Sempre achei interessante como alguns de nossos pensamentos ganham uma forma utilitarista conforme algumas mudanças da vida. Explicarei. Até por que não quero aqui por em cheque valores e moral, longe de mim. No entanto, o inevitável conflito entre razão e emoção, por mais bem resolvido que você seja, vai aparecer aqui ou ali. Eu costumo parecer muito certa sobre a teoria de que tudo tem início, meio e fim. Inclusive relações. Não porei à prova sentimentos, que são muito mais abstratos. Mas as relações se inserem nesse esquema, que torna a nossa vida cíclica – e graçadeus, não? Afinal, há “entre-momentos” nesse ciclo que fazem a porra toda valer a pena.

Mas aí que vem o pulo do gato, o utilitarismo da parada: esse discurso vacila bastante quando eu, Larissa, entro em uma relação. Olhar para alguém por quem eu começo a nutrir amor e ter a certeza de que terá fim é duro. Não preciso de grandes justificativas pra isso… é apenas triste, em especial quando antecede qualquer problema que cause o fim.

Antônio (Johnny Massaro) é dos meus e se vê fodido da cabeça quando seu próprio relacionamento com Sofia (Bianca Comparato, que se mostra cada vez melhor atriz) chega a um fim. De início, o rapaz apenas repete para si mesmo que é isso que acontece e acabou. Não há muita reflexão e, é claro, as manifestações de tristeza e tudo mais acabam sendo canalizadas para seu físico; para sua produtividade; para seu dia a dia. Tudo sendo velado por ele mesmo, numa ação castradora de sentimentos: tá tudo bem, tá tudo ótimo, ué.

Te entendo, Antônio. Nessas circunstâncias, não tá tudo bem. Não tá tudo ótimo.

A grande sacada do filme é passar pelas etapas de um término amoroso com cuidado, sensibilidade e, por que não, também grosseria. A forma orgânica com que retrata tantos pensamentos que temos ao levar um pé na bunda é de se identificar. Primeiro, a total negação: “terminamos na boa, ainda somos amigos”. Isso é impossível, de imediato ao menos. A mentira é repetida de tal forma que por um tempo nós mesmos a compramos, o que dificulta ainda mais o processo de superação. No fim do dia, estamos fadados a encarar, ainda que por um fugaz momento, nossos próprios pensamentos, livres de apoio social ou distração. E é aí que a coisa fica feia.

A belíssima fotografia do filme, que bebeu acertadamente do estilo de “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” nestas passagens, transporta-nos para as memórias de Antônio. Memórias que acabam se mostrando como ferramentas de tortura medieval pelo grau de seletividade deveras injusto: é claro que só vamos lembrar do bom. Caímos na armadilha de revisitar nossos passados, que agora se misturam com dores, ficamos tal qual um espectador de uma peça. Contudo, esquecemo-nos que quem escreveu “o roteiro” dessa peça somos nós e, portanto, a narrativa é tendenciosa. Entra em conflito, mais uma vez, o que é real e o que é sentimento; até onde vamos nós e até quando podemos nos usar como fontes?

Memórias e seus convites tentadores à realidades distorcidas.

Outro ponto que me conquista no filme é a narrativa partir de um homem que, como tal, condiciona-se a alguns aprisionamentos emocionais peculiares impostos socialmente. Se por um lado estamos saturados, dentro de tantos filmes, de romances e dores no cotovelo “água com açúcar” ou clichês, por outro estamos também sedentos por inovação dentro de um assunto que é tão atual e sempre será: o amor. Quero que tal gênero seja levado mais a sério e seja mais acessível com o que de fato acontece. Colocando Antônio ali, um cara tão comum, chegando a ser inclusive um estereótipo de menino-classe-média-alternativozinho, e misturando com uma profundidade também existente, ainda que oculta, desse cara… tá aí, isso sim me interessa.

Preciso pontuar que, de maneira respeitosa, o filme coloca Antônio como o destaque sem dicotomizar a validade de Sofia. Ou seja, não cai no horroroso erro de que tem um filha da puta que terminou e tem outro que é um coitado. Relações humanas são muito, muito mais complexas do que isso.

Por fim, parafraseando Sting: “não estamos sozinhos em estar sozinhos”. Enquanto eu, aqui, posso tá remendando os destroços de um coração pós-término, você, aí, pode estar fazendo exatamente a mesma coisa e, ambos, mantendo isso no oculto. E apesar de termos todos os motivos para esquecer todo aquele “perverso” passado vivido, continuamos aqui, dedilhando entre as memórias de um amor que, talvez, não seja mesmo pra esquecer. Deixa eu falar uma parada: não é pra se superar mesmo não, é só pra desentristecer. E tudo bem. Mesmo.

Bianca Comparato: anotem esse nome.

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