A Dark Horse é daquelas editoras de quadrinhos que vivem às sombras das gigantes Marvel e DC, com um modesto número de histórias de grande sucesso que certamente você já ouviu falar. Nesse grupo seleto encontramos pérolas como os adaptados para o cinema “Hellboy” – que em breve receberá um reboot – e “Sin City”, que já conta com 2 entradas, sendo o 1o longa algo estonteante. Correndo por fora no cenário audiovisual temos a estreia na NETFLIX dos badaladinhos das HQs, The Umbrella Academy. Contudo, já deixando bem claro para os xiitas de plantão, eu nunca li o material fonte e, logo, somente me basearei nos 10 episódios dessa 1a temporada para achincalhar a série. Qualquer questão sobre divergências com o original, favor expressar nos comentários para o nosso deleite e apreciação

Em 1º de outubro de 1989, o Espírito Santo estava bem ocupado, engravidando 43 mulheres ao redor do mundo (até onde sabemos), que deram a luz no mesmo dia em um evento que certamente teria levado a óbito mãe e filho. Eis que um milionário excêntrico, que descobriu tal onda de nascimentos peculiares, resolve comprar/adotar o máximo de crianças possível e treiná-las para combater o crime. Nesse esforço, ele consegue adotar 7, sendo que uma veio, supostamente, com defeito de fabricação, mostrando-se ordinária. Todos os outros 6 se tornam crianças super dotadas e portadoras de habilidades sem iguais. Nesse seleto grupo, um tanto caricato, temos Luther (Tom Hopper), o líder fortão responsável e altruísta, Allison (Emmy Raver-Lampman), uma famosa atriz que possui o poder da sugestão, Diego (David Castañeda), o latino esquentado, justiceiro que arremessa facas e que é o babaca da família, Ben (Justin H. Min), um fantasminha camarada, Klaus (Robert Sheehan), o viciado em drogas, alívio cômico, exagerado e que consegue ver e conversar com os mortos, Número 5 (Aidan Gallagher), que consegue saltar pelo espaço-tempo e, por fim, mas não menos importante, Vanya (Ellen Page), que não apresenta nada de especial.

Juntos eles formam The Umbrella Academy, uma espécie de X-Men Primeira Classe, mas liderados por seu pai Sir Reginald Hargreeves (Colm Feore), uma pessoa que, mesmo não tendo poderes psíquicos, ainda possui um enorme super-poder, talvez o mais poderoso que temos conhecimento, o dinheiro. Ajudando nessa empreitada, temos sua mãe robótica Grace (Jordan Claire Robbins) e a participação especial de algum símio do elenco dos “Planetas dos Macacos”, Pogo (Adam Godley). Quando Hargreeves morre, seus 5 filhos, cujos paradeiros são conhecidos, se reúnem para o funeral quando Número 5, desaparecido há 16 anos, surge de um portal em seu corpo de 13 anos com a bombástica notícia que o mundo vai acabar em 8 dias e que cabe a eles impedir isso. Só que nosso querido 5 não veio sozinho. A sua procura vieram os agentes Hazel (Cameron Britton) e Cha-Cha (Mary J. Blige), dando início a um jogo de gato e rato que se tornará a pedra angular da 1a Temporada da série.

O que poderia ser algo fenomenal, com os 2 primeiros episódios bem acima da média, vira um exercício de paciência com uma barriga grotescamente gigante. Entre o episódio 2 e o 7 muitos fillers esticam desnecessariamente a obra, largando eventualmente uma informação ou outra importante – embora o desfecho dessas peças colocadas lentamente na mesa compense parcialmente lá pelo final -, sendo que, de forma generosa, em 2 episódios daria para colocar tudo o que os 5 levaram para contar. E, por conta desse arrasto, evitar o fim do mundo parecia cada vez mais secundário, com a obra explorando acontecimentos batidos e relegando personagens que parecem interessantes, como Pogo, Grace, Ben e o namorado de Vanya, ao 2o plano.

Mesmo apresentando os 3 últimos episódios num ritmo mais acelerado, algumas revelações vão se mostrando mal construídas e deixam em evidência que o roteiro não foi concebido com o esmero necessário para a grandeza da obra. Sério mesmo que é assim que Hargreeves morre, Umbrella? E a questão estética, da qual a obra poderia se valer fortemente, vide a concepção artística do material fonte, não é lá nem cá. Os poucos bons momentos com ideias artísticas originais ocorrem nas raras aparições dos agentes em tiroteios, usando essas máscaras sensacionais da foto acima, ou com o Número 5 no melhor estilo Noturno (do X-Men) arregaçando com qualquer um que fique em seu caminho.

Aproveitando a menção, Hazel foi disparado o personagem mais cativante e que mais evoluiu, retratado de forma multidimensional e contando com a sólida performance de Cameron Britton. Ele é sem dúvida uma das melhores partes da série, com diálogos e relações que nos conectam com o mundo muito mais do que a ladainha entre os irmãos da Umbrella. Pra uma série focada na trupe, um antagonista criar mais empatia do que os supostos heróis mostra que o desenvolvimento deles deixou a desejar. Talvez apenas dois irmãos se destaquem nesse quesito. Klaus, em alguns momentos apenas, ou interagindo com Ben ou quando não está alterado quimicamente, e Número 5, com uma atuação firme de Aidan Gallagher retratando um senhor na casa dos seus 50 anos no corpo de um moleque de 13.

Embora o mundo de The Umbrella Academy tenha certa identidade, entretenha na maior parte do tempo e esteja ciente de si – com quadrinhos e colecionáveis aparecendo a todo momento – temos um resultado final que em seu início indicava algo promissor, mas que não andou na direção que apontava. Aguardamos ansiosamente por uma 2a Temporada com as outras 36 pessoas que nasceram no mesmo dia e que não foram adotadas. Pensando bem agora… como o mundo não está um caos com elas a solta? Quem leu os quadrinhos sabe me explicar?

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