Um moleque de 16 anos aprendendo a usar seus poderes recém-descobertos, efeitos espetaculares em lutas escalafobéticas, mulheres com peitos enormes, personagens com só uma dimensão e um velho tarado. Esses são alguns dos elementos que estão em boa parte dos animes por aí e Sword Gai: The Animation consegue a proeza de juntar praticamente todos os estereótipos dessa mídia naquela que é certamente a série mais derivativa que eu já vi em toda a minha vida.

Felizmente, ele se apoia nos clichês e lugares-comum do gênero para estruturar um anime divertido, ainda que absolutamente lotado de equívocos e decisões que não fazem o menor sentido enquanto uma história que se propõe ser contada em 12 episódios de 22 minutos.

“Poxa, por que eu sou a única que não tem peitão?”

A trama é mais do mesmo, mas desta vez, ao invés de armaduras cósmicas, shaktis ou seja lá o caralho que for, temos armas amaldiçoadas por demônios.  Neste mundo, as armas (em geral brancas como espadas e lâminas) que beberam muito do sangue de seus inimigos acabam possuídas por algum demônio ou entidade maléfica. A partir daí, qualquer pessoa que as usar será possuído pela arma. Alguns conseguem controlar esse poder e se tornam “Crisálides” de acordo com a tradução brasileira, mas que fica mais reconhecível como casulo, ou pupa. Isso faz algum sentido quando se descobre que deste casulo sempre emergirá um busoma, palavra em japonês que eu não faço ideia do que seja, mas que no contexto da série quer dizer que o hospedeiro da arma será totalmente tomado por ela e aquele corpo agora SERÁ a arma, o que é uma inevitabilidade, mas que consegue ser retardada.

Gai, que é um rapaz chamado Gai e não uma espada homossexual, nasceu após sua mãe, que ainda o carregava no ventre, matar seu pai enquanto possuída por Shiryu, uma espada identificada com um dragão, na primeira referência a Cavaleiros do Zodíaco do anime. Logo em seguida, sua mãe dá a luz a Gai no meio de uma floresta e se mata. Gai é encontrado por um ferreiro agarrado à tal espada, com a qual formará um laço inquebrantável e eterno.

Não é um saiyajin usando o poder do Kuririn

Além de Gai, o mundo é cheio de outros Crisálides (ou casulos), devidamente catalogados e controlados por uma mega-agência-governamental-secreta chamada Shoshidai, que retarda o processo de desabrochar em busoma com uma espécie de criogenia ao mesmo tempo que aproveita seus poderes para combater outros busomas. E aqui temos novamente toda sorte de clichês. É gente com espada com poder do trovão, espada das trevas, espada de fogo, espada de gelo… enfim, tudo que faz um bom amante de RPG arregalar os olhos.

E é justamente nesse clichezão que a série encontra o seu forte. Ao apresentar essa mitologia, ela faz com que queiramos saber mais sobre como as armas chegaram àquele ponto, qual é a diferença de poder entre elas e quais são as suas origens. Há até algumas histórias contadas por determinados personagens sobre as lendas que explicam o poder das armas que, além de belamente animadas em um estilo mais minimalista, matam não só a curiosidade, mas aprofundam nesse lore realmente fascinante, na talvez única instância de todo o anime da qual o espectador consegue extrair algum grau de satisfação.

Isto porque, infelizmente, o mesmo não ocorre com os personagens e isso é culpa do roteiro por mais de uma razão. A primeira delas é porque absolutamente todos os personagens são retos, uni-dimensionais e maniqueístas. E, em segundo lugar, por causa da realmente inacreditável escolha do roteiro de passar 12 episódios apresentando pelo menos um personagem novo em cada um deles, de modo que, ainda que os personagens não fossem essa coisa simplória que são, eles sequer têm tempo de ser desenvolvidos.

Para se ter uma ideia, em um determinado episódio, os dois protagonistas, Gai e Seyia (o segundo salve a Cavaleiros do Zodíaco), sequer aparecem. Em vez disso, temos a apresentação de mais três personagens – uma gorda escrota, um cabeleireiro vingativo e uma gostosa inacreditável – que simplesmente não aparecem mais dali pra frente. É sério. Eles aparecem, a gente descobre a arma que cada um carrega e seus poderes e pronto. Acabou. É um episódio inteiro que não precisava existir dentro do contexto dessa temporada, mas que talvez tenha sido inserido ali só para preparar terrenos para uma eventual segunda temporada, em uma decisão que realmente não faz o menor sentido.

Gai Shiryu e Ichijo Seiya

Esta lógica permeia quase toda a série, com apenas os dois últimos episódios focando um pouco mais nos protagonistas e, ainda assim, a temporada acaba do mais absoluto nada. Não há clímax, não há um cliffhanger, não há porra nenhuma. A sensação que se fica é que estamos diante de uma temporada cortada não pela metade, mas por seu terço. Todos os 12 episódios poderiam ser condensados em 3 ou 4 e equivaleriam ao primeiro ato de uma obra, restando ainda um meio e um fim.

A animação vai na mesma linha do roteiro. Normalmente ela vai muito bem, valendo-se de um estilo tradicional e consagrado, lembrando até animes da década de 80. Mas, além de abusar de cores exageradas em alguns momentos, foi tomada uma decisão de se usar o famigerado 3D nas ocasiões em que os busomas se cobrem de armadura. Não só fica uma coisa anacrônica e fora de lugar ali no meio das bonitas animações em 3D, como os próprios modelos parecem mal-feitos, mal-renderizados e até mesmo mal-desenhados.

Essa é das espadas mais críveis da série.

A Espada Baitola, tradução brilhante de Larissa Moreno (nossa rainha do MetaFictions) em um comentário aqui na redação, é um anime que, apesar de derivativo, consegue divertir com sua competente animação, com a mitologia apresentada e na direção nas lutas (que poderiam ser bem mais apelativas na violência, mas não o são, ficando aqui nesse quesito no ponto certo), porém peca DEMAIS pela quantidade absurda de personagens apresentados sem qualquer desenvolvimento, inclusive seus protagonistas, deixando aquela sensação nítida de que poderia ter sido muito melhor. E talvez até venha a sê-lo caso lancem rapidamente uma 2ª temporada que desenvolva melhor tudo aquilo e amarre as inúmeras e inescusáveis pontas soltas do roteiro.

De todo modo, no âmbito de uma estrutura narrativa de 1ª temporada em que, como com qualquer obra, um arco precisa ser fechado de uma forma ou de outra, Sword Gai: The Animation fracassa miseravelmente, ficando ali pelo meio do caminho somente por conseguir ser divertido em seus clichês.

ATUALIZAÇÃO: Confira aqui a crítica da 2ª Parte de Sword Gai: The Animation

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