Setembro de 2020. Uma rede brasileira de lojas abre um processo de trainee exclusivo para jovens negros. Nas redes sociais, um grupo barulhento vocifera que o tal processo seletivo é discriminatório e que “queria ver a reação se fosse o contrário, um processo só pra brancos”. Acho que eles não têm prestado atenção nos quadros de funcionários em altos cargos ou nas vagas mais cobiçadas de estágio. Já é assim, pessoas, não precisa imaginar. Estupefato, reconheço entre os que vociferam alguns “amigos” que, poucas semanas atrás, postavam que “Black Lives Matter” ou trocaram suas fotos no Instagram por quadrados negros. São poucos, mas os vejo. Sem nenhuma estupefação, constato, também, que todos os que postaram “todas as vidas importam, não somente as negras” fazem parte dos raivosos tonitruantes.

Los Angeles, 16 de março de 1991. Latasha Harlins é, aos 15 anos de idade, uma jovem preta cheia de sonhos e atitude. Ao entrar em uma loja de conveniência para comprar um suco de laranja de US$ 1,79, ela foi morta a tiros pela dona do estabelecimento que, falsamente, a acusou de estar roubando a bebida. Entre os dedos de seu cadáver uma nota de dois dólares que seria usada para pagar a compra. Condenada pelo homicídio, Soon Ja Du, a assassina, não cumpriu um só dia de cadeia. Sua pena consistiu em 5 anos de liberdade condicional, 400 horas de serviço comunitário e uma reparação de 500 dólares. A morte da adolescente gerou uma série de protestos e deixou ainda mais à mostra as entranhas do racismo nos Estados Unidos.

Agora na Netflix esta história volta a ressoar no belo documentário em curta-metragem Uma Canção para Latasha, de Sophia Nahli Allison. Através das memórias de sua melhor amiga e de sua prima, a produção apresenta, em seus 19 minutos, não só a vida que foi, mas, também, a vida que poderia ter sido se a violência e o racismo não tivessem cruzado a vida da garota que, anos antes, havia perdido a mãe baleada em uma boate e que, vivendo com a avó e os primos, sonhava em um dia se tornar advogada e mudar a sua realidade e a realidade que a circundava.

O mais interessante no trabalho da diretora é a escolha pelo hibridismo que a narrativa toma. Há uma brilhante dissociação estética entre o que ouvimos e as imagens. Enquanto o som nos soca o estômago com a crueza do relato e a dor das lembranças daqueles que conviveram com Latasha e ainda sofrem com sua ausência, as imagens são poéticas, fluidas, como se transportassem o espectador para um ambiente onírico. Nossos ouvidos são atacados pela realidade, nossos olhos são preenchidos por poesia. É lindo. É doloroso.

Nessa jornada ousada e experimental, os elementos formadores do tecido fílmico se unem para arquitetar uma recepção diferente da qual o espectador mais tradicional do gênero está acostumado. Assim, a fotografia fluida e poética se trança em uma edição quase “líquida” e que também não foge do efeito poético. Há que se destacar o forte efeito causado por todas as instâncias sonoras do curta, que criam um perfeito exemplo do que poderíamos chamar de desenho de som, desde a forma como as falas são captadas à trilha sonora, estabelecendo uma construção quase que sonoro-arquitetônica.

Também é preciso destacar o mérito da Netflix em trazer para o streaming um tipo de produção a qual, normalmente, só teriam acesso os frequentadores de festivais. Documentário. Curta-metragem. Experimental. Tente usar essas três expressões para um distribuidor de filmes para cinemas de shopping e espere a resposta ao seu pitch. Espere eternamente.

Uma Canção para Latasha dói e encanta. São menos de 20 minutos dos quais não se sai ileso. E nos faz sonhar e ter vontade de lutar por um mundo no qual jovens negros possam se tornar advogados, trainees de grandes empresas e muitas outras coisas diferentes de corpos cravejados de balas, vidas não cumpridas, ausências e lembranças.

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