Como já é a praxe aqui do MetaFictions em nossos reviews de episódios de séries, teremos spoilers do episódio e da série inteira no texto a seguir.


Se queres paz, prepara-te para a guerra.

Esta é a tradução do adágio romano usado no título do excelente episódio dessa semana e resume perfeitamente, como tem acontecido com frequência nos títulos, os dilemas e conflitos apresentados neste que é, em minha opinião, um dos dois melhores episódios da temporada (o outro sendo o terceiro). E muito disso se deve ao fato de que, desta vez, o novo conseguiu se aliar perfeitamente ao tradicional.

Começamos com uma sequência fantástica de batalha espacial que nos deu, finalmente e pela primeira vez, um vislumbre do Capitão Lorca (Jason Isaacs) comandando sua tripulação em uma situação de combate. A Discovery vai ao socorro da USS Gagarin que está sendo atacada por 6 naves Klingon com a tecnologia de invisibilidade. Lorca é inclemente com seus comandados, gritando ordens e semi-esculachos a cada momento, mais uma vez demonstrando que a Almirante Cornwell (Jayne Brook) estava correta e seu estresse pós-traumático após perder a USS Buran o leva a empregar táticas suicidas no afã de salvar a Gagarin.

Após a Gagarin ser destruída, Lorca manda a nave usar o motor-champignon e sumir dali. É aí que, também pela primeira vez, somos agraciados com os detalhes de como exatamente a dobra funciona usando Stamets (Anthony Rapp) em vez do tardígrado. Claramente afetado por todos aqueles saltos, Stamets sai da câmara micelial e chama Tilly (Mary Wiseman), ainda uma mera cadete, de capitã, o que, obviamente, faz com que ela o questione a este respeito. Perdendo, então, todo aquele ar de riponga paz e amor que assumira nos episódios anteriores, o tenente volta a ser o pau no cu do começo da temporada. Há alguma coisa acontecendo com Stamets e, combinado com a ambição de Tilly de ser capitã de sua nave em algum momento, acredito que ele esteja vivendo em várias realidades ao mesmo tempo. Ou em vários tempos ao mesmo tempo. Isso é meio que confirmado mais a frente com a sua explicação a Tilly de que suas verdades e certezas simplesmente mudam em alguns momentos, como se ele fosse uma outra pessoa realmente.

Em uma ligação com um dos membros do conselho da Frota Estelar, somos informados de que a famigerada tecnologia de invisibilidade Klingon está se alastrando por toda a frota deles e mudando os rumos da guerra. É então que descobrimos o porquê de Saru (Doug Jones), Tyler (Shazad Latif) e Michael (Sonequa Martin-Green) não estarem na ponte quando da batalha. Os três foram enviados em uma missão vital para os esforços de guerra em um planeta chamado Pahvo.

Pahvo é um planeta onde tudo vibra de forma uníssona e até mesmo transmite uma espécie de “canção” ao espaço por meio de uma estrutura de cristal. O plano é usar as propriedades dessa construção e dessa vibração para conseguir incrementar os sonares da Frota Estelar e dessa forma conseguir detectar as naves invisíveis dos Klingons.

Os três jogam conversa fora enquanto se encaminham à tal estrutura e aqui temos um dos pontos altos do episódio, pois, além das lindíssimas tomadas de Pahvo, passamos a entender a fisiologia dos Kelpiens, raça a qual Saru pertence. Por causa do ambiente altamente hostil e predatório no qual viviam, esta raça, além dos já famosos gânglios de ameaça, desenvolveu seus sentidos ao máximo e consegue correr em velocidades de até 80 km/h para conseguir evitar e fugir de predadores.

Eventualmente, algumas aparições se manifestam e tentam se comunicar com Saru que, embora viva com um medo que lhe é imposto evolutivamente, recebe-os e tenta se comunicar com eles justamente por não observar ameaça.

Após sei lá quantos episódios, somos novamente transportados para o núcleo Klingon da história. Confesso estar meio confuso aqui. Eu achei que L’Rell (Mary Chieffo) tinha fugido com o Voq (Javid Iqbalpara prepará-lo para suceder T’Kuvma (Chris Obi), mas acabei descobrindo que ela é também a estupradora/torturadora do Tyler no 5º episódio da temporada. Como nos mostra o recap e sua cicatriz, é ela quem acaba tomando um tiro na cara quando Tyler e Lorca fogem. Isso realmente me confundiu, já que no episódio anterior ela estava fugindo com seu rabinho entre as pernas com o Voq. Assim, considerando que o Tyler estava preso há 6 meses, isso quer dizer que ela estava com ele em seu poder esse tempo todo, mas, conforme vimos no 4º episódio, ela se teleporta para perto de Voq e pretendia ir com ele para algum outro lugar em uma nave meio mambembe catada ali nos destroços. Ela não teria, portanto, uma nave tripulada com um prisioneiro de quem ela vinha abusando há meses. Esta questão toda ficou realmente muito confusa, também porque a maquiagem da atriz no 5º episódio estava sofrível e ela realmente não estava reconhecível.

L’Rell, após ter traído Voq de mentirinha no 4º episódio e se aliado a Kol (Kenneth Mitchell), fugiu desse último e agora, sei lá quanto tempo depois, reaparece jurando lealdade ao oferecer suas habilidades de interrogadora. Kol aceita perdoá-la se ela conseguir extrair alguma coisa da Almirante Cornwell, que parece estar resistindo bravamente às torturas de Kol. Ao falar com a Almirante, todo o ódio de L’Rell por Kol vem à tona. Ela quer desertar para o lado da Federação como forma de manter o sonho de unidade de T’Kuvma vivo, o que me parece ser uma afronta mortal ao que pregava o messias Klingon. É neste momento que ela diz que Voq foi destruído, mas não temos como saber exatamente o que L’Rell e, principalmente, os roteiristas estão planejando. 

Ela “escolta” a prisioneira para a sua nave de modo que ambas possam fugir dali. O plano de L’Rell é explodir a nave de Kol antes de fugir, mas ela é pega pelo próprio Kol, vendo-se, então, forçada a entrar na porrada com a Almirante. Ao final, parece que Cornwell está morta, mas eu particularmente acho difícil que este seja o caso. L’Rell a leva para uma espécie de depósito de cadáveres e lá encontra vários de seus companheiros em uma cena bem brutal e gráfica, com muito sangue e tripas, o que está se tornando característica dessa série e que é algo que não era explorado pelas anteriores.

Finalmente, ela volta a Kol e toma um esporraço por ter matado uma prisioneira tão importante. Então ela dá um piti de que “se você não vê meu valor então eu vou embora” e Kol a humilha fazendo com que ela jure lealdade a ele, somente para, depois, deixar claro que sabia das mentiras dela, mandando seus jagunços ensinarem a ela o que a sua casa faz com mentirosos. Acredito que vamos descobrir isso semana que vem.

Até o momento, este é, ao meu ver, o principal problema de Discovery. O núcleo Klingon, que poderia estar sendo explorado de uma forma tão mais profunda e esclarecedora, está sofrendo na mão de um roteiro confuso e preguiçoso no que se refere exclusivamente a ele. Feita a escolha de acompanhar um outro grupo de personagens que não a tripulação de uma nave da Frota Estelar como é a tradição de Star Trek, Discovery deveria se dar mais ao trabalho de desenvolver esse núcleo, ao invés de jogar cenas quase que gratuitas, como que para cumprir uma cota de cenas com Klingons.

Voltando à Pahvo, o grupo avançado, na melhor tradição Star Trek, debate sobre o que fazer agora que foi feito o primeiro contato com o que eles acreditam ser uma espécie inteligente que habita o planeta. Tyler, focado sempre na missão e na guerra, está mais interessado em cumprir a missão, o que significaria cagar para o consagrado protocolo de primeiro contato da Federação (para o qual Kirk cagava baldes também, mas em geral para comer alguém e não para ganhar uma guerra) e usar a tal estrutura mesmo sem a ciência e anuência da espécie nativa do planeta. O oficial mais graduado ali é Saru e Tyler acata sem maiores problemas a estratégia traçada de estabelecer comunicação com os pahvianos e pedir-lhes permissão para usar a tal estrutura de cristal.

Enquanto Saru tenta se comunicar com o planeta, Tyler e Michael aproveitam para ficar se pegando e falando sobre a vida. Tyler gosta de truta. Michael sabe que voltará a ser presa para sempre quando a guerra tiver acabado. Cada um com seus problemas, não é verdade?

Após o interlúdio romântico dos outros dois, Saru volta maravilhado. Ele entendeu que aquele planeta atingiu o nível mais absoluto de harmonia possível e que, desta forma, é possível viver sem medo. Ao dormir, ele é tomado por visões de guerra e acorda um novo ser que quer, a todo custo, permanecer naquele planeta e fazer com que seus companheiros façam o mesmo. Para esse fim, ele mostra toda a sua força bruta ao, com as mãos nuas, esmagar os comunicadores de Tyler e Michael, efetivamente prendendo-os naquele planeta, mas tudo de forma muito doce e gentil.

Os dois, entendendo que Saru está talvez possuído por Pahvo, discutem o que fazer. Michael quer seguir o protocolo e Tyler, mais uma vez, faz valer sua patente mais alta ao determinar que eles vão cumprir a missão e ponto final. O plano deles vê Tyler tentando manipular Saru para ganhar tempo enquanto Michael corre à tal estrutura para conseguir cumprir a missão. Saru acaba descobrindo o plano depois de um tempo, dá umas bolachas em Tyler e sai correndo na sua velocidade de Celta 1.0 atrás de Michael.

Este diálogo entre Saru e Tyler é também um dos pontos altos do episódio porque, além de contar com uma atuação fenomenal de Doug Jones – que, mesmo debaixo daquela maquiagem e da máscara, consegue imprimir muita emoção à Saru -, também desenvolve o personagem de Tyler. Ainda que ele estivesse conversando com Saru apenas para enrolá-lo, a gente tem a mais absoluta certeza de que ele está falando sério quando diz que não quer vencer os Klingons, ele quer que eles sofram por tudo que fizeram a ele.

Em mais outras belíssimas tomadas de Pahvo, Saru encontra Michael quase conseguindo completar sua missão e consegue detê-la. Os espectros pahvianos, contudo, aparecem e comem Saru no esporro. Afinal de contas, ele estava sendo o menos harmonioso possível. Já cientes da guerra e dos meios de comunicações da Federação ao terem “assimilado” Saru, Pahvo consegue entender o que quer Michael com a tal estrutura e acaba por permitir o envio do sinal por meio dela. A Discovery recebe, encontra-os e teleporta-os para a nave enquanto Saru permanece prostrado, arrependido de suas ações.

Na enfermaria, Doug Jones mais uma vez destrói em sua representação de Saru ao fazer aquele que é o monólogo que melhor sumariza o que é Star Trek e a ficção científica em geral. A tentativa de se responder o famoso “e se?”. E se Saru, considerando que evolutivamente é obrigado a viver a vida toda amedrontado, conseguisse vivê-la sem medo? As resposta é a de que ele levaria as coisas às ultimas consequências pra conseguir isso e somente com uma interpretação tão convincente quanto a de Doug Jones para que nós sejamos convencidos de que ele enxergou efetivamente o erro do que fez.

Pahvo, por sua vez, não entregou foi é porra nenhuma para a Federação. Em vez de conceder a maneira de se rastrear as naves Klingon, Pahvo mandou um sinal para eles, urgindo-os a aparecer por lá, como que, de boa fé, convidando aquela tua ex-mulher megera para um jantar no qual ele vai tentar resolver os problemas entre vocês, confiando que duas pessoas (ou entidades) que lutam entre si poderão ser razoáveis e amáveis o suficientes para uma reconciliação.

O episódio acaba assim, deixando um cliffhanger para o finale de meio de temporada da semana que vem, que provavelmente vai focar numa porradaria homérica entre Federação e Klingons e criar um cliffhanger ainda maior para quando a temporada for retomada no meio de janeiro.

Em um episódio que felizmente voltou a elevar o nível da série, quase que irremediavelmente baixado pela semana passada, este é uma homenagem à estrutura tradicional de Star Trek com seus grupos avançados e discussões ético-filosóficos, aliado a uma narrativa moderna e bem ajustada. Tivemos uma olhada em TODOS os núcleos e personagens principais e secundários, além da primeira batalha da Discovery e da primeira cena de Stamets enquanto fio condutor da dobra micelial, muito embora o núcleo Klingon continue a parecer confuso. Agora resta-nos esperar uma semana para o mid-season finale e depois dois meses até retomarem a série.

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