Se você é fã raiz de ficção científica, daqueles que sente necessidade de uma narrativa verossímil e minimamente crível, essa série não é pra você. Lançada em 2016, mesmo ano de estreia da bem sucedida Stranger Things, The OA se insere na linha de apostas da Netflix no ramo da narrativa SciFi, assim como Dark, Aniquilação e, porque não, a polêmica Sense8.

A especificidade de The OA se encontra na mistura de elementos, que vão desde a batida teoria do multiverso, dimensões alternativas do tempo/espaço e viagens interdimensionais até as mais alucinantes teorias sobre Experiência de Quase Morte (EQM), ancestrais místicos e arquitetos do universo (Gaia, Pacha Mama, Maat e toda essa mitologia da gênese da humanidade do universo.) E digo alucinante porque, sim, a sensação que se tem em alguns episódios, tanto da primeira quanto da segunda temporada, é de que seus criadores, Brit Marling and Zal Batmanglij, tomaram uma boa dose de chá de cogumelo pra pensar (e produzir) o roteiro (apenas como curiosidade aqui, temos Brad Pitt também abrindo a carteira pra produção, o que nos mostra o quanto o cogumelo era forte).

Na primeira temporada, conhecemos a história de Prairie Johnson (interpretada por Brit Marling), uma jovem que havia desaparecido por 7 anos e que reaparece sob circunstâncias misteriosas. A partir daí, a personagem passa a ser constantemente interrogada, tanto por seus pais adotivos quanto pelo próprio FBI, sobre o tempo em que ficou desaparecida, sobretudo pelo fato de ter voltado com sua visão perfeita: antes de desaparecer, a jovem Prairie era cega.

Constantemente vigiada, sob suspeita de transtornos psicológicos e em conflito recorrente com seus pais adotivos, Prairie se aproxima e encontra suporte emocional em um incomum grupo de vizinhos: Steve (Patrick Gibson), Jesse (Brendan Meyer), Buck (Ian Alexander) e Alfonso French (Brandon Perea), estudantes na escola local, além de Betty Broderick-Allen, professora de meia idade na mesma escola. O grupo funciona como uma espécie de Clube dos Cinco: cada personagem tem uma personalidade e drama pessoal, com nenhuma ligação e amizade iniciais, apenas o comum envolvimento com drogas (vendidas por Steve), passando a ser unidos pela empatia emocional despertada por OA, o nome que Prairie diz ser o seu depois de sua volta. É importante mencionar aqui o raso desenvolvimento dos personagens, que parecem apenas servir como massa de manobra para os fins pretendidos pelo roteiro.

Após os acontecimentos da 1a temporada, repleta de atuações medianas e diálogos que parecem ter sido inspirados em filosofia de traseira de caminhão, The OA se torna um fardo, com acontecimentos que se sobrepõem sem explicação razoável. O cânone da série é composto por tantos elementos fantásticos e referências simbólicas religiosas e filosóficas que se torna megalomaníaco e pretensioso demais, basta conferir as premissas da nova temporada, lançada em março de 2019.

Nela conhecemos o investigador particular Karim (Kingsley Ben-Adir), que está seguindo o rastro de uma adolescente desaparecida após se envolver com um grupo de jogadores online. Eventualmente, os acontecimentos levam o investigador à esbarrar no nosso anjo celestial e a história dá continuidade à jornada de OA: damo-nos conta de que a trama se passa numa nova dimensão, para a qual Prairie viaja após sua morte. Nessa nova “vida”, descobrimos que quando um viajante de outra dimensão chega passa a assumir o corpo do seu eu dessa dimensão ele incorpora ou não suas memórias e habilidades. Dessa forma, a jovem OA acaba encontrando novamente seus colegas de cativeiro e se vê ainda perseguida pelo cientista Hap. A narrativa passa então a equilibrar dois núcleos, já que a situação dos garotos na dimensão em que Prairie morreu continua a ser narrada, fazendo-nos acompanhar os personagens já conhecidos da primeira temporada e ao mesmo tempo apresentando “novos”.

Se na primeira temporada já se tem dificuldade de compreender muito bem o objetivo central da trama e o caminho da narrativa, na segunda temporada somos literalmente lançados na toca do coelho de Alice, com referências que misturam cultura gamer e tecnologia, elementos de narrativas policiais e organizações ocultas até shamanismo e animais fantásticos. Algumas premissas da primeira temporada são resgatadas, mas não com o propósito de solução e sim de ampliação dos mistérios, o que nos deixa mais perdidos do que nunca. Os novos arcos dos personagens continuam sendo acessórios para a história principal e, apesar de descobrirmos um pouco mais da história de alguns deles, sua profundidade emocional e psicológica continua rasa.

Por fim, se tem algo positivo acerca de The OA, talvez seja o fato de que a loucura absoluta apresentada em seu enredo desnorteie tanto o espectador a ponto de ser um bom entretenimento alienante, daqueles que se assiste após um dia cansativo de trabalho em que não se tem qualquer pretensão de reflexão crítica.

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