Os anos 80 foram ridículos. Eu estava lá e pude testemunhar. A cultura popular, os hábitos da sociedade, arte, música e tudo o que deveria representar o ser humano atingiram um nível de excesso… Eu queria dizer jamais vistos, mas tivemos o Império Romano, os Bórgia no Renascimento, Henrique VIII, os Luíses na França do século XVIII… A verdade é que parece que o ser humano tem uma atração natural por sua própria imbecilidade e toda vez que a sociedade (ou parte dela) alcança algum nível de prosperidade, ela rapidamente vira opulência e em seguida decadência. Na década de 80, a prosperidade econômica americana e o estilo de vida Rock N’Roll dos ricos e famosos, com suas tretas e escândalos alimentando a mídia, produziram uma penca de fenômenos curiosos de cultura de massa.

Em meio ao laquê e roupas fluorescentes “futuristas”, surge o movimento Hair Metal ou Glam Rock, que atrelava cabeleiras esvoaçantes, maquiagens e roupas femininas usadas por músicos que tocavam rock pesado e atraíam multidões de garotas histéricas para os estádios. Bandas como Bon Jovi, Poison, Winger, Rat, Skid Row e o famosíssimo Guns n’ Roses se tornaram o símbolo máximo do estilo de vida americano. o objeto de desejo de todas as boas meninas atrás de um camarada com roupa de couro que as comesse.

Colson Baker, Douglas Booth, Daniel Webber, and Iwan Rheon in The Dirt (2019)

Antes de todos os supracitados, mas não tão conhecidos aqui nas nossas terras brazucas, o Mötley Crüe ficou famoso por ter sido não apenas o precursor do movimento, mas seu exemplo extremo. The Dirt: Confissões do Mötley Crüe é a cinebiografia da banda e conta de maneira divertida o surgimento, os altos e baixos, o fim e o renascimento da banda, até seu último show. O primeiro ponto positivo (ao menos para quem vivenciou a época e conhece a banda) é que os produtores não tentaram fazer um filme “para a família assistir unida”. Ele é indicado para maiores de 18 anos e por uma boa razão: há uma quantidade enorme de drogas, álcool, palavrões, gente nua, sexo e estupidez em praticamente todas as cenas do filme. E os fãs de rock saberão que, em se tratando de Mötley Crüe, a vida era única e exclusivamente sexo, drogas e rock n’ roll (mais sexo e drogas, do que rock n’ roll, pra ser honesto). Todas as lendas lendárias estão lá, de Ozzy Osbourne cheirando formiga e bebendo urina com Tommy Lee, à morte por overdose de heroína de Nikki Sixx (e sua subsequente ressurreição), ao fato de que os integrantes da banda comiam as namoradas uns dos outros pelas costas, à destruição dos quartos de hotel, acidentes de carro, porradaria, e muito, mas muito peitinho.

Não é um filme politicamente correto em nenhum detalhe de sua produção, mas é absolutamente coerente com o que de fato foi a época e, apesar de todas as críticas que aquele período, aquele estilo de vida e aquela música hoje recebem, vale citar Gene Simmons – o “demônio” do Kiss – que disse uma vez que o Hard Rock dos anos 80 foi simplesmente o que hoje é o Rap: Garotos pobres e fudidos da cabeça levados à fama e fortuna rápido demais, vivendo o American Way of Life no seu limite. E não há nada que esses caras tenham feito que Drake, Kanye West ou Snoop Dogg não tenham imitado em tempos recentes. Apenas naquela época essas coisas chocavam mais a uma sociedade que ainda se acreditava perfeita.

Douglas Booth, Daniel Webber, and Iwan Rheon in The Dirt (2019)

A trilha sonora, composta não apenas pelos clássicos de Hard Rock do Crüe, mas contendo um apanhado de todo o tipo de barulheira do fim dos anos 70 até o inicio dos anos 90, é um atrativo a parte e é garantido que ela vai agradar aos fãs do bom e velho róquenrou, mesmo que seja para assistir a um longo videoclip da MTV. E o filme tem um certo quê de videoclipe. Como contar a longa história de quatro pessoas em uma banda de rock, abrangendo desde antes da sua formação até seu fim, em 1h45m? Neste caso a estética do clip funciona, não apenas por se tratar de uma das bandas que mais fez sucesso na MTV e cuja história já foi contada inúmeras vezes por recortes e montagens, mas porque os produtores decidiram mostrar o ponto de vista dos quatro integrantes da banda e a edição recortada ajudou nesse intuito.

O filme parece ter sido baseado numa biografia escrita e publicada por todos os membros e conta com narrações em OFF (sempre chatas de se ter num filme, em especial no início, tentando contar o que o filme não vai mostrar) e momentos Ferris Bueler, em que o personagem fala com a câmera e o espectador, criando situações divertidas, como quando Nikki Sixx explica que “não foi bem assim que conhecemos nosso empresário, mas a história original foi meio babaca e o diretor do filme resolveu enfeitar o pavão e eu acho que ficou melhor mesmo desse jeito”, ou quando a banda começa a se desentender e os integrantes confessam que acusaram uns aos outros mas na verdade “a culpa foi mesmo minha” ou quando Mick Mars, o mais velho da banda e sofrendo de uma doença degenerativa olha todo tipo de briga, treta, overdose e estupidez que os outros membros aprontam e diz “e o pior é que eu tinha que sair em turnê com esses moleques preocupados em comer mais uma stripper, cheirar pó, destruir hotel e eu sentia as articulações das minhas mãos calcificando”.

Meu momento favorito é quando (spoiler alert!!) acompanhamos um dia na vida do baterista Tommy Lee, mostrado em primeira pessoa com uma daquelas câmeras montadas sobre a cabeça do ator, do momento em que ele acorda ao momento em que vai dormir, em alta velocidade e cortes que parecem simbolizar o momento em que ele simplesmente perdia a consciência por excesso de drogas ou álcool, e continuava funcionando assim mesmo, no automático. O famoso “dormir, beber, cheirar, tocar, repetir”. É uma visão muito pouco glamourosa, mas verossímil e interessante, do que deve ter sido viver aquela vida e ajuda-nos a compreender o que leva uma pessoa a se tornar um imbecil completo e a fazer o que eles fizeram.

Não é uma história comovente (apesar de haver momentos bastante humanos) e tampouco obra-prima da cinematografia mundial, não vai mudar sua vida nem ganhar qualquer prêmio, nem sequer fará muito sentido para alguém que não se interesse por esse estilo de música ou aquele período histórico da cultura pop mundial, mas é um filme honesto, bem realizado e divertido. É a biografia de quatro moleques de subúrbio lutando por fama, fortuna, drogas e mulheres, e mostra de maneira bastante vívida como foi estar em uma banda de rock em seu auge, e nesse sentido, o filme cai como uma luva para entreter um fim de noite em que se deseje apenas esquecer os problemas da vida real ao som do bom e velho Rock N’ Roll.

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