Making Murderer foi um marco para a produção de documentários, tanto para indústria como, especialmente, para a NETFLIX, que se tornou uma referência no gênero sendo premiada em diversos festivais, incluindo recebendo alguns Oscars. Sua excelência foi tamanha que inspirou outras produções encomendadas pela gigante do streaming – algumas de ótima qualidade e outras nem tanto – e que convivem com o fantasma da comparação com esse que talvez seja o melhor documentário serial já feito, trazendo, inclusive, novos desdobramentos para o caso, que, por sua vez, deflagrou na produção de uma 2a temporada que o MetaFictions aguarda ansiosamente.

Tentando sair de sua sombra, The Staircase aproveita um caso estabelecido e conhecido – principalmente pela sociedade norte-americana – já com algumas obras lançadas, incluindo episódios feitos para a TV e documentários longa metragens (sendo o último em 2013), e expande os meandros do caso sob a perspectiva da defesa em 13 episódios de aproximadamente 45 minutos. Começamos em 09/12/2001, quando Michael Peterson, um famoso escritor, liga para a emergência pedindo ajuda após ter encontrado sua esposa aos pés de uma escada em péssimas condições, ao ponto de estar morta quando chegam a polícia e ambulância. Imediatamente, pelo estado e forma que o corpo foi achado, o caso se torna uma investigação de homicídio.

Sempre que você é acusado de algo, duas coisas acontecem. A 1a é o escrutínio de sua vida pessoal e profissional, todos os seus segredos serão desenterrados, todas as suas indiscrições e tudo aquilo que você pode ter feito de errado, mas que não implicam no suposto ato que está em julgamento, vão à público. A 2a coisa é pegar tudo o que você fez na vida e distorcer/tirar do contexto para encaixar no perfil criado pelos acusadores/promotoria. Isso é exatamente o que acontece com Michael e muitos dos seus segredos descobertos, mesmo que chocantes, nada contribuem na resolução do caso. No entanto, ao considerarmos o contexto do “acidente” e as ENORMES “coincidências” descobertas no passado de Michael, começamos a achar que ele de fato seja culpado.

Como dito, seguimos 100% do documentário pelo prisma da defesa e acompanhamos uma empreitada que parece impossível: inocentar Michael. A cada etapa da investigação e aprovação de provas para o julgamento vemos a defesa acumulando derrotas e também vemos a facilidade que a promotoria tem no decorrer do caso com a máquina estatal ao seu lado. Mesmo com uma teoria possível, mas improvável, da defesa, há aqui algo muito belo no sistema judicial e do que a defesa tenta tirar proveito: a criação de dúvida razoável na mente dos jurados. É a partir desse ponto que a série decola, com os depoimentos dos especialistas – e, diga-se de passagem, tem especialista por aí para confirmar qualquer teoria – e o escrutínio de suas declarações ao ponto de me provocar vergonha alheia e dúvida se realmente Michael cometeu o que a promotoria alegava.

Claro que ocorrem reviravoltas impressionantes – que são “obrigatórias” para documentários seriais – e que mudam completamente como o caso é encarado, com resultados esperados e inesperados em diversos momentos em uma série que, mesmo entregando uma obra interessante e visualmente chocante, peca na sua edição e roteiro. The Staircase é GIGANTE, o que não seria um problema se não fosse maçante. Não há aqui aquela montagem clássica de julgamentos, indo para pontos-chaves, mas sim depoimentos na íntegra e muito dos bastidores, como ensaios e refeições dos advogados rindo e fazendo piada, removendo a tensão e tirando o peso da série.

Caso você se interesse pelo gênero, a obra vale muito seu tempo, mas esteja preparado para ver muito mais da vida/família de Michael do que do caso em si.

Deixa eu explicar porque você tá fudido.

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