Me desculpe interromper o silêncio da sua viagem, mas precisamos conversar sobre um dos filmes mais constrangedores da história recente desta Terra plana. The Last Days of American Crime, que de tão ruim sequer foi traduzido para o português, é um novo longa da Netflix que parte de uma premissa distópica de ficção científica, com bastante cara de Black Mirror, e se afoga na tentativa frustrada de repetir a fórmula de sucesso desses filmes que passam na Tela Quente.

A história é ambientada em uma cidade situada na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, na semana em que o governo americano implantará nacionalmente a denominada “Iniciativa de Paz Americana”, que consiste na transmissão de um sinal capaz de interferir na mente da população através de chips, impedindo que as pessoas consumem qualquer espécie de conduta criminosa de maneira consciente. As controvérsias sobre o procedimento e o prazo iminente para a sua aplicação intensificam o estado de caos social e potencializam a tentativa de migração da população para o país vizinho.

O que não parece ser um pano de fundo ruim (inspirado pelo quadrinista Rick Remender, que teve a sua obra homônima adaptada), já para por aí sem qualquer aprofundamento sobre os processos neuroquímicos dessa medida revolucionária ou seus possíveis desdobramentos legais capazes de garantir a sua eficácia. O roteiro de Karl Gajdusek não faz a menor questão de explicar se todos os cidadãos estariam obrigados a implantar os chips ou se apenas os sujeitos fichados seriam controlados. O seu texto paupérrimo sequestra essa premissa para tentar justificar a vergonha alheia que viria pela frente.

Finalmente chegamos ao protagonista Graham Bricke (Edgar Ramírez), um criminoso de carreira, cheio de inimigos, cujo irmão mais novo supostamente teria acabado de cometer suicídio na cadeia. Mais uma vez o roteiro falha miseravelmente ao tentar construir o entediante Bricke como o anti-herói da trama. Vale destacar a atuação regular de Edgar Ramírez… Seu personagem tem uma única expressão ao longo das duas horas e meia de filme, seja encurralado pelos rivais, sendo espancado, sendo queimado, sendo fuzilado ou mesmo fodendo.

Quando o caminho do protagonista se cruza com o de Kevin Cash (Michael Pitt) e Shelby Dupree (Anna Brewster), o festival de bizarrices se multiplica. De uma hora para a outra, Bricke é informado sobre a morte de seu irmão, é abordado aleatoriamente por Shelby em um bar, os dois transam no banheiro, Kevin surge como companheiro de cela do falecido, apresenta Shelby como sua esposa e revela ter um último grande assalto planejado que permitirá que Bricke se vingue do sistema que arruinou a vida de seu irmão. Sim, isso tudo em uma mísera cena.

Com a totalidade de zero argumentos minimamente bem elaborados, o casal convence Bricke a participar desse plano para roubar um bilhão de dólares (rs) e fugir para o Canadá antes que a IPA entrasse em pleno funcionamento. O resultado disso é uma trama atropelada, repleta daquelas sequências esdrúxulas em que alguém surge do nada para limpar os problemas, não há qualquer diálogo interessante e a grande disputa é pelo Oscar de personagem mais detestável.

O Kevin Cash de Michael Pitt mistura o pior cosplay de Travis Bickle (“Taxi Driver”), se inspira numa caricatura de Tony Montana (“Scarface”) e toma doses homeopáticas de Jesse Pinkman (“Breaking Bad”). O resultado é uma salada de clichês impedida de ultrapassar a gritaria e os péssimos bordões. A cereja do bolo é a cena durante uma estranhíssima confraternização familiar. Gostaria que Mr. Quentin Tarantino pudesse tecer alguns comentários sobre um dos momentos mais patéticos de carnificina que eu já pude assistir.

Mas a Shelby Dupree de Anna Brewster também não deixa a desejar. A personagem que deveria ser daquelas mulheres fatais, bandida enigmática e sedutora, é hostilizada por uma direção que mais parece a visão de um adolescente imbecil sobre a contextualização de uma personagem feminina em um filme de ação. Alguém que figura exclusivamente para satisfazer vontades sexuais ou colocar tudo a perder. O seu papel como hacker especialista também não tem qualquer aprofundamento.

É preciso mencionar, ainda, uma espécie de subtrama envolvendo o policial William Sawyer (Sharlto Copley) que não tem absolutamente nem pé, nem cabeça. Nenhuma de suas motivações e paranoias são demonstradas. A única transmissão feita através de suas cenas é o seu amor pela profissão. Quando o seu caminho se cruza com o dos protagonistas, o obstáculo é simplesmente superado. Um desperdício de personagem que vai do nada ao porra nenhuma.

Quando tudo já estava mais do que perdido, me lembrei do que poderia salvar esse show de horrores e transformá-lo em mero entretenimento vazio (o que já estaria de excelente tamanho): a ação.

Meus amigos, parece implicância, mas cada corpo perfurado necessitava de pelo menos uns mil tiros disparados. As sequências são picotadas, porém intermináveis. Tudo é extremamente cafona. A montagem é tão ou mais perdida que a direção. Eu juro por Deus que a minha capotagem na vida real foi dez vezes mais empolgante que as do filme.

E uma grande obra não poderia se despedir sem um grande desfecho (alerta de spoiler): quase todo mundo morto e um bilhão de dólares abandonados na caçamba de um caminhão.

Acho que nem o Choque de Cultura será capaz de defender esse The Last Days of American Crime.

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