Na década de 90, aquele que é o meu personagem favorito de quadrinhos e cinema de todos os tempos, o sujeito que moldou a minha personalidade e que me ensinou que o melhor da vida é esmagar seus inimigos, vê-los tremendo diante de si e ouvir o lamento de suas mulheres, Conan, foi alvo de duas grandes excrescências na forma de uma série de TV com o gigante alemão Ralf Moeller e um desenho bem meia boca que passava sei lá onde. O que havia de absurdo nessas duas obras – e que depois foi repetido no reboot do personagem nos cinemas estrelado por um então desconhecido Jason Momoa – era uma absoluta falta de conhecimento da essência do personagem e um desrespeito crasso a toda a mitologia criada por Robert E. Howard, sem dúvida no afã de capitalizar em cima do nome de um personagem conhecido para simplesmente fazer produções de aventura fantástica água com açúcar que pudessem ser passadas de tarde nos lares americanos.

Corta pra 2015, eu, no alto dos meus 34 anos, vertia uma lágrima quando Geralt of Rivia olhava para a câmera e se despedia de mim a luz do luar de Toussaint na cena derradeira de The Witcher 3, o melhor jogo que já joguei até hoje e que encerrava uma relação cultivada com esse personagem desde que o primeiro jogo saíra, em 2007. Nunca li os livros – em especial porque até pouco tempo atrás eles não estavam disponíveis no Brasil e eu sinceramente nem sei se estão hoje em dia -, mas li muito a respeito, li alguns capítulos e me aprofundei muito no jogo da CD Project Red, que é sem dúvida a mídia que popularizou a figura do bruxão, culminando com a coqueluche dos produtores de TV do mundo todo: uma série na Netflix.

Feito esse preâmbulo que talvez já te tenha feito parar de ler (e caso seja esse o seu caso, você pode ir tomar no meio do olho do seu cu), devo dizer que estava com um medo do caralho (usado aqui na verdadeira acepção da expressão, ou seja, um medo que tende ao infinito) de que cometessem com o Geraldão o mesmo absurdo que cometeram com Conan na década de 90. Mas, com o advento do streaming, da popularização das obras de fantasia desde “Senhor dos Anéis” (e passando, obviamente, por “Game of Thrones”) e do sucesso estrondoso de obras adultas com temáticas que antes ficariam relegadas ao âmbito infanto-juvenil (“Deadpool”, “Logan” e afins), alguém teve o bom senso de pegar a obra do polonês cujo nome sequer me atrevo a tentar escrever e transpor para as telas com muito, mas muito respeito mesmo, trazendo uma adaptação que, se não é fidelíssima ao original em termos de conteúdo (e isso jamais pode ser exigido de uma ADAPTAÇÃO), é inegavelmente reverente à essência de cada um dos personagens principais da saga de The Witcher.

Um dos meus medos era o elenco. À exceção do Superomão Henry Cavill, eu, que sou aquele chato pra caralho na festinha da família que sabe dizer o nome daquele “artista que trabalha muito” tão invocado pelas tias Brasil afora, não conhecia absolutamente ninguém. Isso me fez temer que eles gastariam tudo nas cenas de ação e contratariam atores em alguma casa de festa infantil. Mas, puta que o pariu, que decisão acertada a de dar aos personagens intérpretes desconhecidos, de modo que nós, espectadores, não levássemos nada conosco ao conhecer as pessoas retratadas na tela.

Outro grandíssimo acerto, e que poderia facilmente ter dado errado, foi a opção de contar a história por meio de três núcleos diferentes, em linhas temporais que vão ficando cada vez mais claras serem totalmente díspares. Isso contribui demais para a construção de todos os personagens, em especial o nosso querido Açougueiro de Blaviken e a estranhamente bela feiticeira Yennefer (Anya Chalotra, uma gratíssima supresa). Dá muito certo, mas, como costuma ocorrer com obras que enveredam por este caminho, também torna esta primeira temporada de The Witcher um tanto quanto irregular. O núcleo de Yennefer, por exemplo, tem momentos bons e ruins em igual medida, enquanto que o de Ciri (Freya Hall) enche um pouco o saco às vezes, ao passo que as cenas envolvendo Geralt são só alegria quase o tempo todo.

E muito disso é culpa de Cavill. Ele se declarou fã dos livros e dos jogos e talvez por isso mesmo não tenha querido se desvencilhar dos trejeitos e da voz da dublagem excepcional do jogo feita por de Doug Cockle, emulando aquela voz roufenha e rosnada, mas incrivelmente sem deixar de colocar sua própria assinatura nas falas. É algo de uma dificuldade tremenda e Cavill tirou de letra, conseguindo mostrar sua marca mesmo ao fazer o “hmm” característico de Geralt que eu e tantos milhões de outros fãs da franquia por aí ouvimos tantas milhares de vezes.

Ainda que os núcleos de Yennefer e Ciri sejam até mais relevantes para o desenrolar do arco geral da temporada, eles sofrem em comparação ao de Geralt, o que, convenhamos, era de se esperar. Muito disso ocorre também porque a história geral é um tanto quanto complicada de se acompanhar para os não-iniciados na saga The Witcher. Vários nomes e conceitos são jogados na tela sem qualquer explicação, o que vai fazer muita gente ficar boiando por boa parte da série. Curiosamente, as poucas coisas que são efetivamente explicadas o são de forma muito bem feita e orgânica, sem que seja necessário um narrador ou aquele arquétipo do velho/velha escroto/escrota que fica dando lição de história pro herói.

Dito tudo isso, o que interessa aqui mesmo e que vai sustentar essa série até sua temporada derradeira são a ação e todo o mundo que essa primeira temporada apresenta. Mais uma vez, a produção foi muito bem, já metendo o pé na porta logo no 1º episódio, em uma cena que retrata o momento que fez Geralt, o Lobo Branco, ganhar um de seus mais famosos epítetos: o Açougueiro de Blaviken. Cavill vai muito bem nas cenas de ação (dizem que ele não usou dublês nelas) e elas são coreografadas com maestria ao longo de toda a série, com ou sem Geralt. Aqui, inclusive, preciso parar para aplaudir a ação da série. Passei a vida toda criticando cenas de ação cheia de cortes, com câmera tremida e uma edição maluca. Em The Witcher, nada disso acontece. A cena a que me referi acima, inclusive, é toda filmada numa tomada só, num deslumbrante balé de violência desmedida.

A ação é forte, violenta e belíssima não só a serviço de si mesma, mas também como forma de ilustrar e desenvolver o mundo sujo, vil e igualmente violento onde a história é passada. O trabalho da direção de arte é de altíssimo nível, criando um mundo de fantasia medieval perfeitamente reconhecível ao mesmo tempo que traz sua própria marca. O mesmo não pode ser dito dos efeitos especiais, contudo. Em especial na animação dos monstros que Geralt enfrenta. Quando são usados efeitos práticos em criaturas humanoides, a coisa funciona muitíssimo bem. Mas quando opta-se por CGI, fica-se com a impressão de gráficos de PS3 em algumas oportunidades. E isso prejudica bastante a imersão nesse mundo que se mostra tão fascinante.

Enfim, sem entrar em maiores detalhes sobre a história para não dar spoilers a todos, a 1a temporada de The Witcher apresenta uma excelente série de aventura e dark/high fantasy, com muita ação, membros cortados e até mesmo um recém-nascido morto de forma explícita, coisa que eu acho que nunca vi em uma grande produção. Vai agradar tanto a pessoas que nunca nem ouviram falar de Geralt quanto os fãs dos jogos e dos livros, à exceção daqueles que são mais pau no cu do que o normal. Pode ser um tantinho confuso caso você não conheça nada desse mundo, mas talvez seja justamente o que você precisa para mergulhar de cabeça nele, sendo essa uma primeira temporada que mostra uma promessa enorme para as próximas.

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