Na época de seu lançamento, em 2016, a premissa inicial da série Travelers, que chega à sua terceira temporada na Netflix essa semana, me pareceu interessante, apesar de não exatamente inédita: no futuro a humanidade conseguiu fuder a porra toda e pouco antes de chegar à sua total extinção a ciência consegue descobrir a viagem no tempo e manda um grupo de viajantes para tentar mudar, no séclo XXI, o evento que leva ao fim da nossa civilização. Como fã de Sci-Fi, tarado por “De Volta para o Futuro” e “Exterminador do Futuro” (e praticamente qualquer coisa com “futuro” no título vergonhosamente traduzido pro nosso Português – agradeço aos deuses da cinematografia por terem permitido que o título dessa série permanecesse sem tradução), tive que maratonar a primeira temporada. E depois a segunda e, por que não essa terceira?

Eric McCormack, MacKenzie Porter, Reilly Dolman, Jared Abrahamson, and Nesta Cooper in Travelers (2016)

Pra quem nunca assistiu às temporadas anterioes, vou tentar manter os spoilers no mínimo, mas não garanto, combinado? 

Somos apresentados ao grupo liderado pelo viajante 3468, que tem sua consciência transplantada do futuro para o corpo do agente Grant MacLaren, do FBI (lógico!), pouco antes de ele historicamente morrer. MacLaren rapidamente reune seu time formado por Marcy, Carly, Trevor e Philip – todos eles consciências transferidas do futuro para hospedeiros no século XXI poucos segundos antes de suas mortes originais e é exatamente nesse ponto que a série me cativou. Em vez de mandar um corpo do futuro através de uma máquina do tempo, o que hoje em dia parece datado, apenas a consciência do viajante realiza a viagem e ocupa um corpo hospedeiro. Na era de avatares e video games, tal idéia nos é bastante familiar.

Eric McCormack and Arnold Pinnock in Travelers (2016)

Cada membro do grupo é um especialista – MacLaren é um líder tático militar, Marcy uma médica, Carly uma soldado, Trevor um engenheiro e Philip um historiador. Não apenas cada membro do time passa a ser bastante bem explorado dentro da narrativa do Grande Plano (que é salvar a humanidade), mas cada corpo hospedeiro tinha uma história pessoal anterior à sua morte natural. Uma vez que tal morte é impedida pela chegada do viajante, este deve prosseguir fingindo-se tal pessoa – aquele papo de nenhum civil desconfiar que há algo estranho acontecendo – e a maneira como cada uma dessas histórias interfere com a missão torna a série ainda mais interessante.

Na primeira temporada o gurpo precisa impedir a queda de um meteoro que destruirá boa parte do planeta, levando a humanidade a entrar em guerra pelos recursos naturais restantes e aniquilando o resto da civilização. Descobrimos que há outros Viajantes já infiltrados no século XXI e que tal missão vem sendo plenejada há anos. A temporada transcorre tranquilamente e cada episódio revela mais um pouco sobre o futuro, sobre o tal plano e sobre a vida dos personagens, tanto enquanto Viajantes quanto a de seus hospedeiros, explorando a maneira como a nova consciência interfere nas relações de tais pessoas e a dificuldade que um viajante do futuro teria para se adaptar à maneira de viver de um ser humano do nosso tempo.

Eric McCormack, Jared Abrahamson, and Nesta Cooper in Travelers (2016)

A segunda temporada nos apresenta a um personagem novo: O Viajante 001. O primeiro do programa a vir ao passado para dar início à missão. A temporada introduz elementos interesantes, brincando com paradoxos temporais e elaborando ainda mais a estrutura – quase uma sociedade paralela – criada pelos Viajantes desde sua chegada em nosso tempo, bem como aprofundando como a repentina mudança de comportamento dos hospedeiros interfere em suas relações pessoais. Há alguns momentos interessantíssimos e o excelente sétimo episódio que foca quase que inteiramente no papel de um personagem coadjuvante para salvar os eventos futoros. No entanto as idas e vindas, as reviravoltas rocambolescas levam a um estranho season finale, com uma sensação de que haverá muito a ser explicado no ano seguinte.

Melissa Roxburgh in Travelers (2016)

Começamos a terceira temporada onde a anterior termina, em uma tentativa de aparar arestas, desfazer certas cagadas que ficaram no ar e recolocar a série nos trilhos, dando destaque a um novo desafio – A Facção. Um grupo de revoltosos que, no futuro, luta contra o status quo que instaurou o programa de viajantes. A tal Facção começa a interferir com O Grande Plano, levando o grupo de MacLaren ao limite de suas capacidades. Há, claro, uma boa quantidade de rocambole narativo, flashbacks pra explicar ganchos deixados em aberto nas temporadas anteriores, e ao menos dois episódios abusam dos manjados deus ex machina, salvando os heróis com alguma intervenção milagrosa do futuro.

Apesar disso tudo, a temporada é divertida e o desenvolvimento dos personagens é muito bem escrito, em especial o maior espaço dado a David Mailer, o adorável namorado de Marcy que se torna um dos pontos chave de toda a temporada. Aliás, o passado dos hospedeiros, seus relacionamentos e o contraste entre as personalidades do Viajante e a do hospedeiro tornam-se vitais pro desenvolvimento da história, focando muito mais no lado humano que no tecnologico/futuristico. Talvez o mais interessante, ao menos pra mim, seja o retorno de um elemento da primeira temporada e que é deixado de lado em grande parte da segunda: o esplendor que os Viajantes do futuro sentem ao ver como o planeta terra era no passado, antes de sua destruição. A fotografia passa a explorar a luz, o céu, elementos naturais, o texto refere-se ao sabor da água limpa ou da comida fresca, exibindo-nos, como se pela primeira vez, tudo aquilo que ganhamos de mãos beijadas ao nascermos e que desprezamos por boa parte de nossas vidas em troca de iPhones e TVs de alta definição. Para os Viajantes do futuro, por vezes um só dia sob o céu azul é recompensa o bastante por seu sacrificio.

Eric McCormack, Patrick Gilmore, MacKenzie Porter, Reilly Dolman, Jared Abrahamson, and Nesta Cooper in Travelers (2016)

A mensagem é bonita, o ritmo acelera e o fim da temporada é desses de nos deixar na beirada do sofá. Quando os créditos rolam, a season finale deixa ares de final de série, concluindo os eventos de forma agradável (ou aceitável) e deixando em aberto apenas o bastante para que nossa imaginação especule sobre “o que vem depois?” e indaguemos se de fato haverá uma quarta temporada. Esta ainda não foi confirmada e a Netflix aguarda os números dessa que acabou de ser lançada. Curiosamente o fim foi tão bem amarrado que, caso seja esse, de fato, O Fim, seria digno. Caso a quarta temporada venha, então os escritores têm nas mãos um prato cheio e uma grande responsabilidade pois, da mesma forma que a próxima temporada pode ser excelente, também tem o potencial de nos deixar com aquele gosto de “poderia ter parado na anterior”. O futuro nos dirá.

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