Como já falei no nosso Garimpo Netflix: Hip-Hop, eu tive a sorte de nascer na mesma família que Raphael Moreira, uma sumidade em toda as coisas hip-hop, e tenho o privilégio de ter um laço de amizade com ele que vai muito além do sangue. O Raphael foi vital para meu entendimento desta primeira temporada de Unsolved, que foca nos assassinatos de dois dos maiores e, por terem morrido cedo, mais lendários nomes da história de um hip-hop que, à época, estava saindo de sua infância enquanto gênero musical.

Isto porque esta história toda começa com uma rixa besta entre as costas leste e oeste dos EUA. O hip-hop nasceu e tomou corpo em Nova Iorque com faixas até certo ponto inocentes como Rapper’s Delight, enquanto que Los Angeles, até o advento do NWA e do gangsta rap que literalmente tomou o mundo de assalto, fazia uma coisa ainda mais branda, tendo Dr. Dre, antes de fundar o NWA, inclusive produzido a clássica “It’s Automatic“, mais conhecida como Melô do Tchotchoméri e alicerce fundamental para os rudimentos do funk carioca. Havia, portanto, uma rixa de estilos entre as costas, alimentada timidamente por seus artistas, mas nada que chegasse perto do que viria a acontecer em meados da década de 90, culminando com o assassinato de dois dos nomes mais em evidência do hip-hop daquele momento, um com 25 e outro com 24 anos, largamente por causa do maior vilão (ou herói para alguns) da história do hip-hop: Suge Knight (Dominic L. Santana).

Conforme a série nos avisa ao final de cada episódio, nenhum dos crimes foi resolvido e tampouco qualquer suspeito foi acusado de qualquer coisa, permanecendo este aquele que é talvez o caso não resolvido mais famoso da história policial recente americana. A proposta da obra é, portanto, arriscadíssima. Passar 10 episódios de 45 minutos falando sobre uma investigação e, ao final, entregar um grande e fumegante prato de porra nenhuma ao espectador, roubando deste aquela catarse buscada em toda e qualquer série policial. E, não se engane, Unsolved funciona de forma muito similar a elas, com seus cliffhangers e momentos de tensão, mas se eleva acima destas ao se valer de um roteiro, apesar de formulaico, bem sofisticado dentro deste gênero, com tópicos relevantes e atuais (corrupção policial, racismo, etc.), aliado a interpretações convincentes de todo o elenco (com destaque para Bokeem Woodbine e Jimmi Simpson).

Temos aqui algo que a princípio pode soar confuso, mas que é muito bem amarrado pela narrativa. São 3 linhas temporais diferentes. A primeira é entre 92 e 95, mostrando como a relação entre Tupac e Biggie (Marcc Rose e Wavyy Jones, ambos idênticos aos rappers e cujo mérito para por aí) começou até o momento em que ela começa a degringolar por causa de razões alheias aos artistas, fomentando de forma violentíssima a já mencionada rixa oeste x leste, muito embora a relação tenha começado como de verdadeira amizade entre iguais.

Em 96 acompanhamos o périplo do detetive Russell Poole (o excelente Jimmi Simpson) e sua batalha para conseguir resolver o assassinato de Biggie, indo contra tudo e todos quando sua investigação o leva a suspeitar de envolvimento de oficiais do Departamento de Polícia de Los Angeles, uma força policial não exatamente conhecida por sua lisura e boa-vontade para com o próximo, em especial se o próximo tiver a pele escura.

Pulando para 2006, o detetive Kading (Josh Duhamel) monta uma força-tarefa federal com oficiais de várias forças americanas (FBI, ATF, etc.) para tentar resolver o caso, já que a mãe de Biggie, baseada nas teorias consubstanciadas em provas (ainda que circunstanciais) de Poole sobre uma conspiração policial, está processando a Polícia em 400 milhões de dólares, valor histórico do que se imagina seriam os ganhos do rapper ao longo de sua vida.

Mesmo com essa semi-loucura de ficar indo e voltando em várias linhas temporais, o roteiro faz um trabalho bom e até certo ponto didático de guiar o espectador a entender cada um dos contextos e ter a empatia necessária com os personagens. Peca, contudo, ao repetir a fórmula um tanto batida em séries policiais de se forçar grandes revelações ou descobertas dentro da investigação que jamais levam a lugar algum, o que, apesar de ser mais aceitável dadas as circunstâncias específicas da série, não deixa de irritar.

Outro ponto positivaço da série são as introduções de cada capítulo. Todos eles, sem exceção, começam quase como um videoclipe. Sempre ao som de algum clássica da música negra americana, dos mais varias estilos e gêneros, algum evento que se relacionará intrinsecamente ao arco principal daquele episódio é mostrado, com um esmero de montagem e produção raramente visto na televisão.

Entremeado também com fotos e vídeos reais dos acontecimentos aqui retratados, o que confere ainda mais verossimilhança a tudo que é mostrado, no fim das contas, Unsolved cumpre com louvor seu papel. É uma boa série policial com os diferenciais de ter um roteiro mais bem pensado do que o que se vê por aí normalmente e contar com atores de talento reconhecido para nos entregar a história sobre a vida e morte de dois dos mais amados artistas dos EUA e de uma investigação que jamais levou a lugar algum, mas que, como a vida, levanta questões (de relevância inegável) muito mais do que se propõe a dar respostas.

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