A NETLFIX adquiriu os direitos de distribuição internacional de The Alienist, minissérie produzida pela TNT e exibida nos EUA no início de 2018. Com um elenco de peso, uma história intrigante e bem contada, a série é um dos maiores sucessos da TNT na década, equiparando-se às produções da muito mais reconhecida concorrente HBO. Apenas para se ter uma noção do que esperar, a série tem sua trama se passando no final do século XIX, no auge do Capitalismo Industrial, em Nova Iorque. Caso você ainda não tenha se ligado, é exatamente nesse período que a ciência moderna começa a dar as caras no mundo, alterando fundamentalmente como o entendemos e interagimos.

Resumidamente, The Alienist é uma mistura de “Mindhunter” (com duas críticas no site! Aqui e aqui) com uma adaptação de Jack, o estripador, para o novo mundo. Em uma feliz coincidência, estou nesse exato momento relendo a obra-prima que é “Do Inferno”, de Alan Moore, graphic novel que trata sobre nosso esquartejador favorito depois da Elize Matsunaga. Há aqui uma nítida inspiração em fazer quase uma releitura, inserindo o engatinhar da ciência, desse serial killer britânico. Mas em vez de matar mulheres prostitutas, nosso assassino mata meninos prostitutos de forma bem peculiar e macabra. Cabe ao supergrupo formado por um comissário da polícia, sua secretária, um ilustrador do New York Times, dois judeus médicos forenses e um psicólogo, aqui conhecido como alienista – pessoa que estuda a mente daqueles não considerados lúcidos, daí o nome da série – descobrir quem comete tais atos hediondos.

A série cria uma atmosfera suja e decadente, muito bem projetada nos subúrbios nova-iorquinos e na sua população majoritariamente imigrante e pobre que sofre com a exploração do trabalho e o advento das máquinas. Essa transição do mundo das superstições para o moderno é excepcionalmente bem retratada nos personagens condutores da história. Os irmãos Isaacson (Douglas Smith e Matthew Shear) mostram o engatinhar da medicina forense, com o início do uso de impressões digitais e a análise das marcas deixadas nos corpos perpetrados por mentes perturbadas, fazendo as avaliações psicológicas – outra ciência ainda na fralda – do Dr. Laszlo Kreizler (Daniel Brühl) fundamentais para entender a mente do criminoso que eles buscam prender.

Diversos diálogos incitam a rivalidade deus versus ciência, em especial as relacionadas aos prazeres da carne. Muito dos casos discutidos envolvem a homossexualidade (ainda tratada como homossexualismo) e os motivos relacionados à sua prática, levantando questões sobre a natureza humana e os meandros da mente. É aqui que a série encontra seu ápice, na discussão das nossas experiências e do ambiente que nos cerca em nosso comportamento. Todos aqueles que apresentam comportamento fora do padrão – como ainda a psicologia não havia florescido o suficiente para diagnosticar todas as enfermidades mentais que conhecemos hoje – eram taxados de alienados e colocados à margem da sociedade.

Não só as mazelas que afetam nosso comportamento são discutidas, aquelas que afetam a sociedade, como o machismo, tem destaque na obra. Também nessa época as mulheres marcavam presença através do protesto para ter direito ao voto e ocupar cargos importantes na sociedade. Sara Howard (Dakota Fanning), a secretária do comissário da polícia, desempenha aqui o papel da resistência feminina perante tal opressão e que ocupa posição central, e muitas vezes forçada, na trama.

Mas, apesar de uma premissa, aspectos da ciência e sociedade interessantes, The Alienist não possui muitos personagens cativantes. Todos, com a exceção de John Moore (Luke Evans), parecem professores que estão ali para te ensinar uma lição. Eles não parecem pessoas que existem em um mundo real, falando como se estivessem em algum Ted Talk. Apenas o núcleo da polícia, obviamente corrupto, é crível e dá prazer em acompanhar. 

The Alienist é um mistério sobre assassinato em série e conspiração pura e nata, com uma história bem trabalhada, mas conduzida por personagens não muito interessantes. Cumpre o papel de entreter? Certamente, meu caro Watson. Não… pera… obra errada.

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