Um dos mais aguardados lançamentos da semana (ou do mês… ou talvez do ano, dependendo do seu nível de nerdice), The Mandalorian, menina dos olhos do novíssimo serviço de streaming da Disney, ficou disponível ontem para o público americano (eu sei… sacanagem). Em visita a um amigo no Texas, juntei-me a multidão de quarentões nerds esperançosos por ver, finalmente na telinha, uma série de carne-e-osso ambientada naquela galáxia muito… muito distante. Mickey Mouse entende de TV como ninguém e não decepcionou nesta produção que certamente agradará tanto a fãs de carteirinha quanto a quem acabou se sair de abrigos nucleares construídos durante a Guerra Fria e nunca viu nada de Star Wars.

Pedro Pascal in The Mandalorian (2019)

Criado por Jon Favreau, que produziu e estrelou o sensacional filme semi-independente “Chef” (e uns outros negócios de um tal de MCU que você talvez já tenha ouvido falar), escrito pelo mesmo e por nada mais, nada menos que George Lucas – sim! – o pai pródigo que tanto levou pedradas pelos Guerra nas Estrelas I, II e III (devo dizer que, em parte, injustamente), produzido pela mesma galera que vem fazendo esta trilogia final (snif…) da minha história preferida e estrelado por Pedro “Oberyn Martell” Pascal, com participação especial de Werner Herzog, Nick Nolte e Carl Weathers neste primeiro episódio… amigo, com um pedigree desses era de se esperar coisa boa. Em especial depois de todas as críticas que a Disney vem recebendo por sua versão da agora chamada “Trilogia Cânone”.

Tenho para mim que o acerto se deve, em parte, pela presença da dupla Favreau-Lucas e, em parte, pela limitação orçamentária imposta a uma série de TV, ja que não há como um seriado disponibilizar 100 milhões de dólares para efeitos especiais e cenas em CGI (ou talvez, quem sabe, tenha sido uma escolha estética deliberada, e salvam-se algumas almas do purgatório!). A produção retorna àquilo que fez de Guerra nas Estrelas (falo dos episódios IV a VI) uma trilogia tão espetacular: máscaras de borracha, marionetes, cenários de isopor e soluções de baixíssimo custo que, no fim do dia, nos parecem muito mais convincentes que qualquer computação gráfica. O universo ali mostrado tem areia de verdade na sola dos sapatos dos personagens, vento de verdade nas capas, bocas e olhos de verdade por detrás dos rostos alienígenas, robôs desengonçados e nenhum movimento de câmera de videoclipe.

Pedro Pascal and Taika Waititi in The Mandalorian (2019)

A narrativa é surpreendentemente lenta e “cool”, com alguns momentos bem-humorados, e pontuada aqui e ali por cenas de ação objetivas e bem coreografadas, uma qualidade se comparada aos confusos e histriônicos filmes de ação atuais. Nada é demasiado, nem diálogos, nem tiros, nem sons, nem cenários, e o resultado final parece bastante com algo que poderia ter sido filmado logo após o lançamento de “O Retorno de Jedi”. Ambientado depois da queda do Império, a série, até aqui, é construída como um filme de velho-oeste-espacial, bem como Lucas visualizou originalmente a sua história. Percebe-se claramente a precariedade com que vive o povo comum nos lugares mais remotos da galáxia, e a situação política e econômica de um período de instabilidade pós-guerra civil.

A escolha de centrar a história em um caçador de recompensas Mandaloriano (a raça de Boba Fett, Jango Fett e todos os tais clones das famosas Guerras Clônicas) e explorar o submundo desse universo foi muito feliz, e nos permite conhecer um pouco mais desses lendários guerreiros tão pouco explorados nos filmes, e observar o que acontece fora dos holofotes dos lendários Jedi e Sith. Não há cruzadores estelares nem sabres de luz, mas já no primeiro episódio temos uma boa quantidade de referências e easter eggs, sendo seu ponto alto o momento “Kawaii” nos minutos finais do episódio, criando um cliffhanger que, na boa, se você se diz fã de Guerra nas Estrelas e não abrir um sorriso, vá pro inferno, seu pulha sem coração! Mas nada no episódio necessita de conhecimento prévio do universo Star Wars e marinheiros de primeira viagem conseguirão se divertir sem a necessidade de tradução simultânea.

Quanto a críticas reais, tenho muito poucas. A série será, ao que parece, uma série mesmo, com temporadas que devem completar arcos narrativos. Preferia que fossem episódios soltos, mas é gosto pessoal. Eu gosto de séries episódicas. Também esperava um tema musical mais marcante. Algo memorável, para assoviar ou cantarolar ao estilo da abertura do próprio Guerra nas Estrelas ou de GoT. A trilha é sutil e incidental como em filmes de bang-bang. Funciona, o que mais posso dizer? Pontos extras para as belíssimas imagens que acompanham os créditos finais que me lembraram os créditos dos desenhos animados do Jonny Quest (se Jonny Quest tivesse sido desenhado pelo Ralph McQuarrie). No mais, aguardo ansiosamente o lançamento da série (ou do canal Disney+) em terras brazucas, seja lá quando isso vier a ser.

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