“Só existe uma rainha”. A frase dita pela Princesa Margaret no último episódio da terceira temporada de The Crown soa como uma meia-verdade. Porque se Elizabeth II continua seu longo reinado em terras inglesas, no reino da Netflix a coroa mudou de cabeça. Cobrindo os acontecimentos de 1964 ao Jubileu de Prata de 1977, Olívia Colman passa a dar vida à monarca. E que rainha, senhores. Tendo o desafio de entrar no lugar da maravilhosa Claire Foy, a oscarizada atriz fez bonito.

Peter Morgan, criador da série, manda muito bem quando fala dos royals. Seguindo-se a duas temporadas impecáveis, a nova safra de episódios vinha cercada de frisson, ainda mais com o elenco totalmente renovado e acontecimentos e personalidades muito mais próximas da memória de geral. E a qualidade continuou lá no alto. God save the streaming!

No entanto, dois escorregõezinhos apareceram no caminho. Ok, não foram oh que escorregadas. Foram um ah (dito in a very British way). O primeiro deles tem a ver com a estrutura escolhida para os episódios. Cada um deles se focou em um acontecimento específico, dando uma sensação de “caso do dia” que tirou um pouquinho a sensação de uma narrativa na qual a interligação entre capítulos é crucial para o desenvolvimento da história. Por vezes, a impressão deixada era a de que cada um deles poderia ser visto em qualquer ordem. Não estragou o todo, mas também não melhorou.

O segundo ah era mais ou menos esperado e preconizado em um diálogo no episódio dois já. O Príncipe Philip (Tobias Menzies) diz à rainha que os Windsor se dividem em dois grupos: os maçantes – aqueles que cumprem as regras, fazem as coisas andarem, mas são tão discretos que entediam – e os deslumbrantes – os despirocados, exuberantes, escandalosos, mas terrivelmente charmosos. É uma verdade universalmente conhecida que a Rainha Elizabeth não faz parte do segundo grupo. Logo, a narrativa se ressentiu de toda a fleuma monárquica e resolveu jogar os holofotes em outros personagens. O problema é que a série se chama A Coroa e não A Família. Soou estranho que pelo menos dois dos melhores episódios da leva (incluindo O melhor) relegassem a protagonista a um papel coadjuvante.

Mas The Crown ainda reluz poderosa e a gente vai falar bem mesmo, porque como diriam os nobres cavaleiros da Companhia do Pagode: “tudo que é bonito é pra se mostrar”. E, oh my, essa série mostra.

Nos aspectos da qualidade da produção, o nível continua altíssimo. Texto impecável, fotografia afiada, figurinos, produção de arte e cenários deslumbrantes, música certeira. Um perfeito Commonwealth de talento, requinte, perfeccionismo e outras coisas que um alto orçamento podem comprar. A….mazing.

No elenco, porém, repousava o frio na espinha de todos. Afinal, o ensemble das temporadas anteriores era irretocável e carismático. E, leitor Metafictions, o novo elenco deu mais do que conta das expectativas. Excede Expectativas, Sr. Dumbledore! (oops, ingleses errados).

Olivia Colman é uma das atrizes mais completas de nossos tempos. E quem acompanha sua carreira já sabia disso antes mesmo dela jogar água nos sonhos oscarizáveis da Glenn Close. Sua Elizabeth II amadurece a trilha aberta por Foy ao acrescentar nela as camadas de indagações e sapos engolidos em uma monarca que começa envelhecer e olha para o seu reinado em um país em crise e como chefe de uma família que não é das mais funcionais. O peso do dever já não causa a dúvida da juventude. Ele passa a ser imperioso. E, muito pelo contrário, isso não o torna mais leve.

Mas o que é uma rainha sem sua corte? Minha gente, roubar a cena quando Mrs. Colman está no set não é tarefa pra plebeu, não. E três “novos” membros da família o fizeram. Como a Princesa Margaret, Helena Bonham Carter arrasou em cada segundo de tela. O episódio centrado nela (episódio 2) foi simplesmente um palco entregue a uma atriz com uma única instrução: “vai e arrasa”. Sua Margaret é agora uma mulher amargurada por um casamento infeliz e pelos impedimentos que sua posição traz. Mas, ao mesmo tempo, seus olhos buscam o antigo brilho da rebeldia tão lindamente moldada por Vanessa Kirby nas temporadas anteriores. Rebeldia essa que chega agora na surpresa da newcomer Erin Doherty, que faz uma Princesa Anne livre, debochada e dona de uma personalidade muito mais descolada por saber que jamais colocará uma coroa na cabeça.

Mas o grande destaque da temporada é aquele que encarnou o próximo traseiro a sentar no trono inglês. Na pele do jovem Charles, Josh O’Connor é o dono da performance mais pungente da season. Coisa linda de se ver. Dá pena e prazer estético ver a força daquele trabalho e a dor que ele passa. Futuro rei, jovem, sentindo-se negligenciado na família e por uma mãe que não é a mais afetuosa do mundo, o Príncipe de Gales é um Hamlet angustiado buscando seu lugar no mundo. Sem dúvida, o episódio centrado nele é o melhor da temporada. Pra coroar este arco, somos apresentados à uma história de amor e sofrimento que acompanhamos de forma bem íntima, com direito (na vida real) até a menções a absorventes internos. O amor do jovem príncipe por uma certa Camilla Shand (Emerald Fennell), que depois passamos a chamar Camilla Parker-Bowles, depois A Amante e, hoje, Duquesa da Cornualha, esposa do futuro monarca. E pensar que na próxima temporada seremos apresentados a uma certa Lady Diana Spencer. Tobias Menzies como o Duque de Edimburgo e Charles Dance como Lord Mountbatten também mandam ver benzão.

The Crown é uma das melhores coisas já produzidas. Fato. Vida longa à rainha e à Netflix. Confesso que já conto os dias para a quarta temporada. Porque esses dez episódios (nove, ok, o episódio sobre os astronautas que pousaram na lua e a paixão do príncipe Philip por eles foi meio chato) ainda não deram pra saciar a nossa fome por royal cookies. Gimme more.

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