Quando vi anúncio da mais nova série original Netflix, Ultravioleta, eu fiquei bem intrigado. Parecia se tratar de mais uma série policialesca num universo já povoadíssimo por elas, mas esta apresentava a promessa de ser algo mais, diferente, somente pelo fato de ser polonesa. Não é todo dia que temos acesso no Brasil a uma obra televisiva e serial de um país do leste europeu e isto por si só era algo que prometia algo novo, mesmo em um gênero tão formulaico e batido quanto o policial.

Bastaram dois episódios para que eu percebesse que toda essa promessa é jogada no ralo. Ultravioleta é um seriado extremamente formulaico e genérico, uma obra que segue os mesmo clichês e lugares comum de todos os “Law and Order” e “CSI” da vida. Nem mesmo a fotografia, diálogos ou locações apresentam algo novo. Mesmo sendo ambientada em Lodz, a 3a maior cidade da Polônia, o espectador fica com a sensação de que poderia ter sido em qualquer outra cidade americana não fossem os atores grunhindo seu polonês materno o tempo todo. Tudo é limpo, hermético, bonito e produzido demais, dos cenários aos figurinos. A direção e as atuações são burocráticas, com raros momentos de “algo mais” e o roteiro segue aquela mesma formuleta de seriados episódicos, ou seja, aqueles em que cada novo capítulo é uma história que nada tem a ver com o anterior – com a exceção dos dois últimos capítulos.

Contudo, mesmo com essas ressalvas e dentro dessa realidade absolutamente derivativa e genérica, Ultravioleta funciona ao apresentar tudo que se espera de uma obra deste tipo e provavelmente agradará aqueles que ainda assistem “Law and Order” e as muitas encarnações da franquia “CSI” com gosto. Estão lá o chefe de polícia turrão, a investigadora meio mulher-macho, o detetive bonitão, o asiático (sim, tem chinês na Polônia também) bom de tecnologia e a protagonista chata para um cacete que fica metendo o bedelho no assunto dos outros e dando pano para manga para que a série exista.

O que há aqui de diferente é uma tentativa de fazer algo mais “modernoso”, com uma trama que envolve pessoas usando a internet como se fosse uma espécie de bola de cristal que os ajuda a resolver crimes. E, onde há internet e modernidade, há pessoas falando por videochamadas em lugares remotos com um 4G no talo, há várias telas na mesma tomada mostrando videoconferências no celular, linhas de chat e redes sociais, enfim, todos os lugares comum já esperados.

Ultravioleta é o nome de uma espécie de rede social de detetives amadores que inicialmente parece ser enorme, mas com o desenrolar da história parece ter apenas 5 pessoas. Ola (Marta Nieradkiewicz) é a pior motorista de Uber do mundo e testemunha um aparente suicídio que ela entende ser um assassinato. Devido ao pouco caso das autoridades e do detetive galã Michal (Sebastian Fabijanski), ela resolve, meio que a troco de porra nenhuma, investigar aquele caso, que nada tem a ver com ela, por conta própria. É aí que ela conhece a tal rede social e passa a colaborar com eles em histórias diferentes a cada capítulo.

Todos os episódios seguem sempre a mesma fórmula dos consagrados seriados americanos do gênero. Acontece alguma coisa antes dos créditos que nos diz qual vai ser a investigação, Ola de alguma forma (muitas vezes bem forçadas) se envolve com aquilo e os Ultravioletas entram em ação – às vezes agindo para ajudar a polícia em colaborações que são realmente inacreditáveis e às vezes indo por conta própria. Em um primeiro momento suspeita-se de uma coisa e logo depois descobrem que não é bem aquilo, partindo então para pegar o verdadeiro culpado. Clássico. E funciona. Em especial se você não maratonar a série, o que certamente fará com que ela se torne um porre imediato por causa da repetição.

Ainda que haja um arremedo de fio condutor na história da temporada toda na forma do desenvolvimento dos personagens e não da trama, o que também é algo copiado das séries consagradas do gênero, o foco aqui está mesmo nos casos apresentados a cada episódio e em como eles serão desvendados pelos Ultravioletas. Ficam como destaque o 3º episódio – que lida com questões raciais, fascistoides e anti-imigração que não só é atual como também apresenta as melhores atuações de toda a temporada – e o os dois episódios finais, que seguem ambos uma mesma investigação muito bem desenvolvida pelos roteiristas.

Contando ainda com uma direção e edição ágeis, o que deixa a coisa toda ainda mais idêntica aos seriados americanos, Ultravioleta é mais do mesmo mas com um toque de modernidade pelo uso das redes sociais e do fato da protagonista trabalhar como Uber. E isso não é necessariamente algo ruim.

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