“A imprensa deve servir aos governados, não aos governantes”
. A famosa frase proferida pela Suprema Corte dos Estados Unidos no auge do escândalo conhecido como Pentagon Papers é a linha mestra a guiar o ethos de The Post: A Guerra Secreta, a nova produção de Steven Spielberg, protagonizada por ninguém mais que Meryl Maior-atriz-da história Streep e Tom Talento-puro-e fofura Hanks. No corre-corre das premiações, o filme já chega aos cinemas brazucas com o aval de duas indicações ao Oscar 2018: melhor atriz e melhor filme.

Os Pentagon Papers são uma série de documentos ultrassecretos que revelaram, após serem divulgados pelo analista militar Daniel Ellsberg (um Snowden dos anos 70), que, durante 4 administrações, o Governo Americano deliberadamente mentiu ao povo e ao Congresso sobre os rumos e estratégias da Guerra do Vietnã. A publicação dos documentos abriu uma batalha violenta entre a Imprensa e o presidente Richard Nixon (que nem imaginava que a desgraça só começava em sua vida, aiai, Watergate). Spielberg vai se debruçar nos desdobramentos e na luta pela publicação dos arquivos pelo Washington Post, através da primeira editora mulher de um jornal, Kay Graham (Streep) e o jornalista Ben Bradlee (Hanks).

Com Tubarão, Spielberg inventou o cinema-evento e mudou os rumos da sétima arte no século XX. Seu ultimo lançamento deixa claro o quanto ele domina a carpintaria cinematográfica. Se Scorsese é o diretor que mais entende da arquitetura e da semiótica das telas, Spielberg é, sem dúvida, o que melhor domina a estrutura da arte. Em todos os seus filmes é nítida a construção esmerada de uma narrativa que deseja alcançar a todos, não a apenas nichos de espectadores. Em The Post, ele potencializa com muito sucesso essa sua marca.

Esnobada pela Academia nas indicações deste ano, sua direção brilha em cada segundo de exibição. Apoiado no excepcional roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, o filme escancara uma das melhores características de seu diretor: a capacidade de ser relevante. The Post é um grito em defesa da liberdade de imprensa e da democracia e, com certeza, não constará na lista dos filmes favoritos do presidente Trump. Cada frame, cada frase, ressoa como uma ponte entre o passado recente e os atuais rumos dos tempos de fake news.

O excelente roteiro, nas mãos do mestre, explode numa narrativa de ritmo magistralmente construído, criando um thriller político tenso, vibrante. Não existe espaço para tédio em nenhum momento de seus 116 minutos. O único senão do filme se origina justamente da preocupação de seu diretor em fazer cinema para todos: ele acaba incorrendo em um ou outro excesso de didatismo, explicando demais algumas sequências que poderiam ficar em aberto sem detrimento da história. Mas não chega a incomodar esse tom professoral do tio Steven.

Outro golpe de mestre é a maneira como a produção dialoga com outros filmes que abordavam a época e o assunto, principalmente com a obra-prima Todos Os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976), que vai contar justamente a história do maior escândalo da administração Nixon, o Watergate. Aliás, prestem muita atenção à ultima cena do filme: ela é a cena inicial do filme de 1976.

Aliás, o diálogo com produções dos anos 70 não se dá apenas no tom, ele se realiza na estética também. A fotografia é interessantíssima, ilumina cada cena de forma meio retrô e os enquadramentos e lentes escolhidas reforçam esse visual. É gritante a homenagem prestada a uma outra obra prima de 1976 e um dos maiores filmes feitos sobre o jornalismo, o maravilhoso “Rede de Intrigas”, de  Sidney Lumet.

No campo das atuações, o que esperar da primeira colaboração da dupla Hanks-Streep na telas? Não é louco pensar que eles nunca tinham feito nada juntos??? Aliás é o primeiro filme dela com Spielberg também, já que, em “IA”, ela apenas dublou a Fada Azul.

Tom Hanks, também esnobado pela Academia, está em pleno domínio da sua performance. Seu Bradlee é construído sob a marca da paixão pelo jornalismo. É uma atuação bastante visceral, entregue mesmo. Mais um excelente trabalho de um excelentíssimo ator.

Vocês acharam mesmo que eu não iria falar dela hoje, leitores Metafictions? Cravando sua 21ª indicação ao Oscar, a maior atriz de todos os tempos faz o que ela mais faz: ser magnifica. Sua Kay Graham é montada com toda complexidade que um ser humano na sua posição possui. Meryl não atua, ela erige uma personagem. É arquitetônico o seu processo de construção: tudo está lá, da modulação da voz aos trejeitos, do andar ao olhar, da posição do corpo no cenário à interação com os colegas. E Graham é muito profunda, primeira mulher editora de jornal, cargo herdado após o suicídio do marido, vivendo num mundo masculino e sendo obrigada a achar sua voz, dividida entre a integridade jornalística e sua posição de mulher da classe alta. Um olhar de Meryl Streep e o espectador esquece quem ela é e só vê a personagem.

(Adendo: meu roteiro dos sonhos ainda vive em mim – um filme no qual Meryl Streep faça uma atriz que vai ser Meryl Streep num filme sobre Meryl Streep)

The Post é um acerto e um libelo pela liberdade de expressão e pelo direito à informação. Acerta tanto quanto discurso, quanto como cinema e entretenimento.

 

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