“Não se move, não respira, nossa própria Deusa, Gloriosa Gloriana. Esqueça Elizabeth Windsor. Agora é apenas Elizabeth Regina”.

Foram essas as palavras com as quais fomos deixados na season finale da primeira temporada de The Crown. Ditas enquanto um retrato era feito, elas enfatizavam o isolamento ao qual a rainha estava irremediavelmente presa. Nela, duas mulheres se digladiavam: Elizabeth Mountbatten-Windsor, esposa, mãe, humana e Elizabeth II, rainha, chefe da Igreja Anglicana, soberana, divina. Mas, como sua avó havia lhe advertido, no embate entre as duas, “a Coroa deve prevalecer”.

A segunda temporada da mais bem produzida série da atualidade vai focar justamente na briga entre essas duas Elizabeths e na solidão que ela acarreta. E, o que já era impecável, atinge níveis sublimes de qualidade. God save the Netflix! Depois de ser mantido em cárcere nobiliárquico, a mando do Metafictions, em  um regime de fish and chips e dez horas ininterruptas com os royals, fui sagrado cavaleiro de Sua Majestade e agora atendo por Sir Marco, duque de Streaming e defensor perpétuo da Merylnarquia (Nota do Editor: . E, queridos súditos, cada episódio valeu muito a pena.

Cobrindo o período de 1956 a 1961, a temporada mergulha na vida pessoal da rainha, mas aprofunda (e muito!) o escopo dos outros personagens – o que é um exercício de metalinguagem interessante já que, por personagens, leia-se a Família Real inglesa.

Tudo começa com a profunda crise conjugal que abala o casal real. O príncipe Philip não consegue se ajustar ao seu papel dentro da dinâmica de uma família na qual a sua esposa é a Chefe, o centro e até mesmo seu filho de oito anos está acima dele, pois é, afinal, o futuro rei. Como o divórcio não é possibilidade neste caso, a dupla embarca em um período pesado, de indiferença e desgaste, com a presença constante da imprensa e dos protocolos superdimensionando o que já é doloroso. O texto perfeito da série se transforma, então, na plataforma para explorar as várias camadas da personalidade e da vida pesada do consorte da soberana e permitir que Matt Smith exiba uma das melhores interpretações do ano no papel.

A importância política da rainha e seus conflitos de representante máxima de uma instituição praticamente extinta no mundo moderno também são explorados com maestria na série. Mais confortável em seu reinado, Elizabeth se vê obrigada a repensar os rumos da Monarquia em tempos diferentes. Lançada a uma meia-idade precoce, sofrendo ataques na imprensa e o julgamento de todos o tempo todo, ela é obrigada a tomar decisões que mostrem quem é que manda e experimentar o que seu conterrâneo mais famoso quis dizer quando, em peça sobre um tio dela, Henrique IV, escreveu que “desconfortável repousa a cabeça que porta a Coroa”.

É preciso falar, então, do maior trunfo de The Crown até agora: o magnifico trabalho de Claire Foy. Que atriz! Sua Elizabeth II é uma das melhores construções cênicas vistas no audiovisual. Densa, multifacetada, conflituosa, escapando do risco maior que é interpretar pessoas reais, reduzir o trabalho a uma coleção de maneirismos que o público reconhece no retratado. Cada cena dela é uma master class, cada diálogo, cada gesto, o olhar (!)…ela é aquela mulher. O embate com o primeiro-ministro no último episódio já nasce antológico. O badaladíssimo episódio da visita do casal Kennedy (Michael C. Hall e a brilhante Jackie de Jodi Balfour) exibe uma das melhores meia hora finais da história das séries. Dá um aperto no coração lembrar que esta foi a ultima temporada com ela no papel.

A 1ª leva de episódios fez da Princesa Margaret, de Vanessa Kirby, a queridinha de todo mundo. Nesta temporada, a irmã vida louca de Lilibeth ganha um merecido destaque maior. Também foi muito bem pensada a preparação para a entrada do Príncipe Charles (Billy Jenkins) com maior força na trama e sua relação conflituosa com os pais.

No entanto, algumas coisas não mudaram na série. A altíssima qualidade de todos os aspectos da produção, a impecabilidade do texto e a direção inspirada de todos os episódios. The Crown é, com trocadilhos, a joia da Coroa da Netflix.

Para terminar, um jogo inspirado em uma cena da Princesa Margaret. Ao pedir informações a uma amiga sobre aquele que se tornaria seu futuro marido, ela pede que ela fale cinco coisas indispensáveis sobre ele. Me desafio a definir cada episódio em cinco palavras:

  1. Desventura: Nem a rainha está imune.
  2. Uma companhia masculina: Marilia Gabriela do mal machuca.
  3. Lisboa: Divórcio dos outros respinga real.
  4. Beryl: Bodas de estanho, irmã golpeada.
  5. Marionetes: Quem fala o que quer…
  6. Vergagenheit: Nazistas não passarão, nem abdicando.
  7. Matrimonium: Só penso em você, sqn.
  8. Cara Senhora Kennedy: Jackie Kennedy. Jackie Kennedy. Jackie.
  9. Paterfamilias: Tal pai, não tal filho.
  10. Homem misterioso: Elizabeth rainha, resto é nadinha.

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