter desapontado seu pai que é tão comum à basicamente toda a vida familiar humana. Isto a tornará mais livre e um ser humano melhor, e é o que percebemos logo na cena seguinte em que ela e Ash têm um momento íntimo, no qual ele a explica que sentir aquilo tudo faz parte de ser humano. Acho que vai rolar um vuco ali, hein…

Voltando à Almirante, a tal reunião era obviamente uma armadilha. Depois de assassinarem seus seguranças em uma cena mais uma vez bem violenta, ela é tomada como refém. Lorca fica sabendo e, ao contrário do que vinha fazendo, não age impulsivamente para ir resgatá-la. Em vez disso, ele manda notificar a Frota Estelar e diz que vai aguardar ordens, aparentando, desta forma, que está levando em consideração todas as coisas que Cornwell havia falado com ele.

A câmera então corre seu corpo e focaliza no phaser enfiado na cintura, deixando claro que ele não está levando em consideração porra nenhuma e está até aliviado que a Almirante não teve tempo de ir ao conselho falar sobre seu comando da Discovery. Acho bem provável que ele estivesse secretamente torcendo para que isso acontecesse.

Mais um excelente episódio, que segue quebrando paradigmas e desenvolvendo personagens, além de que finalmente Ash e Michael são empregados oficialmente na Discovery, o primeiro como Chefe de Segurança e ela como Oficial de Ciências, tal qual seu “irmão” mais novo. Temos ainda mais 9 episódios e a promessa é de coisa ainda melhor vindo por aí.

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