Sempre quando um filme com apelo comercial considerável está para ser lançado, nós da diretoria do MetaFictions (eu, Gustavo e Rene) nos reunimos na pracinha para comer um podrão e discutir o que podemos fazer de especial na semana do lançamento do filme (mas na verdade é só uma desculpa para comer alimentos de proveniência duvidosa). Com Tomb Raider chegando às telas dos cinemas hoje, cogitamos fazer um Top 10 Filmes Adaptados de Videogames. Com menos de 5 minutos de discussão percebemos que não conseguiríamos fazer nem um Top 5 com bons filmes. Tirando talvez o “Silent Hill” e o “Warcraft“, que estão longe de ser excelentes, não conseguimos pensar em mais nada sequer indicável.

Esse, meus amigos, é o triste casamento dessas duas mídias. Caso você não seja um aficionado em games como eu e outros membros do Meta (para os mais íntimos), o inverso também é válido. São raríssimos os jogos baseados em filmes que são realmente bons, embora eles existam. Mas o que acontece com essa transposição de mídia que raramente dá certo?

Games atualmente são mídias, assim como o cinema, visuais completas. Toda a estrutura narrativa, roteiro, direção de arte, atuação, trilha sonora e até mesmo premiações nos mostram que a indústria dos videogames – que financeiramente já é maior que o cinema – está bem estabelecida e cresce em quantidade e qualidade a cada ano. Talvez um dos seus grandes diferenciais e fonte da ruína nessa transposição para as telonas esteja na duração e sua capacidade de não se esgotar uma vez terminado o jogo.

Quantas vezes você assiste mais de uma vez o mesmo filme? Aposto que isso ocorreu poucas vezes e SOMENTE em filmes muito bons, e, convenhamos, despender mais 2h de sua vida em algo que visualmente nada mudará, alterando apenas seu entendimento da película, não é um investimento muito grande. Já um jogo ainda consegue ser “rejogável” até quando ele não é maravilhoso e mesmo assim a narrativa pode sofrer alterações significativas. Somente por isso já fica muito difícil a adaptação.

O que mais pesa, certamente, é o tempo que um game tem para contar sua história. Para se ter uma ideia, um filme de 2h30min já pode ser considerado bem grande, já um jogo com 8h de história é considerado muito pequeno. Embora não exista um limite claro de horas de jogo para ser considerado grande, costumeiramente 20h é o que esperamos de um jogo de aventura. Isso sem contar os maravilhosos jogos de 50 e 100 horas (fora meu Borderlands, com MetaGames no site, com o qual passei 400h me divertindo e conhecendo personagens). Fica muito claro que muita coisa precisa ser jogada de lado, passada de relance ou substituída para se adaptar um jogo e aí começam os problemas. Praticamente todas essas horas de história são fundamentais e optar por qualquer uma dessas soluções representa uma perda irreparável.

E como Tomb Raider: A Origem, que adapta o mais recente reboot da franquia nos games (com 15h de duração em média), chegou aos cinemas? Já falo de antemão que esse é, na minha opinião, o melhor filme baseado em uma franquia de games já feito – o que quer dizer bem pouco sobre sua qualidade – e que triunfa onde muitos fracassam. Nesse longa conhecemos a Lara Croft, muito bem incorporada por Alicia Vikander, personagem que é uma mistura das habilidades bélicas do Rambo com o perfil arqueológico do Indiana Jones. Ela descobre um pergaminho de seu pai, desaparecido há 7 anos, com a localização da ilha onde está a sepultura da famigerada imperatriz japonesa Himiko. Cabe a ela encontrar essa ilha, lidar com um perigoso grupo secreto paramilitar e tomar providencias para que a sepultura não seja violada, evitando que o mundo venha a sofrer com as maldições nela contida.

Considerando o que era necessário para apresentar a história e os personagens, o longa fracassa miseravelmente nos dois primeiros atos. A história parece sem sabor e os personagens desmotivados e nada interessantes. Uma da poucas coisas que me agradou foi a incorporação de certos detalhes do jogo no filme de forma natural. Como entrar em um acampamento inimigo sem ser detectado e manusear o arco com precisão sem nenhuma flechada fantástica. No entanto, essa fidelidade ao jogo causou certo desconforto quando vemos Lara saltando distâncias que seriam recordes olímpicos e escalando penhascos como se fosse uma cabra montesa. E tem uma cena de afogamento que puta que me pariu…

Apesar de tudo isso não contribuir positivamente para o total da obra, temos um terceiro ato – que é onde os filmes do gênero costumam cagar violentamente – realmente bom. A escolha feita pelos roteiristas para amarrar certas questões que ficariam muito mal explicadas caso o caminho do jogo fosse seguido foi agradabilíssima de assistir. Sempre que se muda algo em uma adaptação os responsáveis assumem o risco de desagradar os fãs mais hardcore do material original – e exemplos de mudanças grotescas não faltam nessas adaptações -, mas se funcionou, para de reclamar, né?

E é com esse gostinho bom no final do filme que saí do cinema. Talvez não seja um bom filme considerando o todo, mas, após rolarem os créditos, fica aquela sensação de se ter visto algo decente. Olhando em retrospecto ao histórico de adaptações desse maravilhoso mundo gamer, pergunto a vocês: os jogos são adaptações piores do que as adaptações dos animes?

A resposta é difícil…

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