“Nem tudo que é bonito vai te fazer bem quando te tocar”
. Ninguém no mundo entendeu tanto de moda quanto Coco Chanel. E a frase que abre este texto mostra que Madame conhecia tão profundamente este universo que era capaz de perceber, inclusive, os perigos que o belo arrebata. Chanel sabia do que falava, tal como Paul Thomas Anderson provou saber também em sua mais nova produção, Trama Fantasma, situada no universo da moda.

Nos anos 50, Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis, nome que em si já é sinônimo de atuação irrepreensível) brilha como o maior estilista da Inglaterra, vestindo a nobreza, artistas e socialites. Misantropo, ele tem sua vida protegida e organizada pela irmã, Ciryll (Lesley Manville). Em busca de inspiração para suas criações, Woodcock (esse sobrenome é hilário) encontra musas, mulheres que passam por sua vida e são descartadas assim que o brilho do gênio se evanesce. Até o surgimento de Alma (Vicky Krieps), uma garçonete que mostrará ao poderoso couturier que no amor e na beleza as coisas podem ser imprevisíveis.

Paul Thomas Anderson é um dos mais poderosos cineastas de nossos tempos. “Magnólia” (1999)  é simplesmente uma das maiores obras-primas do cinema moderno. “Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997) é um filme que no futuro nos arrependeremos de não ter percebido o quão genial foi à época do seu lançamento. Talvez o maior trunfo de Mr. Anderson seja a sua capacidade de surpreender o espectador. Seus filmes nunca são uma coisa só. Talvez uma palavra que ajude a definir e que certamente incorpora a sua cinematografia seja palimpsesto, um texto que se esconde por baixo de um outro texto. Como roteirista e diretor, PTA é um arquiteto que trama profundas camadas de significação em suas obras.

É o que se dá nessa Trama Fantasma. Ele é um filme de filmes. Lá está a narrativa tradicional, um filme sobre um personagem singular. Mas, debaixo desse verniz narrativo, encontram-se também um suspense muito bem construído, uma reflexão poderosa sobre a beleza, um assustador thriller psicológico e altas doses de ironia e humor negro. Suas seis indicações ao Oscar (filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, trilha sonora e a óbvia indicação de figurino) são extremamente merecidas e reveladoras.

Nos aspectos mais técnicos, a excelência impera. Atuando como seu próprio diretor de fotografia, Anderson constrói texturas e ângulos de câmera inusitados e extremamente bonitos, ao mesmo tempo que desafiadores ao olhar. A primeira cena, mostrando costureiras subindo uma escadaria, é uma das sequências mais esteticamente bem-sucedidas da temporada.

Outro destaque é a trilha, assinada por Jonny Greenwood. A música do filme soa insolente, invadindo momentos nos quais ou não se esperava uma intervenção musical ou, pelo menos, não daquela maneira. Só que o resultado é maravilhoso. Aliás, todo o trabalho de som é desafiador. Há cenas que amplificam os sons mais prosaicos, como o passar manteiga numa torrada, com resultados narrativos muito poderosos. Da mesma forma, os figurinos de Mark Bridges cumprem um papel além do tradicional, são narrativos, quase personagens.

O leitor MetaFictions que acompanha os meus textos sabe que sou um pouquinho obcecado com o ritmo dos filmes. Pois bem, esse aqui mexeu com meu coraçãozinho, me provocou. A edição e o roteiro constroem um ritmo propositalmente vacilante, o filme acelera e recua, se agita e se acalma. O resultado é um “incômodo prazeroso”, se me permitem um paradoxo.

No campo das atuações, Daniel Day-Lewis mostra, mais uma vez, porque é a Meryl Streep dos homens. Que atorzão da porra! Se este for, como ele ameaça ser, seu último filme, a despedida se deu no auge. Impecável em cada milissegundo em que aparece na tela. Tudo nele atua, tudo tem função, cada gesto, cada olhar, cada respirada. E ele encontra seu contraponto ideal em Lesley Manville. Onde esta mulher estava escondida? Olhando o IMDB descubro que seu filme mais famoso foi “Malévola” (2014), no qual ela interpretou uma das fadinhas, além de ser mais conhecida como a ex-mulher de Gary Oldman. Aiai, o desperdício… Aqui, com uma personagem à sua altura, esta inglesa mostra o que é ser uma atriz capaz de fazer cenas nas quais sua personagem intimida um personagem feito por Mr. Day-Lewis. Bravo, bravo, bravíssimo! Infelizmente Vicky Krieps, como a protagonista Alma, não consegue ombrear o tempo todo com seus parceiros de cena. Em alguns momentos, sua performance soa um pouco perdida, oscilando entre episódios de brilho e episódios de simples trabalho adequado.

Numa cena do filme, Woodcock diz que, desde menino, começou a esconder coisas nas bainhas das roupas, segredos. Trama Fantasma é uma produção que desafia o espectador a revirar as bainhas. Não é um filme fácil, mas é delicioso.

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