Eu morei no Texas em um condomínio que margeava um vale com uma tranquila floresta de carvalhos e juníperos. Eu gostava de almoçar na varanda de onde podia ver o sol descendo lentamente por trás do bosque. Uma tarde ouvi um barulho no mato e, para minha surpresa, encontrei a mãe do Bambi deitadinha à sombra da varanda. Toda tarde ela vinha descansar um pouco, acompanhada de dois guarda-costas, dois machos jovens que contornavam meu prédio, um pelo lado direito, outro pelo esquerdo, e verificavam se estava tudo seguro na rua. Se estivesse tudo tranquilo eles batiam com o casco no chão e a mãe do Bambi – que estava grávida e eu apelidei de Bambina – se deitava por alguns minutos pertinho de onde eu almoçava. Os dois sentinelas ficavam de pé, olhando atentamente para a rua. O perigo real vinha do concreto, não da floresta, e eles sabiam disso.

Uma tarde de outono, daquelas com feixes de sol dourado rasgando as nuvens e atravessando a leve neblina que subia pelo bosque, vi os dois sentinelas se aproximando apressadamente. Um correu pra minha esquerda, olhou a rua atentamente e bateu com a pata dianteira no chão duas vezes, o outro fez o mesmo, mas pela minha direita, e lentamente aproximaram-se a Bambina e mais algumas fêmeas. Ao redor delas andavam desajeitadamente um pequeno grupo de filhotinhos, empurrados pelos focinhos das mães. Como se caminhasse de dentro de um conto de fadas, irrompeu das brumas o Gamo-Rei, com sua enorme galhada e olhar altivo, seguido por mais alguns membros de sua corte. Ele parou a uma distância do meu prédio, olhou atentamente para o vale, e pôs-se a contornar o condomínio. O sentinela da esquerda bateu com a pata no chão e moveu-se na direção dele, acompanhado do outro logo em seguida. Aquela foi uma das imagens mais bonitas que eu já vi na minha vida e ainda hoje meu único desejo é que aqueles prédios não estivessem ali impedindo que aquela criatura magnífica atravessasse o seu bosque.

Lançado no fim de semana pela Netflix, Sweet Tooth parece ter pego esse meu sentimento e transformado em um conto de fadas moderno. Adaptada do quadrinho homônimo escrito por Jeff Lemire e publicada pela editora Vertigo, a série conta a história de Gus (Christian Convery), apelidado de Sweet Tooth (que o google traduz como “Guloso” mas na verdade descreve alguém que tem grande apetite para doces), um menino hibrido – meio humano, meio gamo – nascido durante uma epidemia de um vírus letal, que não apenas dizimou quase toda a humanidade, mas fez com que todas as crianças nascidas a partir daí viessem com características animais. É claro que a humanidade precisava fazer o que faz de melhor – merda – e apontou o dedo para as pobres das crianças, culpando-as por seu infortúnio.

Enquanto o mundo ruía, o pai de Gus, que conhecemos apenas como Pubba (Will Forte numa linda atuação que mistura, em iguais proporções, doçura e tristeza) decide colocar a casa numa mochila e se embrenhar no parque de Yellowstone com seu filho recém-nascido, refugiando-se por anos da humanidade doente lá fora. Pubba tenta com todas as forças criar um mundo feliz para seu menino-gamo mas, é claro, apesar de todos os seus esforços, a humanidade sempre aparece pra atrapalhar tudo. Gus é forçado a deixar seu pequeno paraíso e enfrentar um mundo pós-apocalíptico onde crianças como ele são caçadas por um grupo chamado “Os Últimos Homens”, uma milícia liderada pelo General Abbot, o vilãozão da história.

No caminho, Gus encontra um grupo de amigos que não apenas o ajudarão em sua perigosa jornada, mas cimentarão a sensação de conto de fadas presente em toda a temporada. Tommy Jepperd (Nonso Anozie) é um enorme ex-jogador de futebol americano com muitas cicatrizes no corpo e na alma, tentando sobreviver num mundo violento. Ele é o típico anti-herói brucutu com um coração maior do que gostaria de admitir e ao longo da temporada virá a ser o guardião do guri. Bear (Stefania LaVie Owen) é a líder do “Exército de Animais”, uma tropa extremamente bem treinada, formada apenas por adolescentes, uma espécie de Garotos Perdidos que juraram proteger os híbridos a qualquer custo. Como acontece na vida real, apesar de ter apenas uns 15 anos, a personagem demonstra mais maturidade e inteligência que a maioria dos adultos. É ela que nos traz algum entendimento do que está acontecendo no mundo e é nosso contato com a realidade. Em paralelo o Dr. Singh (Adeel Akhtar), marido da única pessoa que conseguiu sobreviver com a doença, terá de encarar seus próprios fantasmas e avaliar seus próprios valores para manter a si e à sua esposa vivos.

A série, que é produzida por ninguém menos que Robert Downey Jr., é um primor técnico. A fotografia é a todo o tempo desbundantemente linda, a trilha sonora é tão do caralho quanto a de “Guardiões da Galaxia”, com o que parece ser uma mixtape de hits pop, os diálogos são escritos com um cuidado raro e o casting é um dos mais acertados que eu já vi. Cada ator traz pra cada um dos personagens uma identidade única apenas com olhares, posturas, maneirismos, de uma maneira que a gente esquece que tá vendo tv.

Um amigo comentou comigo que gostou da série porque ela é leve. Discordo. Os temas descritos são pesados e profundos, quase sempre muito tristes, em especial pra um mundo que ainda vive os males de uma pandemia, mas são apresentados com uma maturidade e uma delicadeza que há muito tempo não vejo. Comparada com a maioria dos títulos que assisti nos últimos anos, a sensação que me fica é que Sweet Tooth é produzida por gente emocionalmente adulta, enquanto que todo o resto é feita por adolescentes imaturos competindo pra ver quem consegue chocar mais o espectador. Aqui não há esse afã em nenhum momento. Os temas da série – morte, tristeza, solidão, arrependimento, esperança, amizade, e em especial a feiura e a beleza humana – nos são entregues com honestidade e respeito, o que nos permite sentir o que precisamos sentir, intimamente, não na tela, não em imagens chocantes, e nos emocionam (ou ao menos me emocionaram) de uma forma que pouquíssimas produções conseguiram em um bom tempo. Doí quando precisava doer, ri quando precisava rir, e desliguei a TV sentindo algo melhor do que sentia quando apertei o play. Não há muito mais elogios que eu possa fazer. Apenas assista. Não é nem mesmo uma sugestão, mas um conselho.

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