Para inaugurar a nosso quadro semanal de garimpo, escolhemos apresentar aqui um filme que me deixou boquiaberto durante o Festival de Cinema do Rio em 2011 e acabou me levando a ver o segundo. Com este quadro, nós pretendemos apresentar a vocês filmes que não tiveram muita visibilidade, seja porque não foram lançados nas salas de cinema brasileiras, seja porque foram lançados de forma limitadíssima.

E acho que nada melhor para isso do que começar com um filme indonésio, país conhecido por ter um presidente metaleiro, Joko Widodo, pelas praias e por brutalmente executar traficantes de drogas, como no caso do instrutor de voo livre brasileiro Marco Archer. Curiosamente, esta última característica guarda alguma coisa de relevância para o filme garimpado.

Joko Widodo Napalm Death

Antes de falar sobre o filme, contudo, é necessário fazer algumas perguntas ao leitor.

Você gosta de ver as agruras de uma família israelense às voltas com o conflito na palestina? Curte ver iranianos podando um limoeiro enquanto metáfora para o regime político daquele país? Acha legal filmes japoneses nos quais a principal diversão é tentar identificar na voz dos atores quando na legenda aparecem nomes conhecidos como Akira, Tokyo ou Daniel San e falhar miservalmente? Se você respondeu sim para qualquer uma dessas perguntas, o que Operação Invasão 1 e 2 (The Raid 1 e The Raid 2: Redemption na versão internacional e Serbuan Maut e The Raid 2: Berandal em indonésio) tem a dizer para você é um grande, sonoro e molhado foda-se, como demonstrado abaixo.

Foda-se!

Não há espaço aqui para profundas discussões filosóficas sobre a existência ou para que se debata acerca das vicissitudes de uma guerra ignara. O espaço aqui é todo reservado a Iko Uwais e a seu amiguinho mais feio, velho e nojento, Yayan Ruhian, que, por ter um aspecto realmente revoltante, é escalado como vilão dos filmes.

Iko Uwaiss e Yayan Ruhian em The Raid 2. Gatos!

Estamos falando aqui de dois filmes. Operação Invasão, de 2011 , e Operação Invasão 2, de 2014 (e o 3 já foi anunciado). Isto, contudo, não faz a menor diferença. A história de ambos os filmes, apesar de diferente, tem a mesma profundidade (ou total ausência dela). No primeiro, Iko Uwais é Rama, um agente da SWAT de Jacarta (pois é, Jacarta aparentemente tem uma SWAT) que, junto com seus colegas de corporação, dá uma batida em um prédio todo controlado pelo tráfico de drogas. A missão, tal qual em Double Dragon, Final Fight e Streets of Rage, é deitar todo mundo na porrada até se chegar ao chefão que, como não poderia deixar de ser, está no último andar do prédio e que, também como não poderia deixar de ser, está sendo guardado por seu guarda costas boladão, o feroz Mad Dog, aqui interpretado por Yayan Ruhian, uma espécie de Abobo sem bomba e mais puto.

No segundo, e eu não tenho medo NENHUM de dar spoilers, Rama, mal sobrevivendo ao final do primeiro filme, se infiltra em uma das famílias mafiosas de Jacarta (pois é, aparentemente Jacarta tem também famílias mafiosas) e o resto eu não preciso falar. No meio do filme ainda arrumam um jeito de trazer de volta Yayan Ruhian, muito embora seu personagem do filme anterior tenha sido morto. A solução foi simplesmente criar gratuitamente um outro personagem, desta vez chamado Prakoso, para que o ator pudesse ser escalado novamente e demonstrar ao mundo que cara feia nem sempre é fome.

Aqui vemos um bom exemplo do que é um manja rola.

Como dito, a história em ambos os filmes existe, mas existe somente como uma espécie de Dedé Santana para que Iko Uwais e, em menor grau, Yayan Ruhian demonstrem todo o seu talento.

E qual é o talento deles? O talento deles é chutar bundas como jamais se viu em toda a história de cinema e, arrisco dizer, da humanidade. Em ambos os filmes, os dois – que são faixa preta (ou seja lá qual for o equivalente) em Silat, uma arte marcial indonésia – até falam algumas palavras, mas passam a maior parte do seu tempo de tela simplesmente obliterando seus inimigos se valendo de uma violência cuja beleza nem o PSOL negaria.

As coreografias das lutas são tão bem feitas e coordenadas que a dor que os pobres figurantes sentem é palatável. Os golpes efetivamente conectam e não é de se espantar se aparecer uma van do SAMU no fundo de qualquer uma dessas cenas, em um erro extremamente compreensível de continuidade. E a apuração técnica não fica tão somente nas coreografias. A fotografia do filme, para o que se presta, é também excelente. Capta a violência em ângulos bem reveladores e que funcionam como parte integrante e indelével das coreografias de luta.

Batalha do passinho.

Em uma determinada cena do primeiro filme, uma luta é tão belamente filmada e finalizada com o uso de um tiro a queima roupa que é de se chorar. Já no segundo, uma determinada tomada se aproxima de uma parte da vegetação, com a visão bucólica do interior da Indonésia, somente para ser inexoravelmente interrompida por uma chuva de sangue que é gratamente recebida pela planta.

Quando eu vi que Iko Uwaiss e Yaya Rahian haviam sido escalados para estrelar Star Wars: O Despertar da Força, eu cheguei a ter alguma esperança de que a porrada estancaria violentamente, mas eles só aparecem brevemente, em papéis esquecíveis e que não serão reprisados nos filmes seguintes.

Yaya Facepuncher e Iko Asskicker

Enfim, no que tange exclusivamente à ação e porrada, este é o melhor filme feito em anos e se você ainda acha que o Van Damme de boca aberta procurando o Chong Li enquanto finge que está cego é o que há de mais bem feito na história do cinema de artes marciais, eu lhe urjo que pense novamente.

Ahhh, o primeiro filme está disponível no netflix.

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