Um dos recursos mais usados por determinados gêneros do Cinema, em especial thrillers, suspense e algumas formas de terror, é o plot twist; em alguns casos tornando-se inclusive a marca do diretor (como na filmografia de M. Night Shyamalan, na qual sempre estamos à espera de uma mudança brusca no enredo, não entendendo, de antemão, que o filme é sobre tão somente aquilo que está apresentado em sua narrativa mais superficial). Apesar do recorrente uso em diversos títulos de vários diretores, sua execução não é assim tão simples, muitas vezes resultando em produções que se perdem em meio às suas “surpresas”, tentando impactar o público, mas fazendo-o de forma tão atabalhoada que a intenção se volta contra seu próprio realizador. The Perfection é um exemplo de uma montanha russa de plot twists, que flerta com o descontrole, mas que, com uma mão muito firme em sua regência, alcança um resultado bastante marcante.

Charlotte (em refinada atuação de Allison Williams) é uma mulher que abandonara um protótipo de carreira como musicista ainda criança, para cuidar de sua mãe que ficara acamada. Deixando de lado um dos conservatórios mais bem conceituados do mundo, dirigido pelo casal Anton (Steven Weber) e Paloma (Alaina Huffman), e esquecendo o dom que a fez uma menina prodígio, Charlotte passava seus dias sentada em um quarto, sendo o principal suporte de sua progenitora. Agora, porém, já adulta, após perder o ente querido, ela resolve revisitar seus antigos tutores, ensaiando um retorno ao universo de notas e harmonias. Ao descobrir que seu lugar fora preenchido por Lizzie (Logan Browning), uma revelação tão brilhante quanto, uma tensão começa a se manifestar nas relações mais íntimas desses quatro envolvidos.

O dueto das almas.

A atmosfera criada logo na primeira sequência já dá todo o tom do filme: jogos de olhares, um clima sombrio, apesar de claro, em um ambiente um tanto estéril, são os elementos que vão se sobressaindo à medida em que os personagens vão sendo sugados pelas suas reais intenções em todo esse universo de harmonia e perfeição promovidos pela erudição musical. Mas a plenitude gerada por esse tipo de Arte é apenas uma forma de maquiar a maneira pela qual ela é alcançada. Os sacrifícios, os abusos autoimputados ou perpetrados por outrem, os desejos que se mesclam com medos mais evidentes são o verdadeiro conteúdo por trás daqueles sorrisos e dedos habilidosos a dançarem suaves na superfície do braço do violoncelo. A inveja, o ciúme, a ganância e a dor são notas desarmônicas que permitem, por sua vez, a construção de um escudo sonoro revestido de paz e esmero. E tal qual o artista que não é a representação de sua obra, assim são as personagens dessa história, que se escondem em seus risos, abraços e carícias.

Como uma orquestra que vai mudando o formato de sua composição ao longo de uma mesma peça, o filme joga o espectador de um lado para o outro, ora dando sinais de se tratar de uma obra de obsessão entre personagens, ora de um conto de vingança, perpassando, nesse meio, por uma narrativa que poderia sugerir o início de uma atmosfera pré-apocalíptica. Aqui, no entanto, o apocalipse é bem presente, mas não enquanto desastres ou catástrofes naturais; ele é a força propulsora interna de cada personagem, a criar a destruição de si e dos outros. A cada mudança, a cada virada narrativa, a realização de Richard Shepard vai alcançando níveis cada vez mais pesados, afundando seu público em uma violência psicológica tão brutal que sequer a erudição musical se mostra capaz de amenizar o caos anunciado. E o caos apresentado é a centelha para o recomeço. Revestido das antigas características, o ciclo se reinicia, como uma mesma sequência de notas, tocadas agora em outro compasso, com diferente pegada, produzindo uma nova sensação.

O fardo do dom.

Excetuando-se por dois recursos “spielbergueanos”, de um didatismo quase patético, completamente desnecessário ao contexto e ao formato da obra, tudo nela é executado à perfeição. A fotografia que dialoga, frameframe, com sua narrativa; o ritmo preciso, marcado como que musicalmente; o crescendo que explode em seu clímax; e a “calmaria” da conclusão pós-auge, em cenas por demais impactantes e chocantes; são elementos que sobressaem durante o desenrolar de uma trama carregada de drama, obscuridade e loucura.

Sugestões para você: