Como já é a praxe aqui do MetaFictions em nossos reviews de episódios de séries, teremos spoilers do episódio e da série inteira no texto a seguir.


Com forçadas insuportáveis de roteiro, easter eggs muitas vezes gratuitos e atuações mais do que sólidas de seu elenco, este 15º e último episódio da 1ª temporada pegou todas as coisas que nos irritaram ao longo de todo o seriado e condensou-as em um episódio só, além de também ter escolhido terminar indo na contramão do ritmo e pegada que haviam sido estabelecidos nos episódios anteriores, em especial até a morte de Lorca (Jason Isaacs).

Em um discurso que ilustra todo o episódio, começamos com Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) narrando uma anedota sobre o medo e sobre como conquistá-lo que vai permear todo o episódio, em uma clara referência a superar o medo do desconhecido e das coisas que fazem com que ajamos de forma contrária à nossa natureza, crenças e afins, sempre em nome de uma pretensa “sobrevivência”. No caso aqui, contudo, isso não cola muito, já que a crítica era à Federação e a decisão que tomaram me pareceu sensibilíssima e pertinente.

Antes deste discurso, temos uma cena toda em CGI em que a câmera mostra uma flotilha Klingon entrando no sistema solar e se aproximando da Terra, enquanto que a Discovery está perto de Qo’noS, preparando a operação que, pelo que nos foi informado no episódio passado, vai meramente mapear o planeta e prepará-lo para um ataque fulminante do que resta da Frota Estelar.

Em seguida, temos uma cena divertida, ainda que um tanto desnecessária, da Georgiou-espelho (Michelle Yeoh) basicamente esculachando tudo que lhe é reportado pelos seus oficiais na ponte de comando, demonstrando ainda ser realmente bem racista ao dizer que os Klingons são animais e, portanto, não podem ter lares. E ainda deu uma cortada na menina antes mesmo de ela sequer proferir a palavra homeworld. Escrotaça!

Além disso, ela também se mete numa briguinha velada de palavras com Saru, provocando-o ao dizer que Kelpiens ficam mais “duros” quando com medo, ao que Saru diz que o medo os deixa até mesmo intragáveis, em clara referência à predileção de Georgiou por ter um Kelpien em seu prato e não ao seu lado.

Michael tenta exigir que os planos para a operação em Qo’noS sejam revelados e Georgiou responde levando Michael junto com ela para o espancamento de L’Rell (Mary Chieffo) no afã de se descobrir qual seria o melhor lugar para se entrar no sistema de cavernas do planeta para fazer o suposto mapeamento. L’Rell responde que a Federação já perdeu, o que mais uma vez dá uma tônica do episódio de hoje, já que sua referência é explícita ao fato de que o mero fato de se ter colocado uma maluca sanguinária do caralho como Georgiou como capitã de uma nave já mostra o quanto a Federação teria se afastado de seus ideais fundamentais. 

Lembrando de Tyler (Shazad Latif), Michael tem a ideia de usar as memórias de Voq dentro dele para conseguir a resposta, não sem antes permitir que L’Rell seja coberta brutalmente na porrada. Tyler concorda com o plano e aponta onde seria o melhor lugar para a incursão. O grupo avançado será composto pela capitã, Michael, Tyler como o especialista Klingon e Tilly (Mary Wiseman), que ainda é obrigada a ouvir críticas a seu cabelo.

Stamets faz um salto micelial longo o suficiente para que Tilly tenha tempo de fazer uma escova e para que o grupo avançado coloque roupas de maloqueiro para que possam se misturar na multidão dessa área controlada pelos Órion, uma raça humanoide que faz parte do império Klingon e é conhecida pelo seu talento para a putaria sem limites, o que é comprovado poucos minutos depois.

Eu aqui tenho uma certa ressalva ao ocorrido, pois me parece bem esquisito que a presença de humanos – ou de qualquer outra raça pertencente à Federação – em solo Klingon seja tolerada, sendo que eles quase não são antagonizados, mesmo aquele sendo um antro de sexo, drogas e contrabando de armamento.

Eventualmente, eles entram no que deve ser mais uma quebra de paradigma da série: seu primeiro puteiro. Nele, Georgiou quebra ainda mais outro paradigma ao provavelmente ser a primeira personagem de toda a franquia a se engajar num ménage a trois e com o adicional de ser com seres de outra espécie. Apesar de não aparecer peitinho ou nus frontais masculinos, pareceu uma cena saída diretamente de Game of Thrones.

Antes de partir pra putaria a la Mr. Catra, Georgiou manda Tyler e Michael saírem para descobrir onde fica o tal santuário de onde eles vão poder ativar o drone, além de mandar Tilly ficar quieta na dela guardando a maleta com o equipamento enquanto ela faz sua suruba em paz.

E aqui temos o ponto alto do episódio e que é um dos pontos altos da série: a relação Michael e Tyler. Os dois conversam sobre Voq e, ao ver Tyler se comportando mais como Klingon do que como humano ao participar de um jogo e tentar conseguir a informação almejada, Michael parece entender que ali não vai ter mais jeito, apesar do genuíno amor que sente.. Isso fica ainda mais evidente quando, em uma cena realmente bem atuada, Michael conta a Tyler sobre a morte de seus pais e o pé atrás que tem com os Klingons.

Nesse ínterim, Tilly gratuitamente toma um “boa noite, cinderella”, ainda que consensual, de um local interpretado por Clint Howard que, enquanto criança, havia estrelado um episódio da série original. Não vi sentido nenhum em Tilly ter ido se apresentar a esse malandro e muito menos nela consentindo em fazer o que também talvez seja o primeiro uso consensual de substâncias psicotrópicas da série, servindo isto apenas para o easter egg de Clint e para que ela tivesse alguma motivação para abrir a maleta e descobrir que lá dentro tinha na verdade uma hidrobomba.

Ao tentar reportar isso a Michael, Tilly é nocauteada por Georgiou que acabara de sair de sua sessão de sexo com um casal de prostitutos que discutiam se eles sequer deveriam cobrar alguma coisa dela, já que ela era tão foda e tinha ensinado tantas coisas a eles, tudo para pintar com ainda mais força a decadência moral da capitã. Esta, contudo, quer nem saber disso e extrai dos dois a localização do santuário na base da porrada.

Tyler e Michael acabam encontrando com Tilly e ela revela a eles que a tal hidrobomba é um dispositivo do tamanho de uma bola de futebol mas que, sozinho, tem o potencial de aniquilar um planeta quando ativado em sua camada magmática, o que destruiria a vida em Qo’noS em poucas semanas e cometeria um genocídio planetário. Tilly acredita que Georgiou está agindo sozinha nisso como a assassina desvairada que ela é, mas Michael percebe que ela certamente está agindo sob ordens da Federação.

Depois de uma simulação dos efeitos da hidrobomba, Michael discute com Cornwell e diz não concordar com o genocídio, que aquilo vai contra os ideais da Federação. É aqui que eu começo a ficar puto com esse episódio, pois todo um conselho de segurança de uma Federação combalida, perante a sua erradicação e diante da iminente destruição do planeta natal humano é convencido por uma amotinada condenada e pela tripulação de uma nave que sequer viveu os 9 meses de guerra, derrotas e perdas indizíveis nas mãos dos Klingon, que jamais demonstraram ou demonstrariam misericórdia remotamente parecida.

Com esse discurso de 30 segundos e um plano absolutamente IMBECIL, Michael convence todo mundo que não tem isso de destruir o mundo natal dos Klingon e parte para o tal santuário para impedir Georgiou. Aqui todos imaginamos que rolaria uma porrada maneira, filha contra mãe trocando golpes e com Michael vencendo ao final, certo? Erramos, otários!

Michael chega e conversa com Georgiou, que tenta cooptá-la com planos de dominação galática a la império terrano. Michael a rechaça e diz que  Georgiou vai ter que matá-la se quiser ativar a bomba e, de quebra, vai ter que viver fugida. Georgiou desiste e é então que o plano BOÇAL de Michael se revela. A bomba já foi instalada no planeta e poderá ser detonada a qualquer momento, tendo seu detonador conectado a bio-assinatura da imperatriz. O plano então é trocar a assinatura pela de L’Rell e dar a ela poder total sobre a bomba, na esperança de que L’Rell use a ameaça da bomba para chantagear as 24 casas Klingon e fazer com que elas se submetam à ela enquanto a líder suprema de toda a raça Klingon.

E isto tudo enquanto os Klingon, raça guerreira e conquistadora, estão a segundos de erradicar a odiada Federação, objetivo este compartilhado por L’Rell desde que seu mentor T’Kuvma o incutiu em sua cabeça. E é assim, com um trunfo sem igual nas mãos, que a Federação toma a decisão mais idiota de todos os tempos, abrindo mão de seu trunfo e dando-o de mãos beijadas a uma supremacista Klingon que nunca demonstrou qualquer amor pela Federação.

É com um iPad em mãos que L’Rell é primeiro ridicularizada quando se propõe como a nova líder de toda a raça Klingon, o que deixa ainda mais clara a fragilidade daquele plano, pois seria muito fácil que qualquer outro Klingon a incapacitasse e tirasse o iPad dela, fazendo com que a única coisa que a valida enquanto líder fosse eliminada. E, mais, não havia nada impedindo que L’Rell continuasse a guerra e, com muito mais facilidade, unisse todas as casas Klingon sob sua autoridade de vitoriosa guerreira.

E é assim que a guerra acaba!! Recapitulando, L’Rell faz do planeta Qo’noS refém e somente com isso, sem qualquer respeito das demais casas, torna-se a líder da raça Klingon. Ela, mesmo sem ter qualquer amor pela Federação, resolve acabar com a guerra por nenhum motivo aparente ao invés de seguir com ela e aniquilar a Federação que já estava em petição de miséria.

Felizmente, antes disso tudo, temos mais uma cena bem tocante e excelentemente atuada entre Michael e Tyler, na qual este, entendendo que não é mais humano e tampouco pode ser considerado klingon, talvez seja mais útil para ambos se ficar com L’Rell e ajudar a impor essa paz maluca e inacreditável que os roteiristas querem enfiar goela abaixo dos espectadores. O casal Tyler/Michael é uma das coisas que funcionaram excelentemente bem durante toda a temporada e ver o seu fim chega a doer no coração, muito embora eu acredite que não será a última vez que veremos Shazad Latif como Tyler/Voq nessa série.

Tudo acaba bem, Michael volta pra Terra e em Paris ela se encontra com papai e mamãe. Seu registro de amotinada é apagado, ela volta a ser uma oficial da Frota Estelar e temos uma solenidade que mais pareceu Star Wars do que Star Trek, com todo mundo ganhando medalha, Tilly entrando para o curso de comando da Frota e Michael finalmente terminando seu discurso sobre medo.

Logo depois, descobrimos mais uma pista do porquê ninguém falar de dobra micelial no futuro quando Stamets diz que a Federação bane a interface humana até conseguir descobrir uma maneira mais humana de se fazer a viagem, no que é mais um absurdo, já que uma entidade militarizada desiste de uma arma poderosíssima apenas dias depois de ter sido inexplicavelmente salva da aniquilação total.

Com Sarek pegando uma carona e Saru como capitão interino, a Discovery vai à Vulcano usando o motor de dobra normal para buscar seu novo capitão. No meio do caminho, contudo, eles recebem um pedido de socorro da, é claro, Enterprise do capitão Pike, num easter egg gratuito, mas que ao mesmo tempo estava escrito nas estrelas que aconteceria em algum momento.

Temos aqui, então, o terreno pronto para a próxima temporada, com um crossover safado com a Enterprise, o que, como tem sido muito comum na cultura pop dos últimos 10 anos, serve quase que exclusivamente para requentar uma receita com a qual os fãs já estão acostumados e que é certeza de audiência, em especial quando provavelmente teremos não só Pike – uma figura conhecida apenas entre os mais dedicados trekkies – mas também Spock, a face mais reconhecível e propagada de toda a franquia Star Trek, na próxima temporada, já que a esta época ele provavelmente já fazia parte da tripulação da Enterprise. Isto sem contar que Sarek é pai dele e Burnham sua irmã adotiva a respeito da qual ninguém nunca tinha ouvido falar até o começo de Discovery.

Star Trek: Discovery lutou a temporada inteira para entender o que queria ser, fazendo muitos salves à essência de Star Trek, mas provando que é, na realidade, um excelente thriller sci-fi de ação, com muitas reviravoltas e atuações realmente estelares. Neste último episódio, contudo, a frustração reinou porque, justo quando o público havia entendido e aceitado isso, a série deixa a ação de lado e aposta em um finale maçante, morno e com uma forçada de roteiro indesculpável justamente para fechar aquele que se demonstrou o seu mais importante e ubíquo arco narrativo.

Funcionando mais como uma espécie de prólogo da 1ª temporada e epílogo da 2ª, o episódio é salvo pela atuação memorável de seus atores, em especial nas cenas Tyler/Michael, mesmo com essa derrapada inexplicável de roteiro. Ainda que a série tenha se notabilizado por seu maniqueísmo e pela forçada dada pelos roteiristas para que a trama siga por onde é mais conveniente, a definição dada para a guerra me pareceu inaceitável mesmo com muita boa vontade. É muito difícil de engolir que uma entidade à beira da extinção abriria mão de seu único e poderosíssimo trunfo como ocorreu. Tão difícil quanto é acreditar que um tablet nas mãos de L’Rell faria com que ela conseguisse fazer de Qo’noS refém e se tornasse líder suprema do império Klingon. Mais difícil de comprar, por fim, é que L’Rell, que sempre pregou a superioridade Klingon em todas as coisas, faria uso de sua liderança para simplesmente acabar com a guerra e que isso seria aceito sem grandes discussões pelos demais.

É assim, com o amargo sabor da frustração e do desapontamento, que Discovery se despede. Esperemos que na próxima temporada, agora conformada com que quer ser, Discovery entenda sua vocação de série de ação e a abrace de vez e com gosto, não sem deixar de demitir o criminoso que resolveu que a guerra contra os Kilngons seria resolvida em dois episódios e da maneira absolutamente estapafúrdia que foi.

 

Torçamos!

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