Esta é a crítica da 3a temporada de The Sinner. As críticas da 1a e 2a temporadas você pode conferir, respectivamente, aqui e aqui.


“Um homem precisa se queimar em suas próprias chamas pra poder renascer das cinzas” disse o filósofo e poeta alemão Friedrich Nietzsche, acreditando que o caminho para um indivíduo se tornar um Übermensch não estava na dominação ou subjugação dos outros, mas numa autossuperação. Sim, esse  conceito foi usado erroneamente durante a Segunda Guerra Mundial, como pretexto pelo provavelmente mais odiado ditador do mundo, Hitler, a fim de exterminar os judeus. No entanto, de acordo com Umberto Eco, Nietzsche afirmava que o conceito em questão seria apenas um caminho para o homem se tornar herói de si mesmo “numa sociedade particularmente nivelada, onde as perturbações psicológicas, as frustrações, os complexos de inferioridade estão na ordem do dia; numa sociedade industrial onde o homem se torna número no âmbito de uma organização que decide por ele”. Tendo dito isso, podemos começar a falar sobre a terceira temporada de The Sinner, cuja premissa seria esta mencionada. O padrão de manter as temporadas independentes entre si foi mantido, porém, com o diferencial de não ser inspirada em um crime real.

Desta vez, o detetive Harry Ambrose (Bill Pullman) entra em cena para investigar um acidente de carro em Dorchester, envolvendo dois amigos, que resultou na fatalidade de um deles. Jamie Burns (Matt Bomer), o sobrevivente aparentemente muito abalado com o ocorrido, conta sua versão dos fatos deixando algumas lacunas em aberto, o que leva o caso a ser analisado mais a fundo e a se tornar absolutamente perturbador. Jamie leva uma vida tranquila na cidade pequena citada acima, é professor de alunos do ensino médio e trabalha na mesma escola há 10 anos, vive um relacionamento conjugal de 15 anos com a mulher e em breve será pai de seu primeiro filho. Sua esposa, Leela (Parisa Fitz-Henley), decidiu expandir as vendas online de óleos essenciais e aromas personalizados para um negócio físico e acaba de criar sua marca e abrir uma loja. É nesse contexto lindo e muito promissor em que crimes acontecem e um protagonista nada suspeito se transforma num sociopata de carteirinha.

Em meio a busca de um sentido para a vida e de uma força superior que preencha seu vazio, Jamie se torna amigo inseparável de Nick Haas (Chris Messina), um rapaz brilhante cujo único prazer é encarar a morte testando seus limites até as últimas consequências. Eis aí a prática do conceito Übermensch. Nick é incansável, não se importa com nada além do agora e exerce poder absoluto sobre seu amigo. Jamie é levado ao extremo de um misto prazer-pavor até que se sente perdido e ameaçado e decide se afastar, cortar relações com o jovem destemido. Após quinze anos de hiato, um reencontro dos dois traz à tona todas as inseguranças e questionamentos vividos nos tempos de faculdade. Não bastasse Haas ter se transformado em um homem rico e bem sucedido, sua crença em si mesmo permanece inabalável, enquanto que o monstro adormecido no professor queridinho das alunas, acorda como que uma bomba-relógio prestes a explodir vestida no disfarce de bom moço e cidadão exemplar.

Talvez esta seja a mais sombria das três temporadas, pois além de explorar todas as camadas da vida e trajetória do assassino, de forma surpreendente, também não economiza roteiro para explorar a imersão de Ambrose no caso – personagem que apesar de fundamental na série, teve suas questões tratadas de forma rasa e obscura até então -, fato que conversa com sua extrema dificuldade de se relacionar com qualquer ser vivente. Pode-se dizer que The Sinner investiu pesado no envolvimento do espectador com a trama, a ponto de ao final de 8 episódios já não sabermos mais de qual lado estamos. Todos os personagens têm real relevância e os mini-conflitos dentro da grande narrativa se sustentam em um timing perfeito com atuações de fazer o bonequinho do jornal aplaudir de pé, algo que não acontece com tanta frequência, não é mesmo? E para os pecadores de plantão, a boa notícia é que já foi anunciado que haverá a 4a temporada.

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