Juliana acaba de se mudar de Itaúna, no interior de Minas Gerais, para Contagem, uma cidade maior. Aprovada em um concurso público, ela vai trabalhar no Controle de Endemias. Na nova cidade, ela faz amigos, retoma o controle da sua própria história e se vê obrigada, enquanto espera a vinda do marido para a nova casa, a encarar a realidade de um casamento que talvez já não exista depois de uma tragédia familiar. A personagem magnificamente encarnada por Grace Passô, em Temporada, de André Novais Oliveira, se chama Juliana, mas poderia facilmente chamar-se Maria, pois, como no clássico do mineiro Milton Nascimento, ela é “ o som, é a cor, é o suor, é a dose mais forte e lenta de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta”.

Esse é, aliás, o maior trunfo do longa. Durante toda a exibição, ele expõe, delicada e respeitosamente, a trajetória de uma vida “comum” e, por isso, cria uma empatia imediata com o espectador. Longe do cinema dos grandes atos, das cenas épicas, tanto o roteiro, quanto a direção, ambos assinados pelo mesmo realizador, apostam na sutileza das construções afetivas e no percurso emocional de uma mulher tomando posse da própria voz e da própria vida.

Essa escolha se potencializa totalmente no muito bem realizado casting. Todo o elenco passa uma sensação boa de naturalidade, de estar vivendo o que milhares de pessoas nas periferias do Brasil passam todos os dias. O interessante é que, em nenhum momento, – e isso soma pontos ao trabalho do diretor/roteirista – tem-se a sensação, da qual muitos filmes padecem, que é o mostrar com um tratamento exótico, pitoresco, como vivem as parcelas mais pobres da população para que a classe média nas salas dos cinemas se sinta espionando com segurança como vivem “os outros”. Não. Em Temporada são vidas sendo vividas. Só.

A acertada escolha do elenco se solidifica na poderosa performance de Grace Passô. A atriz é simplesmente um achado. Cada cena, cada inflexão de voz, cada olhar seu estão totalmente entregues à Juliana. O longa, mais que cinema narrativo (embora a narrativa esteja bem construída no roteiro) executa um belo estudo de personagem, totalmente erigido no sólido trabalho de sua protagonista. Bravo, senhores!

A produção também dialoga com a cinematografia brasileira contemporânea ao discutir de forma bem reflexiva a relação das cidades e dos mundos interiores de seus habitantes. Esse tem sido um leitmotiv bastante recorrente no nosso cinema e fala muito sobre a visão que temos o próprio país. É como se o crescimento descontrolado, não-planejado e feroz das nossas cidades refletisse e influenciasse a maneira como nos enxergamos e nos posicionamos na vida e no mundo.

A boa fotografia de Wilssa Esser descortina a bem cuidada direção de arte. Chama a atenção também o bom trabalho de som do longa. Aliás, nos aspectos mais técnicos, Temporada só se mostra um pouco problemático na montagem que, em alguns momentos, quebra o ritmo da história.

Mas mesmo esse escorregão no ritmo não é capaz de tirar a força do longa e a imensa identificação que passamos a ter com Juliana e sua vida. E, quando ela sorri, somos lembrados que “é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho, sempre”. Porque Julianas e Marias, marcadas e fortes, possuem “a estranha mania de ter fé na vida”.

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