Cite quantos filmes/séries pós-apocalípticos em países pobres você lembra de ter visto. Aposto que você teve dificuldade de sair do zero, correto? Conversando com outro colega do site sobre obras do gênero, estávamos discutindo o quanto é necessário que uma ruptura abrupta seja criada na ordem social, baseada em uma resposta da população de acordo com a gravidade da situação, para que o gênero funcione. Não é à toa – além da questão financeira e cultural de consumo de cinema – que a maior parte dessas obras pós-apocalípticas ocorrem nos EUA com pessoas armadas até os dentes fazendo o necessário para sobreviver. Isso, na sua maioria, é crível, já que lá temos o porte de arma liberado e crimes violentos ocorrem com certa frequência, embora seja estatisticamente um país com uma boa qualidade de vida. A imersão do telespectador nesse caso é quase garantida.

Contudo, temos dois casos que essa imersão não ocorre apropriadamente. O primeiro e mais óbvio cenário é de um país muito pobre, que é essencialmente um mundo pós-apocalíptico moderno. A ordem social nesses locais já vive no limiar do caos, então a ruptura é sutil, salvo as devidas proporções. O outro cenário, no qual a série The Rain incorre, é o de um lugar extremamente desenvolvido, onde a ordem social é parcialmente perturbada. A Dinamarca é apresentada tão desenvolvida, que até em momentos de ruptura catastróficos a civilização se mantém relativamente estável. Organismos governamentais funcionam, pessoas andam armadas, mas sempre estão convidativas e nada desconfiadas, acesso a energia, alimento e água não é um desafio e soluções para restabelecer a ordem social estão a um palmo de distancia. Ou seja, não há grandes desafios.

Caso você não tenha visto a 1a temporada da série (leia a crítica), começamos a 2a exatamente onde terminamos a 1a, descobrindo que Rasmus (Lucas Lynggaard Tønnesen) é o paciente zero, que o pai dele está na Apollo tentando descobrir a cura e que precisa de seu filho para isso, todo o grupo está preso dentro da área de quarentena e que as cápsulas injetadas em seus corpos explodirão se deixarem a zona restrita. Para conseguir achar uma cura, a Apollo necessita dissecar o corpo de Rasmus, obviamente levando-o à morte, então seu pai arranja de todos fugirem e entrega uma coordenada de um grupo de cientistas que pode ajudar nesse processo sem que seu filho venha à óbito. Toda a temporada se resume a achar uma cura para Rasmus, fazendo com que ele perca seu valor e, de quebra, consigam uma cura pro surto do vírus, antes que a Apollo os ache e mate todos que ficarem no caminho para pegar o paciente zero.

A 1a temporada era medíocre, no limiar do assistível, mais pelo argumento do que por qualquer outra coisa. Mas parece que os produtores escutaram as críticas e tentaram reformular partes que não estavam dando certo, a começar pelo número de episódios que foi reduzido para apenas 6, matando uma barriga que causou incômodo em 2018. Porém, para conseguir dar uma nova cara para a obra, o roteiro despiroca brabo. Ele até opta por caminhos interessantes, mas carece de coesão, sendo tão forçado que ofende o bom-senso.

Esqueça a água da chuva como vetor da doença (o que já foi pouco explorado na 1a temporada), agora Rasmus é um misto de Fênix Negra com Monstro do Pântano. O vírus em seu corpo é tão forte que seu estado emocional consegue provocar manifestações físicas que beiram de um mutante superpoderoso. Além disso, o vírus se propaga para tudo que é organismo. Se é difícil um patógeno pular entre espécies próximas geneticamente, imagina pular de um primata para vegetação, espalhando-se pelo solo como se fosse uma praga. Isso sem mencionar que Ramus passa a sentir a reação de tudo que está contaminado. Se algo acontece a uma árvore contaminada próxima a ele, ele também sente. Eu não sou biólogo, mas o pouco que entendo sobre o assunto como leigo fez dessas mudanças repentinas parecerem apelativas e sem razão de ser.

Mas se tinha a algo que poderia mudar e seria bem-vindo são os personagens desinteressantes. Tirando Martin (Mikkel Boe Følsgaard), todos são genéricos e rasos demais. Os irmãos continuam com a mesma dinâmica protetora tomando decisões questionáveis a todo instante, especialmente Simone (Alba August), que agora é PHD em bioquímica. O casal Lea (Jessica Dinnage) e Jean (Sonny Lindberg) continua fazendo figuração e Patrick (Lukas Løkken) até esboça bons momentos, mas no geral se mostra limitadíssimo, funcionando mais como alívio cômico. Alguns novos personagens melhoram consideravelmente a dinâmica da temporada, como os pesquisadores da instalação que tentam achar uma cura sem matar Rasmus, mas que ainda assim apresentam comportamentos inacreditáveis.

No fim das contas, The Rain tentou, mas não conseguiu entregar uma temporada consistente. Apelando para situações de quase paranormalidade que não fazem nexo com o que foi apresentado em sua 1a temporada, a série perde o rumo que já era impreciso. Esperamos uma outra temporada? Talvez. Mas caso você curta surtos que causam o fim do mundo, não deixe de conferir nosso Garimpo NETFLIX Epidemias.

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