No clássico viajante sobre viagens, Na estrada, uma das frases do beat Jack Kerouac sempre martelou mais forte na minha cabeça: ““Nossas malas puídas estavam empilhadas na calçada de novo; nós tínhamos longos caminhos a seguir. Mas não importa, a estrada é vida”. A estrada é vida. Viajar é sempre reflexivo. E é óbvio que o cinema não deixaria de lado essa atividade humana chegando, inclusive, a dedicar-lhe um gênero para chamar de seu: os road movies, filmes que se passam na estrada durante viagens. É nessa categoria que se situa a bela coprodução Argentina/Brasil Sueño Florianópolis, da portenha Ana Katz.

No verão de 1990, Pedro (Gustavo Garzón) e Lucrécia (a maravilhosa Mercedes Morán) partem de carro, sem ar-condicionado, para passar férias, juntamente com seus dois filhos adolescentes, em Florianópolis, 1750 km distante da Buenos Aires deles. Vivendo uma separação da qual ainda não se sabe se definitiva, após 22 anos de casados, os dois psicanalistas conhecem o ex-casal brasileiro Marco (Marco Ricca) – que acabará lhes alugando a casa – e Larissa (Andréia Beltrão). Entre sonhos, amores e descobertas, cada uma das personagens sairá transformada daquelas férias.

O filme é de uma beleza e delicadeza tocantes. O cinema argentino contemporâneo construiu uma poética própria, reconhecível em cada uma de suas produções, apesar da rica diversidade trazida por cada um de seus realizadores. Essa poética, marcada principalmente por narrativas interiores, mesmo quando se abordam temas ou fatos “grandes”, ganha aqui a adição de uma vibração tensa e, ao mesmo tempo, colorida típica da cinematografia brasileira. O resultado é realmente bom.

Katz desempenha uma direção muito segura e marcante. Apoiada no excelente roteiro, assinado por ela e por seu irmão, Daniel Katz, a diretora estabelece uma produção que prima pela sensibilidade e pela introspecção. Se, por vezes, fica difícil perceber com exatidão a mão do diretor em uma produção, quando o resultado é totalmente orgânico e o filme mostra uma cara muito própria, ecoando em cada aspecto de sua feitura, fica impossível não enxergar a batuta de um maestro muito competente na frente da orquestra.

Tecnicamente, o filme se destaca principalmente pela belíssima e original fotografia de Gustavo Biazzi, que cria uma imagem quente, forte, com cores que raramente são trabalhadas com tanta originalidade. A direção de arte também faz um trabalho muito competente, levando-nos aos anos 90 sem soar forçado, deslize comum em filmes que tratam de um passado recente.

Sueño Florianópolis é, no entanto, primordialmente um filme de elenco. Do quarteto principal, cada um dos atores consegue imprimir performances bastante fortes. O pecadinho da produção está no pouco tempo de tela dado à Andreia Beltrão. Em uma só cena de maior destaque, por exemplo, ela consegue deixar na plateia um gosto de “quero mais” que só reafirma o status de uma das atrizes mais consistentes de sua geração. Gustavo Gárzon e Marco Ricca criam um interessante contraponto entre as figuras masculinas principais do longa, este encarnando um sedutor brasileiro com toques de fragilidade e aquele corporificando um cerebral analista argentino sendo obrigado a se reinventar pela via do corpo e da impetuosidade.

Só que a força-motriz deste sueño se encontra na genial Mercedes Morán. A argentina entrega uma atuação encorpadíssima, forte. Algumas atrizes possuem uma magia que me intriga muito. São aquelas que eu brinco dizendo que têm “cara de borracha”. Elas se transformam no que quiserem, conseguem ser feias, bonitas, ricas, pobres, estrangeiras ou locais. Sem ajuda externa. Mercedes Morán faz isso nesse filme. Sua Lucrécia passeia por uma gama de emoções que se personificam no corpo de uma atriz totalmente disponível para uma personagem, uma atriz jogada no abismo desse outro imponderável que é a Esfinge chamada personagem. Coisa linda de se ver.

Sueño Florianopólis é um filme de pura beleza e competência. E prova que, se deixarmos de lado a polêmica Pelé-Maradona, Brasil e Argentina podem formar uma dupla maravilhosa na sétima-arte.

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