Drag queens, popularizadas ainda mais pelo premiado reality show “RuPaul Drag’s Race”, formam, sem dúvida, o espectro mais colorido e alegre do arco-íris da comunidade LGBTQ+. Embarcando nessa onda, a Netflix acaba de lançar sua primeira animação totalmente brasileira, a divertidíssima Super Drags.

É obvio que, em tempos de guinadas ao conservadorismo e muita, muita vergonha alheia, o desenho não ficaria imune a polêmicas. Antes mesmo de sua estreia, a Netflix recebeu uma recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria pedindo seu cancelamento e uma nota de repúdio da Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional. As iniciativas geraram duas reações:

  1. Divando, o serviço de streaming respondeu com um lacônico e eficiente “a série não é para crianças, mas para maiores de 16 anos“;
  2. Este crítico foi levado a pensar: a) sério que existe uma Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família?!?; b) cara, existe propaganda melhor para qualquer coisa do que ser repudiado pela Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família? e c) mandei fazer uma camiseta com os dizeres “Não recomendado pela Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família”. Chega essa semana. Ansioso.

O plot da animação é bem simples e eficientemente estruturado. Patrick, Donizete e Ralph são 3 amigos gays que trabalham numa loja de departamentos. Convocados por Vedete Champagne (dublada genialmente pelo ícone das drags brasileiras, Silvetty Montilla), eles se transformam em Lemon Chifon, Scarlet Carmesim e Safira Cyan, as Super Drags, protetoras da comunidade LGBTQ+. Nessa temporada (e, please, que venham outras), elas lutarão contra a vilã Elza que, decadente, deseja ganhar poder e beleza sugando o highlight, o brilho vital que todo gay possui. Para tanto, ela mirará no ícone pop Goldiva (voz de ninguém menos que Pabllo Vittar que, segundo minha tia me contou no grupo da família, possui um plano de dominação mundial apoiado pelos iluminatti).

O único senão da produção se encontra na construção do roteiro de alguns episódios. Embora muito divertidos, por vezes opta por simplificações um pouco facilitadoras que, caso fossem melhor exploradas, tornariam os episódios mais robustos. No entanto, é realmente difícil escapar à leveza inerente do formato de 5 episódios de 20 e poucos minutos.

Fora isso, Super Drags é uma coleção de acertos. A começar pelo trio protagonista. A personalidade de cada uma reflete, de certa maneira, aspectos e clichês acerca dos gays que levam com humor, a uma reflexão sobre questões importantes. Assim, Patrick/Lemon é a maternal, protetora, Donizete/Scarlet – a mais engraçada das três- é a barraqueira que parte pra mão e Ralph/Safira é a jovem, ingênua e fã de animes e games. Funciona muito bem.

Outra bola dentro ou, usando o pajubá, o dialeto das travestis famoso na polêmica pós-Enem, outra aquendada forte é como a série bebe com maestria na fonte da cultura pop. Claramente inspiradas, tanto na ação quanto no visual, nas “Meninas Superpoderosas”, Super Drags constrói um intertexto delicioso com outros ícones. A transformação dos meninos em drags remete diretamente à “Sailor Moon”, a relação delas com Vedete Champagne brinca com “As Panteras e Três Espiãs Demais” e o último episódio estabelece uma homenagem bem engraçada aos “Power Rangers”. Além disso, embora consiga divertir públicos de qualquer orientação sexual, a animação não abre mão de recorrer à piadas, jargão e referências que causarão gargalhadas nos membros da cena gay.

Corajosa, a produção também não foge à discussão de assuntos espinhosos e fortes, ainda que sempre pela via do humor. Ela cumpre bem o mote “ridendo castigat mores” (pelo riso corrigem-se os costumes). Preconceito, homofobia, não-aceitação pela família, cura gay, bancada evangélica, todos esses temas desfilam pelos episódios. E mais, Super Drags também enfia o dedo em feridas internas da comunidade LGBTQ+ e toca em assuntos como a obsessão por padrões de beleza, gordofobia, homofobia internalizada na aversão aos gays afeminados, desunião interna entre os representantes das letras da sigla, lesbofobia e outros pontos.

Pela repercussão na imprensa provavelmente Super Drags deverá e merece ganhar uma segunda temporada. Com ela, a Netflix jogou o picumã e lacrou com estilo, diversão e muito highlight.

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