A série produzida pela HBO, True Detective, foi revestida em todos os seus oito episódios por questionamentos existenciais e filosóficos, na maioria das vezes na forma de problemas e questões levantadas pelo detetive Rust Cohle. O título da série, que reivindica o ideal da verdade do detetive, é um indicativo do próprio problema da Verdade. O detetive Rust Cohle, um personagem cético em relação à vida, ao mundo e suas idiossincrasias, atua como detetive durante as 24 horas do seu dia, buscando aquilo que compreende como verdade pelo uso da lógica, razão, conhecimentos científicos e filosóficos.

E não só no que diz respeito ao seu trabalho de averiguar crimes e circunstâncias criminosas, mas criando um duplo de sua técnica de detetive nos próprios problemas da vida. Devir filósofo de Rust Cohle? Não me interessa saber aqui e nem justificar a causa de seu ceticismo; se foi a perda da filha, da esposa, o cansaço oriundo do trabalho, ou uma propensão de berço para mudar sua posição mediante as evidências dos fatos. Ora, e não seria exatamente isto o ceticismo? Não seria a capacidade de se manter distância de “verdades” forjadas sem qualquer tipo de averiguação e ao mesmo tempo mudar sua visão quando as evidências são apresentadas? Durante os 8 episódios, o ceticismo é a linha que conduz o personagem ao longo de toda série. Em um dos capítulos, ele se auto define, em termos filosóficos, como pessimista. Esta definição emerge da relação de suas perspectivas com as pessoas e o meio convencional e conservador da cidade em que se passa a série. Cohle não me parece ser um pessimista, e se o for, é no mínimo um pessimista alegre, ao passo que seu parceiro Marty Hart seria um otimista triste. A Verdade deve ser isenta de valorações do tipo pessimista ou otimista, pois a Verdade é o que é. Assim age o cético. Não buscando e forjando aquilo que melhor se enquadra em suas idealizações de mundo, mas desnudando o mundo e mostrando o que ele é, afirmando-o com todas as suas forças. Um cético sempre está propenso a mudar sua perspectiva de mundo mediante a averiguação, experimentação e respostas dadas pela própria realidade. Eis que chegamos ao problema da série. Cohle mantém-se cético até o derradeiro momento, o momento em que ele se encontra com a escuridão na forma de um homem peculiar que devota seu tempo e existência à prática do satanismo. Ou, se quiserem uma abordagem ainda mais psicológica e cética, Cohle se encontra com um homem que abraça a escuridão que existe em si mesmo e usa o satanismo como justificativa para suas ações. Não queremos algo porque esse algo é bom, mas julgamos algo bom porque o queremos. Tudo recai no problema do desejo, da vontade. Criamos as mais sofisticadas justificativas, quando na realidade a verdade está alhures.

É a vontade que cria as verdades e as valorações. Qual seria então a Verdade de Cohle?? Ao enfrentar aquela figura peculiar que é, no sentido moral, pura trevas, Cohle experimenta ser a oposição, a diferença, o contrário da figura peculiar do serial killer; ele se vê como a Luz, que ao surgir carrega consigo a escuridão, ele encarna o ideal do herói segundo a moralidade judaico-cristã. E é então que seu ceticismo se esvai como a água que some num ralo aberto. Pois a luz não pode existir sem a escuridão e nem a escuridão pode existir sem a luz. Retire uma, e a outra perde o sentido. Pense por apenas 1 segundo se os termos Luz e Escuridão fazem sentido sem que estejam intimamente ligados. Algo jaz em escuridão pela ausência de luz, e a luz só pode exercer sua função mediante a escuridão. Após a morte do serial killer, Cohle experimenta uma nova sensação, a sensação de que não estamos sós no Universo, de que há outra coisa mais. De qualquer forma, é apenas uma sensação. Porém, seu ceticismo se esvai quando ele abraça essa sensação como Verdade. No diálogo derradeiro de toda a série, Cohle e seu parceiro olham pro céu da noite, coberto por estrelas e escuridão. É então que ele propõe o grande problema. De que tudo se trata de uma única batalha, Luz X Escuridão. Seu amigo argumenta que ao olhar pro céu, ele vê uma vantagem da escuridão em relação à Luz. Ao que Cohle responde: “Você está errado, no início só havia a escuridão, e as estrelas (luz) surgiram levando parte da escuridão embora.

A meu ver, a Luz está vencendo”. Argumento cosmológico. Se tivesse levado seu ceticismo às últimas conseqüências, Cohle teria concluído que não se trata de uma batalha, mas sim de uma relação de duas forças que não são mutuamente exclusivas, forças que são vetores de algo ainda muito maior, o devir, a transformação. Para o universo, só há a transformação, pois o mesmo nunca permaneceu o mesmo em nenhum nanossegundo de sua existência. Para isso, ele precisa fazer uso da criação e da destruição, ou se quiserem, da luz e da escuridão. Se lá eu estivesse, gostaria de ter dito ao Cohle as seguintes palavras: “ Muito bem, Cohle. Bravo. Você só se esqueceu do fator tempo. É verdade que as estrelas surgiram levando parte da escuridão. Mas chegará o tempo em que não haverá mais nenhuma estrela no universo gerando Luz.

Todas se apagarão por falta de combustível. Teria então a escuridão vencido? Não, só o Universo experimenta a vitória, e esta vitória é a transformação, o devir. Tudo o que está no tempo muda; o universo muda pois o próprio é tempo, espaço e energia. E com relação ao problema Nietzscheano do eterno retorno, ou tempo plano circular, posso dizer que entendestes mal Nietzsche. Nietzsche não diz que as coisas se repetem eternamente da mesma forma, do mesmo jeito. O eterno retorno é o retorno da diferença, e não do mesmo. Podemos amar várias vezes ao longo de nossas vidas, mas nunca será o mesmo amor, pois não é o amor que retorna, mas sim a diferença desse amor.” Ceticismo é o caminho para a liberdade. Afastem-se de homens que dizem terem encontrado a Verdade, e aproximem-se daqueles que a procuram. A verdade é a faísca que surge quando duas espadas batem uma na outra. Nem Luz e nem escuridão, mas sim afirmação do Devir. Em pleno século XXI, reivindicamos não a negação da escuridão ou mesmo da luz, mas sim a Afirmação dos dois, para logo depois nos depararmos com algo ainda maior, a afirmação do Devir, da Transformação e do próprio tempo.

por Leonardo da Cunha

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