Há toda uma linha de SciFi que flerta com a ficção utópica/distópica, gênero literário que trata das mazelas causadas pelo ser humano ao tentar pôr em prática seus sonhos mais mirabolantes – as tais utopias – e que, frequentemente, se tornam um pesadelo – a distopia, versão corrompida da ideia original. O gênero se fez famoso com livros como 1984, Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica, mas, antes deles, no longínquo século 19, Mary Shelley colocou sua desconfiança na ciência e no progresso modernos em um dos maiores clássicos da literatura mundial. Seu monstro de Frankenstein é um alerta para o desejo humano de tornar-se um deus e criar vida. Quase 200 anos depois, agora com suas inteligências artificiais, os macaquinhos pelados continuam frustradinhos por não serem capazes de criar vida. Quer dizer, os machos da espécie, com seus piruzinhos pequenos e sua falta de útero, já que as fêmeas criam vida muito bem, obrigada.

Haw! Me come in peace…

Em The Titan, lançamento do dia da Netflix, Rick Janssen (Sam Worthington – o Avatar de Avatar – destinado a se tornar azul de uma maneira ou de outra e também o Perseus de Fúria de… Titãs… de novo?), é um militar em uma terra devastada pelo que o homem sabe produzir de melhor: a estupidez. Depois de estuprar o planeta com produtos químicos pra produzir iPhones como se não fossem mais haver hipsters amanhã, a humanidade moderna decide entrar em guerra e detonar bombas nucleares. Regiões costeiras e grandes cidades vão pro caralho e em cerca de 15 anos metade da humanidade terá perecido por falta de comida.

Imbuído do mesmo espírito imparável do progresso que levou o Dr. Victor Von Frankenstein a suturar cadáveres e usá-los como para-raios, o geneticista Martin Collingwood (Tom Wilkinson) vende à OTAN o peixe de que a salvação da humanidade está em Titã, uma das luas de Saturno, com uma atmosfera de nitrogênio, rios de metano, temperatura abaixo de zero e caralhinhos voadores pelo céu.

Piscinão de metano líquido pra refrescar o verão carioca.

Por ser a terraformação (processo de transformação de um planeta alienígena em algo parecido com a terra) um sonho impossível para a ciência de hoje, a nossa única opção é a alteração genética que tornaria nosso corpo capaz de prosperar nesse ambiente hostil. É aí que entra Rick Janssen e uma trupe de militares veteranos casca-grossa, prontos para passar por um tratamento e treinamento para que se tornem o próximo passo evolutivo na história dos Australopithecus.

A premissa é meio estapafúrdia – então tá, a gente dá umas injeção nos milico, coloca eles pra treinar em piscinas congelantes e eles viram super-homens – mas o filme é muitíssimo bem realizado e a história (e todo o processo de mutação genética) convence sem grandes esforços. A produção é muito bem feita, bem no estilo Netflix: poucos cenários, poucos atores, pouca grana muito bem gasta nos elementos certos e diverte desde o início. Sua duração (1h e 37min) é certinha do tamanho da nossa fome de entretenimento.

Depois de GoT, se não tiver nudez (neste caso ET peladão) não faz sucesso.

Não fosse o finalzão hollywoodiano com direito a bandeiras vermelho-branco-e-azuis tremulando e o próprio design do Frankenstein genético, meio deliberadamente alienígena demais pro meu gosto, poderia se tornar um daqueles guilty pleasures que a gente assiste com gosto comendo pipoca numa quinta-feira de noite. Ou talvez seja isso mesmo, um guilty pleasure, numa releitura de Mary Shelley da mesma maneira que Avatar é uma releitura de Pocahontas. Ambos com gente-mutante-azul-que-fala-por-fiozinhos-telepáticos. Eu me diverti e se você curte “môstro” azul, cientista maluco e futuro-desgraceira, pode ver sem medo, que é maneiro.

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