Para começo de conversa e antes de falar qualquer coisa a respeito do filme e de seus realizadores, eu devo tranquilizá-los. Este é, de longe e sem qualquer discussão, o melhor filme do Thor de todos os tempos. Não que isso seja lá grandes merda, já que os dois filmes anteriores (em especial o 1º) são pavorosos. De todo modo, está aí a frase de efeito da resenha de hoje.

Quando a Marvel escalou Taika Waititi para dirigir este longa eu abri um sorriso enorme. Trata-se do ator, diretor e roteirista responsável por algumas das mais brilhantes comédias feitas nos últimos tempos das quais ninguém nunca ouviu falar, já que elas são, como o diretor, neozelandesas. É dele o lúdico e maravilhoso “A Incrível Aventura de Rick Baker” e o fantástico e hilário “O que Fazemos nas Sombras” (este, inclusive, disponível na Netflix e já indicado em nosso Garimpo Netflix: Vampiros). O que seus filmes têm em comum é um flerte mais do que descarado com a comédia e uma necessidade de se fazer piada com absolutamente tudo.

Hulk após o Mardi Gras em Nova Orleans.

E, convenhamos, estamos aqui falando de um universo absurdo, onde um sujeito toma uma bomba e fica enorme sem malhar, outro malandro é bombardeado com radiação e, ao invés de morrer, desenvolve uma segunda personalidade também bombada e, por fim, no qual a mitologia nórdica é toda explicada como que por aquele maluco do “Alienígenas do Passado”.

Ainda que a Marvel tenha sempre flertado com a comédia e feito seus filmes com bastante leveza, ela ainda não havia tido a coragem de fazer quase que uma paródia de si mesma, em especial quando se fala de um personagem estabelecido, amado e reconhecidíssimo como Thor. Acredito que, depois do sucesso dos dois filmes do Guardiões da Galáxia e do relativo fracasso dos dois primeiros Thor, a Marvel tenha simplesmente falado algo como “foda-se, vamos galhofar essa porra toda mesmo”.

E, puta que me o pariu, que maravilha que o tenham feito! E que maravilha também que tenham escolhido Waititi para isso.

‘Bruce! Você também por aqui nesse planeta no cu do universo!”

Thor: Ragnarok não é um filme de herói tradicional e isso é refrescante, já que se trata de um gênero que já está dando no saco. Estamos aqui diante da provavelmente mais cara comédia de todos os tempos e que por acaso tem uns heróis no meio saindo na porrada e explodindo coisas.

A história, que serve quase em nada para avançar a trama do famigerado Universo Cinemático Marvel (salvo por uma cena nos pós-créditos), é uma grande escada para que Thor (Chris Hemsworth) e Hulk/Bruce Banner (Mark Ruffalo) fiquem se zuando. Até Sir Anthony Hopkins é pego exclamando um pertinentíssimo “merda!” na pele de Odin quando Thor, voltando de uma auto-imposta e fracassada busca pelas Gemas do Infinito, chega a Asgard a tempo de ver Loki disfarçado de Odin assistindo uma peça em que o deus travesso é exaltado como o salvador de Asgard. O mais engraçado da tal peça é que Loki é interpretado por Matt Damon, Odin por Sam Neill (colaborador de longa data do diretor) e Thor por Luke Hemsworth, irmão de Chris, tudo de forma patética e exagerada e sem que nenhuma dessas estrelas seja creditada.

O Grão-Mestre.

Voltando à história, após uma engraçadíssima e épica cena inicial em que Thor derrota Surtur (um gigante que, segundo a mitologia, será um dos grandes artífices do Ragnarok), ele volta a Asgard apenas para encontrá-la com Heimdall (Idris Elba) foragido e Loki (Tom Hiddleston) sentado no trono ao personificar Odin, que está exilado na Terra. Eventualmente, os dois descobrem a existência de Hela (Cate Blanchett), a deusa da Morte, e aquela que vai trazer o Ragnarok sobre Asgard. Merda acontece, os irmãos Odinsson acabam no Planeta Sakaar e aí se inicia uma trama chupada diretamente do arco Planeta Hulk dos quadrinhos que vai envolver o Hulk, uma valquíria e os dois personagens mais engraçados do MCU até aqui: o lascivo Grão Mestre (Jeff Goldblum, genial) e o revolucionário gigante de pedra Korg (voz do próprio Taika Waititi).

Korg, o gigante de pedra stalinista.

Eles vão precisar então conseguir fugir desse planeta e voltar a Asgard, onde, agora, Hela governa. E é isso. Essa é a história.

Nada disso importa muito, entretanto. O que importa é Loki urrar de felicidade quando o Hulk faz com o Thor o mesmo que fizeram com ele no primeiro Vingadores, quando Thor interrompe o discurso épico de Surtur porque a corrente na qual está amarrado está girando-o fora do campo de visão do bicho e quando Thor fica constrangido ao ver Hulk saindo nu da banheira.

Cena arruinada pelo trailer.

Como já deve ter ficado bem óbvio aqui, a comédia é definitivamente o ponto alto deste filme, mas o roteiro em si peca em várias situações um tanto forçadas. Descobrimos, por exemplo, que Asgard é populada por uma meia dúzia de “deuses”, umas 500 pessoas e MAIS NINGUÉM. E isso se tratando de um “planeta” que havia conquistado outros 8 planetas anteriormente na base da porrada, conforme é estabelecido no próprio filme.

As cenas de ação também não são nada inspiradas quando não estão a serviço do riso. Há uma cena em que Hela parece imitar Neo naquele lamentável Matrix em que ele, interpretado por um bonecão do posto praticamente, deita na porrada dezenas de agentes Smith. Só que isso foi há 18 anos. Hoje é quase inaceitável.

Os Vingativos.

À exceção desta cena, os efeitos e toda a produção visual do filme estão no mesmo nível absurdo de excelência que as demais produções da Marvel e, aguardem, temos duas cenas no pós créditos. Aliás, isso meio que já deu no saco, né? O filme termina com a gente morrendo de vontade de mijar e tem que ficar lá esperando alguma cena irrelevante, mas engraçadinha. Desta vez pelo menos uma das cenas tem alguma relevância.

Thor: Ragnarok cumpre com louvor seu papel de entreter. Apesar de ter uma barriga ali pelo meio e uma trilha original bem genérica (ainda que use brilhantemente a antológica “Immigrant Song” do Led Zeppelin em duas ocasiões), é um filme divertidíssimo e que se destaca dentre os demais pelo seu alvissareiro tom de galhofa desmedida.

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