Omertà é um código de honra da máfia italiana, a mais conhecida e poderosa dentre todas, chamada Cosa Nostra. Todo aquele que adentra para essa família faz o juramento, no qual promete pela vida jamais quebrar o silêncio referente à organização. O rito é assinado através de um corte na mão e despejado sobre uma imagem de um santo que, após queimado, ilustra o sacrifício futuro caso o código não seja respeitado. A Cosa Nostra era temida. Controlava comércios ilegais pelo mundo. Mas um de seus membros fora responsável por aprisionar mais de 500 pessoas. Seu pecado? A quebra da Omertà. O pecado deles? Atacar deliberadamente seus entes queridos. Seu nome? Tommaso Buscetta.

O documentário escrito e dirigido por Mark Franchetti e Andrew Meier começa a traçar o perfil do conhecido mafioso Tommaso Buscetta, que passou a ser alvo de sua própria organização criminosa. De início, após a introdução da Omertà, os diretores nos colocam em contato direto, sem filtros, sem esconderijos, com a terceira e derradeira mulher de Buscetta: a brasileira Maria Cristina. Desde seu primeiro encontro com o temido e misterioso italiano, nas praias de Copacabana, até seus momentos mais atuais de viúva, o foco da narrativa é sempre Tommaso em suas relações com a Cosa Nostra, com a deliberada cooperação com os governos americano e italiano (na tentativa de desmantelar a Máfia) e em seus momentos familiares mais íntimos. O que estamos a contemplar, acima de tudo, não é um filme sobre crime, sobre um criminoso ou sobre uma investigação governamental. Estamos de frente para a encarnação da dualidade humana: aquele que porta a centelha divina é o mesmo que, em sua natureza mais crua, se assemelha ao diabo.

Os tons de Tommaso.

O cuidado dos cineastas em não tomar partido é evidente. Não há escolhas de lado. Condenar Tommaso poderia sugerir um discurso condescendente aos mafiosos, já que ele deixou essa vida como um traidor sem precedentes. Absolvê-lo, porém, seria legitimar uma figura controversa e com uma ficha criminal recheada de pecados e ações hediondas. A decisão narrativa dos realizadores foi mostrar um lado desconhecido do público em geral sobre este homem que gerou ódio de todo e qualquer lugar: seja por parte de seus antigos companheiros de crime, seja por parte dos familiares de vítimas inocentes, que serviram no jogo de poder controlado por Buscetta. Esses seus atos são abordados pelo longa, mas o que se evidencia nas sequências que completam o título de cerca de 1h40min é o foro íntimo do mafioso.

Desde o modo de agir com os filhos, na voz de dois deles, deixando-se levar pela diferença no tratamento (talvez pelo apego maior ao caçula se dever pelo fato de ter sido o único da prole que Tommaso viu nascer e com quem efetivamente conviveu) até a rotina louca de uma família de um mafioso, cujo segredo é escondido pelos pais ao máximo: tudo é abordado com determinada delicadeza pela dupla de diretores. “Não chegávamos da escola, fazíamos a lição de casa e nos preparávamos para o dia seguinte. Várias vezes, no meio da noite, tínhamos que sair correndo para mudar de cidade ou país”, desabafa a filha. A forma como todos ali foram afetados por esse estilo de vida do progenitor também é colocada para o próprio: os familiares identificam como ele foi se tornando mais obscuro e mais introspectivo ao longo da jornada que o marcava, cada vez mais, como o “rato” da Cosa Nostra. Mas, em trechos lidos, também somos inteirados acerca de sua decisão: “Se tinham alguma conta a acertar comigo, porque não simplesmente tiraram a minha vida? Por qual motivo me fizeram viver como um traidor? Foi por terem eliminado vários dos meus entes queridos que decidi cooperar com o Estado”, expõe Tommaso em uma comunicação eternizada. Tal qual o oroboro que costumo citar, a máfia atacava a si própria ao tentar destruir Buscetta, na mesma medida em que ele se fragmentava ao tentar conter os avanços de sua ex-“família”. A máfia sendo o macrocosmo dessa lógica e Tommaso Buscetta a própria representação dela em um modelo de microcosmo.

Fragmentos de uma família.

Para além da história por si só interessante de um mafioso a quebrar a OmertàTommaso Buscetta, o Nosso Mafioso é um filme que se qualifica pelo modo em que narra a história íntima de uma figura pública detestada por “gregos e troianos”. Indo aos lugares mais íntimos e mais frágeis de seu ser, pela voz daqueles que mais amou, o documentário é a clara ilustração de que nada na vida é passível de um único julgamento; de que ninguém é puramente bom ou ruim; e de que, por conclusão, todos somos, a um só tempo, santos e pecadores.

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